ONU em ponto morto

Luís Carapinha

Prepotência do imperialismo é reflexo da sua crise estrutural

Os discursos de Trump e Netanyahu na AG das Nações Unidas foram ainda mais longe na infâmia e soberba, entrando no domínio do inqualificável. Perpassados pela fanfarrice e demagogia, quando não a pura patranha, não há como lhes retirar gravidade, pelo que representam de criminoso e fascistização do quadro internacional – absolutamente nos antípodas das aspirações dos povos à paz e a um mundo mais justo, que encontre respostas para os problemas mais prementes que afectam a Humanidade. Marcam, em especial, um momento sinistro para a ONU e os princípios consignados na sua Carta, e representam uma das páginas mais negras desde a sua fundação, em 1945, nas ruínas da derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Confirmam o estádio de subversão da ordem internacional, fixado no discurso de despedida do Secretário-Geral, António Guterres, na abertura dos trabalhos.

É óbvio que o espezinhar do direito internacional e as pretensões “revisionistas” do imperialismo contam com uma longa história e se intensificaram após 1991, embora os epígonos do pensamento dominante insistam em aplicar o termo aos países do CS que rejeitam a postura excepcional dos EUA e o primado da hegemonia das “potências ocidentais”. Basta lembrar o incumprimento, há décadas, das resoluções da ONU sobre a Palestina, as guerras de agressão contra a Jugoslávia, Iraque e Líbia, a prática da multiplicação das sanções arbitrárias, aliás, associada ao embuste do “mundo baseado em regras”, tornado lugar-comum na boca de Biden-Blinken e dos responsáveis da UE e G7. Esta é a rampa de lançamento para se chegar ao genocídio em Gaza e ao terrorismo de Estado sem máscara. Na ONU, tão grotesco quanto aviltante, Trump voltou a ameaçar o Irão com uma «aniquilação rápida» – insinuando o uso da arma nuclear –, vangloriou-se pelo sequestro de Maduro, presidente da Venezuela, frisando que «os despojos pertencem ao vencedor», isto é, o petróleo e riquezas do país, e reafirmando o domínio absoluto dos EUA, pela força se necessário, no “quintal” da América Latina. Ao atacar Cuba, voltou a exibir o anticomunismo cavernícola e apontar o dedo ao “inimigo interno”, o que traz à memória o pior dos tempos do maccarthismo. Por sinal, ao contrário do discurso demencial na sede da ONU, dois dias depois, no jantar na Casa Branca perante Xi Jinping, Trump elogiou o estado das relações com a China, apesar da existência de «diferentes sistemas». De facto, os EUA não podem evadir a complexidade da relação com a China, pivot da rearrumação global. Ao recuo na frente tarifária, soma-se o insucesso da guerra lançada por Trump ao Irão. Os sinais de alarme na economia avolumam-se com a espiral de endividamento e a subida dos juros, à porta das eleições intercalares. Além das dificuldades conjunturais, Washington depara-se com os dilemas do declínio e o exacerbar de contradições insanáveis.

Apesar da concentração capitalista atingir níveis inauditos, a expansão unipolar do sistema dá lugar a um regime de fragmentação e contracção, essencialmente reaccionário. Trump é expressão e veículo deste processo. Manter os privilégios exorbitantes do dólar e dominação impele os EUA numa fuga para a frente de militarismo, extorsão e pilhagem, exigindo também a submissão e «sacrifício» dos países aliados. A prepotência do imperialismo é o reflexo do quadro, incerto e instável, da sua crise estrutural.

 



Mais artigos de: Opinião

A mão que vai ao bolso nos combustíveis e nas rendas não é invisível

Numa situação marcada pela escandalosa acumulação de lucros, pelo acelerado aumento dos preços e a consequente degradação das condições de vida do povo, o Governo PSD/CDS e as demais forças políticas que apoiam a acção governativa mostram a marca da política de direita, tomando decisões e...

Ainda vai a tempo?

José Luís Carneiro (JLC) parece ter acordado para os problemas da habitação, que define como a sua «paixão e prioridade política», denunciando o impacto que tem a liberalização dos despejos, a que, com toda a parcimónia, se refere como «desalojamentos». Tenho de fazer dois reparos, um para memória futura e o outro para...

Neutralidade?

O rapper norte-americano Macklemore foi excluído da digressão de Ed Sheeran por expressar o seu apoio a uma Palestina livre da ocupação e do genocídio. Dos 10 espectáculos previstos, participou apenas em dois, mas não se arrepende: numamensagem partilhada nas redes sociais, valorizou essas «duas oportunidades para dizer...

“Vêm aí os russos”

“Vêm aí os russos” – título original “The russians are coming” – é um filme de Norman Jewison de 1966. Classificado nos sites como “comédia de guerra”, cria a narrativa de um submarino soviético que encalha, por acidente, na costa USA, numa ilha do Massachusetts, 400 km a norte de Nova Iorque, e cuja tripulação...

Duas palavras

Duas palavras são bordões no discurso da direita (mais ou menos extrema): “reformas” e “segurança”. Tal como para praticamente todo o discurso dominante, cada palavra proferida carece de exame. Veja-se as “reformas”. Não é acidental que o actual partido de extrema-direita na Grã-Bretanha se chame precisamente “Reform...