• Aurélio Santos

«Quando chegar o momento»...
Há frases que definem uma concepção do mundo. Como a do eng. Sócrates, nas suas primeiras palavras como secretário geral do PS, ao afirmar que o PS estará pronto a ocupar o poder,«quando chegar o momento».
Sócrates quis apresentar-se como um líder «moderado», «pragmático», recusando «utopias» de esquerda. Como sublinhou um comentador, «orientou-se» para o território moderado que define os resultados eleitorais», «jogando no mesmo terreno do governo», porque «é ao centro que se chega ao poder». Ideias que assentam como uma luva ao eng. Sócrates, E se o filósofo grego Sócrates foi condenado a beber veneno por ter ideias novas, este Sócrates de Séc. XXI é de um conformismo tão passivo, tão acrítico, tão reverente ante os poderes instalados que nunca será condenado a beber cicuta: não tem ideias novas.
O seu apelo à maioria absoluta, tendo como horizonte uma bipolarização da vida política, assenta na concepção redutora de uma democracia encurralada numa alternância no poder entre dois partidos representando no fundamental os mesmos interesses, gravitando na sua órbita e aplicando políticas semelhantes. Cobertura ideal para uma ditadura de facto das classes dominantes e dos seus interesses. Modelo desfigurado da democracia, que tem levado ao descrédito do regime democrático e avanço das políticas e forças reaccionárias e antidemocráticas.
Seria interessante o Congresso do PS discutir estas questões. Mas que vimos? O líder, mediaticamente promovido, é eleito antes da clarificação do seu programa e das suas linhas de orientação e antes do Congresso, de facto já hipotecado, depois de uma campanha plebiscitária em que dominou a angustiante procura de um «líder» messiânico, ou seja, capaz de levar o seu povo à terra prometida: a tomada do governo, apontada como objectivo único de um partido que tem como bússola o marketing eleitoral. Nem mesmo a aflorada questão do posicionamento político e ideológico do PS foi esclarecido, afogando-se no nebuloso conceito de uma «esquerda moderna».
Deixemos Sócrates ficar à espera de «chegar o momento» oportuno da sua oportunidade de poder, numa concepção atentista, paralisante e desmobilisadora da vida democrática. Se «modernidade» é isto…
Não é essa a nossa concepção de democracia.
Uma democracia autêntica tem de assentar numa intervenção permanente do povo na vida política, lutando pelos seus direitos e interesses, e por uma política de governo que corresponda a esses direitos e interesses. Nós não vamos ficar à espera de «o momento» em que o governo de direita caia por si. Lutamos contra a sua política e os seus efeitos, em cada dia. E para lhe por termo o mais depressa possível. Com este governo ou qualquer outro que a pratique. Nesta base sólida e concreta de unidade se molda uma real alternativa e o revigoramento do regime democrático.
Para isso, contem connosco.


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