Na agenda das lutas dos trabalhadores, perfilam-se o 25 de Abril e o 1.º de Maio
Protesto a milhares de vozes em Lisboa e no Porto
«É de mais!»
Contra os efeitos de uma crise que afecta gravemente os trabalhadores, mas traz elevados lucros aos patrões dos grandes grupos económicos, e contra a política que favorece os lucros e ataca os salários, trabalhadores de todo o País gritaram, sábado à tarde, «injustiças sociais, arre porra, que é de mais».
A crueza da palavra de ordem, provavelmente a mais repetida nas manifestações de Lisboa (da Praça do Chile até ao Rossio, onde intervieram Susana Marques, da Interjovem, e Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP-IN) e do Porto (entre as praças da Batalha e de D. João I, onde interveio João Torres, da Comissão Executiva da CGTP-IN), expressa o grau de descontentamento e indignação que sentem os trabalhadores portugueses e que muitos já não podem calar, apesar das fortes pressões e limitações a que estão sujeitos nas empresas e serviços.
Como resultados das políticas que o actual Governo, como os anteriores, do PSD ou do PS, está a levar a cabo, a resolução aprovada no final das duas manifestações aponta «o permanente atraso do País, o encerramento de empresas e os despedimentos, o agravamento do desemprego e da precariedade, o aumento das discriminações no local de trabalho e na sociedade, a diminuição do poder de compra dos salários e pensões, o ataque aos sistemas públicos da Segurança Social, da saúde e da educação, os aumentos escandalosos dos preços de serviços e bens essenciais para a população, numa espiral que conduz a um forte agravamento do custo de vida, acentuando ainda mais as injustiças e desigualdades sociais».
O documento, cujas linhas essenciais foram seguidas pelos oradores, denuncia que «a crise não bate a todas as portas» e que «os lucros colossais, apresentados pelos bancos e os grandes grupos económicos e financeiros, a febre das OPAs e a especulação financeira, daí decorrente, mostram que há quem engorde e se dê bem com o caminho que as coisas levam, nem tenha qualquer problema de consciência, mesmo sabendo que a sua riqueza é obtida à custa de centenas de milhar de despedimentos, de falências, do agravamento do nível de vida das famílias ou, ainda, da miséria e exclusão social de muitos portugueses».
Até pelos resultados obtidos, em vários casos recentes, a CGTP-IN realçou a importância da luta dos trabalhadores, apelando ao seu prosseguimento com mais força e numa convergência dos diferentes sectores e empresas, reclamando a alteração das políticas. Em concreto, como salientou Carvalho da Silva, é necessário defender o aparelho produtivo e o emprego, concretizar projectos novos que valorizem o emprego, valorizar a contratação colectiva (atacada pelo patronato em muitos sectores), rever o Código do Trabalho, aumentar o salário mínimo nacional e os salários, em geral, garantir o acesso dos trabalhadores à Justiça, combater o desemprego e a precariedade.
A este propósito, o dirigente da central referiu mais uma vez a proximidade entre a luta que se trava em França (também noticiada nesta edição) e o combate, em Portugal, contra o trabalho precário, uma vez que os jovens portugueses, segundo a nova legislação, podem ficar até 18 meses contratados a prazo, ficando depois sujeitos a outros vínculos instáveis.
Segundo Susana Marques, a dirigente da Interjovem que antecedeu Carvalho da Silva, há hoje no País 70 mil jovens empregados através das empresas de trabalho temporário, muitos dos quais se vêem forçados a abdicar dos direitos, face ao receio de perder o emprego. A gravidez da jovem dirigente deu ainda mais força à referência que fez às dificuldades que os jovens têm para alugarem ou comprarem casa, para constituírem família ou para decidirem ter filhos.
A crescente participação dos jovens na actividade sindical e nas lutas dos trabalhadores, evidente na manifestação nacional de 28 de Março, reflectiu-se igualmente na manifestação de Lisboa, quer no grupo de activistas da Interjovem, que desceu a Avenida Almirante Reis imediatamente a seguir à cabeça da manifestação, quer pela presença jovem em praticamente todos os sectores representados.
O apelo ao prosseguimento da luta – quer no confronto dia-a-dia com o patronato e o Governo, quer nas comemorações do 25 de Abril e dos 30 anos da Constituição, quer ainda num 1.º de Maio que seja «uma grande e poderosa manifestação de festa e de luta, pela dignificação do trabalho, pela afirmação dos direitos laborais e sociais dos trabalhadores e pela melhoria das condições de vida das famílias, pelo progresso e pela paz», como refere a resolução – ficou também patente nas palavras de ordem, nas faixas e cartazes. «Com a nossa luta, as maiorias também se abatem», lembravam trabalhadores do distrito de Castelo Branco, enquanto no grupo de Odivelas um cartaz anunciava «1 de Abril, dia do Sócrates». O nome do primeiro-ministro, vibrantemente vaiado no Rossio, serviu ao longo do desfile de apelativo, para dizer que «os trabalhadores estão em luta». Muitas vezes, gritou-se simples e firmemente «a luta continua».

CM Lisboa censurou

A Câmara Municipal de Lisboa, no dia 29 de Março, «retirou abusivamente algumas faixas» que anunciavam a manifestação de sábado da CGTP-IN. À imprensa, a União dos Sindicatos de Lisboa denunciou que tal foi feito «sem qualquer justificação, informação ou aviso prévio», numa atitude «inadmissível» e «provocatória», já que «outra propaganda exposta, da responsabilidade de outros, não foi removida».
Esta situação, que a USL insistiu em tratar numa reunião pedida a Carmona Rodrigues, «há muito que não se verificava neste concelho, exceptuando a surpreendente retirada, na passada semana, da propaganda alusiva ao Dia Nacional da Juventude» (e que justificara uma primeira carta de protesto ao presidente da CML).


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