Santarém beneficia pouco dos seus rios
Águas furtadas
O aproveitamento dos rios e das suas múltiplas valências poderia ser uma das alavancas para o definitivo arranque do distrito de Santarém no caminho do desenvolvimento. Aliás, estes foram, desde os tempos mais remotos, factores decisivos de fixação das populações às terras, bem como do seu crescimento e desenvolvimento. No Ribatejo, isto é notório: excluindo localidades mais recentes, nascidas em torno de importantes vias de comunicação, foi a proximidade dos rios, nomeadamente do Tejo e dos seus principais afluentes, que determinou ao longo dos séculos a criação e o desenvolvimento das vilas, aldeias e cidades ribatejanas.
A importância dos rios é hoje diferente. O caminho-de-ferro e a estrada substituíram-nos como via de comunicação privilegiada e a pesca fluvial já não é determinante para a sobrevivência das populações. Mas a sua validade é ainda imensa. Aos rios surgem associadas actividades tão decisivas como a agricultura ou o turismo que, para serem potenciadas, apenas carecem da tomada de algumas medidas concretas. Na sua maioria, relativamente simples.
Amândio Freitas, presidente da Federação dos Agricultores do Distrito de Santarém, lembra que a regularização do Tejo é a mais urgente medida que necessita de ser tomada na região. «Precisávamos mais da regularização do Tejo do que de uma Expo’ 98 ou de um Euro’ 2004», afirma o dirigente. «Era mais importante para a economia e até saía mais barato», adverte. Se existisse um plano de rega do Tejo, que passasse pela construção de um conjunto de barragens e diques, refere Amândio Freitas, os agricultores poderiam regar as suas terras a mais baixo preço, directamente a partir do rio. E a drenagem das terras seria também uma realidade. Celestino Brasileiro, agricultor, refere que ao não se proceder à limpeza das valas, a água em excesso fica nas terras e constitui uma limitação à produção.
O presidente da Federação dos Agricultores revela um dado impressionante: «noventa e nove por cento da água utilizada para a agricultura provém de furos.» E se isto acontece é exactamente porque o rio não se encontra regularizado, acusa. «A água passa um ano junto a uma das margens e no ano seguinte pode estar a passar pela outra, deixando a primeira apenas com areia», afirma. «E com areia não se rega grande coisa», ironiza. Uma certeza Amândio Freitas tem: «se a regularização do Tejo servisse a três ou quatro grandes empresas agrícolas, já estava feita há muito tempo.»

Governo tem que intervir

Também Armindo Pinhão se queixa da falta de regularização do Tejo. O vice-presidente da Região de Turismo do Ribatejo considera-a indispensável para o desenvolvimento do turismo. Com o Tejo navegável, considera, a oferta de actividades de lazer e desporto seria incrementada, à semelhança do que se já faz noutros rios da região e do País. O Zêzere, por exemplo, já está a ser aproveitado para a prática da canoagem.
Embora considere que muito há a fazer no campo das actividades de desporto e lazer ligadas ao rio, Armindo Pinhão declara ser esta a componente que está mais desenvolvida. Passeios de barco e circuitos fluviais entre as margens do rio e os mouchões (pequenas ilhas) são algumas das actividades que se realizam já nas várias localidades da região, assim como os concursos de pesca, possibilitados pela construção de pequenos diques.
Noutras áreas, o atraso é grande. Nomeadamente naquelas que exigem uma intervenção clara e decidida do poder central. Por exemplo, a construção de estruturas de apoio, como restaurantes ou museus, está, em algumas situações, dependente de uma acção nas margens, que na maioria dos casos não tem existido. O mesmo se passa com a recuperação das antigas aldeias dos pescadores e a sua conversão em locais de apoio ao turismo.
Mas tudo isto não chega, avisa Armindo Pinhão. «Poderia fazer-se praias fluviais, mas era necessário que as águas estivessem devidamente tratadas», afirma. Os problemas ambientais, destaca o vice-presidente da Região de Turismo do Ribatejo, têm que ser resolvidos «para que seja possível às pessoas tomarem banho no Tejo, o que hoje não é recomendável». A fábrica de celulose Caima e a poluição oriunda de alguns afluentes constituem sérias limitações ao desenvolvimento do turismo. É necessário um projecto integrado, assegura Armindo Pinhão. «Se toda esta “matéria-prima” for devidamente tratada, as oportunidades são muitas», confia.

Contado não se acredita

Segundo o presidente da Federação dos Agricultores do Distrito de Santarém, o aproveitamento quase inexistente das águas do Tejo provoca espanto a muitos agricultores estrangeiros. Amândio Freitas conta que em muitas das reuniões em que participa fora de Portugal o assunto é abordado. Agricultores espanhóis chegam mesmo a ironizar com a situação, incrédulos, conta o dirigente da Federação: «para que é que vocês querem a água se a deixam correr livremente para o mar», questionam frequentemente.
Também a uma delegação de agricultores holandeses, que esteve na região há poucos anos, a situação pareceu insólita. «Não percebiam como é que o Tejo passava por toda aquela área livremente, sem ninguém o parar», lembra Amândio Freitas. «Eles têm piores condições climatéricas e geográficas do que nós, mas conseguem produzir mais e melhor», destaca. Importantes obras foram feitas e até ao mar se roubou terra. Por cá, nem uma barragem.
Somando esta questão às dificuldades impostas pela Política Agrícola Comum (PAC), e pelas grandes cedências dos sucessivos governos nacionais, o resultado é o conhecido. Muitos agricultores abandonaram a actividade na última década.

