“Padrões europeus”

Filipe Diniz

Eurostat: “Números chave da Europa 2025”. Ignorando o tomarem-se pela “Europa”, terá utilidade para vislumbrar alguma da realidade em causa. E constatar como Portugal acompanha os “padrões europeus” em tudo o que é negativo.

O desemprego na UE ia nos 210 milhões. Com os jovens - 9% do emprego total - a representar 15,9% do emprego a tempo parcial, 33,3% dos contratos a termo. E 15% dos desempregados.

O quintil mais rico tem um rendimento 4,6 vezes superior ao do quintil mais pobre. 92,7 milhões em risco de pobreza. Mais de 40% da população impossibilitada de fazer face a uma despesa imprevista. 27,5% não tem condições para fazer uma semana de férias anual fora de casa. Portugal está em 6.º lugar entre os piores nisso, mas tem o privilégio de estar entre os que dispõem de excedente orçamental, a milhas das coitadas França, Itália, Bélgica, Áustria e outras, que não o têm.

Se a desindustrialização devastou por cá, é também porque seguiu um padrão UE. Nesta, entre 2000 e 2025, o valor acrescentado nos serviços passa de 69,5% a 73,5% do total. Na indústria passa de 22,4% a 19,2%. Na agricultura, floresta e pescas de 2,4% a 1,8%. Entre 2015 e 2025 o sector de serviços cresce mais de 130%, o sector industrial 5%. Uma economia sobre os pés de barro da financeirização e do capital fictício.

Veja-se o Luxemburgo, “sede da indústria global dos fundos”. Minúsculo território, 0,5% do PIB UE, paraíso fiscal onde são geridos “triliões € em activos”. Uma entidade, Clearstream, tem “22 triliões de activos sob custódia, 260.000 milhões em fundos de investimento abertos, 930 biliões em garantias consignadas” (o PIB conjunto da UE eram 18,8 triliões). Tem 660 mil habitantes. É o centro de uma engrenagem económica sem sustentação real, a caminho do desastre. É membro e participa nas agressões NATO, com 17 aviões de vigilância e comando (AWACS) em seu nome.

Parece como se a UE, com mais algumas contradições, tivesse os traços de um Luxemburgo ampliado.



Mais artigos de: Opinião

Quem luta não fica à espera que aconteça

A consigna “Luta, caminho da Vitória. Salários, pensões, serviços públicos. Novo rumo para Portugal” que o Partido lançou no seguimento da derrota do pacote laboral constitui uma expressão concreta, que a vida demonstrou, das tarefas e objectivos que se colocam aos trabalhadores e ao povo para...

O perigo fascista

O imperialismo “traz a guerra como a nuvem traz a tempestade”. Fascismo e guerra caminham de mãos dadas, e a deriva antidemocrática e militarista intrínseca ao neoliberalismo, se não for derrotada, tem o fascismo como desenvolvimento lógico. O revisionismo histórico, a promoção do racismo, do ódio e da violência; a...

A América que é grande

Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma história de opressão, guerra e desigualdades. Nas últimas muitas décadas, a principal potência imperialista do mundo representou, como ainda representa, o grande adversário das forças da paz, da democracia e do progresso social. Mas, sejamos justos,...

Ameaças em época estival

A informação divulgada de que o primeiro-ministro não vai tirar férias de verão só pode soar a ameaça. Quem aspirasse esperançosamente a ver no anúncio de um governo a banhos sinal que isso correspondesse a um curto, mas mesmo assim saudável, interregno no frenesim destruidor da actividade governativa com a...

“Policrise” e desgaste da AD

O Expresso referia que a “policrise” reentrou no léxico político, sem que a direcção do semanário (é claro) a considere um conceito próximo da crise sistémica capitalista, ou até da crise do Governo. Mas a verdade é que a realidade de hoje evidencia a “policrise” de um País em crise capitalista e de governo, na economia,...