• Manuel Augusto Araújo

A dor aguda de viver<br>a vida e a evoluição
«Pensavam que eu era surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade». Escreve Frida Kahlo desfazendo um equívoco que a perseguiu. Os seus quadros, ultrapassada uma primeira fase em que a pintura mexicana do século XIX se misturava com influências europeias, mergulham directamente num simbolismo muito mexicano e popular em que a influência de Diego Rivera e dos outros muralistas mexicanos era visível. Participa, com outros artistas e intelectuais mexicanos, na procura de uma afirmação forte na cultura nacional, onde as raízes pré-colombianas e hispânicas irrompiam, libertando-se das influências neocolonialistas norte-americanas e europeias, o que, em Frida Kahlo, adquiriu contornos muito particulares.
Essa procura e afirmação de uma cultura mexicana independente enquanto elemento fundamental dos valores que construíam a identidade nacional, era a expressão de um empenho muito forte na Revolução Socialista como solução libertadora da sua pátria e da humanidade. No entanto, e apesar de vários quadros com referências políticas muito directas como o «Auto-Retrato com Estaline ou O Marxismo Dará Saúde aos Doente”, Frida sempre afirmou que a sua pintura não era revolucionária.
A pintura e as temáticas de Frida Kahlo distinguem-se, são inconfundíveis a que não é alheio o imenso sofrimento físico que sofreu nos seus curtos cinquenta e sete anos de vida. A poliomielite aos seis anos que lhe atrofiou o pé esquerdo e a perna direita, o acidente aos dezoito, a que sobrevive extraordinariamente mas com consequências secundárias de que nunca se refez. A essas limitações físicas somam-se os dramas psicológicos da paixão tumultuosa que manteve com Diego Rivera. A resultante é uma pintura de auto-retratos que se podem ler como capítulos de uma autobiografia. Está lá tudo o que de importante lhe aconteceu. Do acidente que a ia vitimando à intensa actividade política; da sinalização do seu divórcio com Diego, com quem voltaria a casar, à ama índia que a amamentou em substituição da mãe ou à frustração sentida após uma operação à coluna vertebral que não a curou nem lhe minorou as dores. Assim se percebe porque não considera a sua pintura revolucionária mesmo quando a evidência da temática política tem uma visibilidade imediata. Considera-os um dos actos da sua vida que regista tão normalmente como quando pinta um quadro com a sua árvore genealógica.
É essa a singularidade radical da sua obra pictórica onde escreve a dor aguda de viver com a força que vai buscar à intensidade com que vive tudo, das paixões à actividade política. Um radicalismo que encontra expressão nas claras motivações ideológicas que tem quando pinta na base do imaginário dos quadros votivos populares mais a fauna e na flora do seu país que os povoam.
E ela, sempre ela, nos seus vestidos tipicamente mexicanos, «eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o tema que conheço melhor». Frida com o Cabelo Cortado, na sequência do divórcio com Rivera sob a letra da canção «se te amei foi pelo teu cabelo, agora que estás careca já não te amo»; Frida com Diego no Pensamento, saindo do divórcio para o segundo casamento com Diego; Frida com a Coluna Partida, o corpo rasgado para deixar ver a «sua coluna jónica» fendida e a dor simbolizada pelos pregos que lhe cravejam a carne; Frida com Marx que irá libertar toda a humanidade e a ela que «primeira vez deixei de chorar»; Eu Sou Um Pobre Veado, Frida ferida pelas setas da desilusão de uma operação, em Nova Iorque, à coluna vertebral que nada resolveu; Frida com a Morte, a morte no pensamento, a morte que a persegue desde que nasceu que se aproxima rapidamente a partir dos anos 40, quando a sua saúde se deteriora rapidamente, o que não lhe tolhe nem as mãos, nem o pensamento, nem a actividade política «espero a partida com alegria». E a partida desta mulher bela, apaixonada e apaixonante, chega em 13 de Julho de 1954, semanas depois de participar numa manifestação contra a intervenção norte-americana na Guatemala, ainda convalescente de uma pneumonia e já depois de lhe ter sido amputada a perna direita.
Como se pode ver a exposição de Frida Kahlo, no Centro Cultural de Belém, sem a memória e a emoção de recordarmos a sua vida em todos os quadros que vemos e nos que lá não figuram, retratos a fogo da sua luta individual e colectiva? Sem o último auto-retrato, o que não pode pintar: Frida repousando no leito de morte com um beijo de Diego e a bandeira do Partido nas mãos.

Frida Kahlo
Centro Cultural de Belém
Até 21 de Maio
Terça-feira a Domingo
Das 10h às 19h


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