Rio Alviela
Voltar atrás?

O desassossego voltou às localidades ribeirinhas do rio Alviela. Nos últimos meses, os níveis de poluição aumentaram e os maus cheiros fazem-se novamente sentir. À memória vêm tempo idos, nos quais o rio se transformara num autêntico esgoto a céu aberto, sem vida.
Massacrado durante anos por efluentes tóxicos lançados pelas fábricas de curtumes de Alcanena, o rio Alviela tornou-se palco daquela que foi, talvez, a primeira batalha ambientalista em Portugal, nos já distantes anos setenta. Luta essa que teve corolário na construção e entrada em funcionamento, já na década de 90, do sistema de tratamento de Alcanena, que tem na ETAR o seu principal equipamento. Ainda em Abril, um autarca da região lembrava, em declarações a um jornal regional, que o ecossistema começava a regenerar-se e a vida regressava novamente ao rio, tal como o peixe e os pescadores. Com o reinicio das descargas, tudo parece voltar atrás.
Segundo afirmações dos responsáveis, há problemas no sistema de tratamento de Alcanena. Para além de ter uma capacidade reduzida, afirmam, parece começar a dar também sinais de degradação. Quando chove, ocorrem infiltrações ao longo dos 40 quilómetros de colectores e esta água contribui decisivamente para esgotar a capacidade de armazenamento dos tanques. Quando isto sucede, lembram, a ETAR automaticamente descarrega o caudal excedente directamente para a ribeira que desagua no rio.
Muitas destas explicações não convencem. Por clarificar fica, por exemplo, a razão do aumento da poluição num quadro de pretensa crise do sector dos curtumes ou algumas coincidências excessivas nos dias e horas a que se dão as descargas poluentes.
O regresso da poluição vem juntar-se a outros problemas que o Alviela enfrenta, nomeadamente a degradação em que se encontra o espaço de lazer Mouchão Parque, em Pernes, que corre o risco de desaparecer, levado pelas águas.

Nascente do Almonda
Poluído à nascença

Não estivesse à vista de todos e seria inacreditável. Na freguesia do Pedrógão, concelho de Torres Novas, há um rio que nasce para dentro de uma fábrica. Instalada por cima da forte nascente do rio Almonda, a Renova resolvia num ápice – e sem custos – dois problemas: a lavagem das pastas de papel e o despejo das lamas dela resultantes. O resultado só podia ser o que foi: a poluição total do rio.
Hoje, as coisas são diferentes. Graças à luta das populações, foram construídas – se bem que apenas na segunda metade da década de 90 – as estações de tratamento e as águas já são devolvidas ao rio depois de tratadas. Mas foi uma luta difícil, recorda Silvino Lima, presidente da Junta de Freguesia e trabalhador da Renova até 1999.
«Era dirigente sindical e andava sempre em cima deles para que as lamas não fossem directamente lançadas ao rio», lembra Silvino Rosa. Como represália por tão intenso combate, a empresa perseguiu-o, tirando-o do posto de trabalho que ocupava há mais de vinte anos e colocando-o num sítio isolado, «onde só havia teias de aranha e lixo». Um dia sucumbiu ao cansaço e acabou no hospital. A rescisão do contrato com a empresa foi o passo seguinte. Tudo isto se passou após a construção da ETAR nos terrenos que ele próprio cedera à empresa. «Primeiro apanharam aquilo que queriam e depois puseram-me fora», recorda.
À distância de quatro anos, é hoje visível que a vitória deste duro embate pertenceu ao actual autarca: a Renova teve que construir as estações de tratamento e as lamas já não são lançadas para o rio.
Mas o combate está longe de terminar. A poluição do Almonda começa agora mais atrás, antes mesmo do rio nascer. Os esgotos domésticos são deitados directamente para alguns ramais do rio, que se depositam na nascente, conta o autarca. Um desses ramais vem do Alviela, um rio com bastantes problemas de poluição. Ao presidente da câmara de Torres Novas, Silvino Rosa deixa o repto: «deve-se despoluir todo o rio e não só a parte que passa na cidade. O concelho não é apenas a cidade.»

Vale do Sorraia
Privilegiado e molestado

Ao contrário de outros afluentes do Tejo, o rio Sorraia – nascido na vila do Couço da confluência dos rios Raia e Sôr – não se debate com grandes problemas de poluição industrial. E também não vê as suas águas correrem livremente para o Tejo como este vê as suas fugirem para o mar. No vale do Sorraia há um plano de rega, constituído por barragens, diques e canais: ao contrário de outros rios, o Sorraia percorre uma zona de latifúndio e o fascismo era generoso para com os grandes proprietários. Depois de assumir um papel fulcral durante a Reforma Agrária, o rio tem hoje um função mais apagada: o latifúndio foi reconstituído, a agricultura está ao abandono e muitas das regas são feitas a partir de furos. E o rio corre triste, desnecessário.
O turismo é, para Diamantino Ramalho e Luís Alberto, uma das possíveis alternativas para dinamizar a freguesia. Mas necessita de um investimento que a Junta de Freguesia – a que Diamantino preside – não consegue suportar. Reconstruir o dique de areia que a água levou, de forma a potenciar a pesca desportiva, é uma das ideias. Mas para isso é necessário limpar e regularizar as margens do rio. E tudo continuará sempre a saber a pouco…


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