A escola devia garantir que os estudantes passassem nos exame
Campanha da JCP contra exames e testes nacionais
Avaliação contínua é mais justa
A JCP lançou uma campanha contra os exames e os testes nacionais em todo o País. Débora Santos, Ricardo Guerra e André Martelo apresentam os argumentos e explicam como está a decorrer a iniciativa.
«A lei define que a avaliação deve ser contínua e, com os exames nacionais, o trabalho de um ano inteiro é avaliado em duas horas. O exame conta 30 por cento da nota do ano e 50 por cento para a entrada no ensino superior. Não é justo.» É assim que André Martelo, da Organização do Ensino Secundário do Seixal da JCP, resume as razões para o fim dos exames nacionais.
A avaliação contínua é o argumento de peso da JCP. Porque avalia todos os conhecimentos do estudante, a sua evolução, o trabalho em aula, a assiduidade, o empenho e o esforço, os trabalhos de casa e as respostas nas aulas. Num exame ou teste nacional, é avaliado por uma pessoa que não o conhece e não pode levar em conta os seus progressos e as condições de estudo, como a existência de problemas em casa.
«Com os exames, já não bastava que não passássemos para o ensino superior, ainda se faz com que nem se saia do ensino básico. Isto desmotiva. Estamos na escola também porque queremos aprender, por isso convém sair com uma boa formação. Mas não é isso que acontece. Passamos o ano a preparar-nos para os exames», refere Débora Santos, responsável nacional pelo ensino secundário da JCP.
Mas é mesmo provável que um bom aluno seja prejudicado pelos exames, ou seja, uma pessoa que tenha boas notas ao longo do ano pode ter maus resultados nos exames e baixar muito a média por isso? «Sim, isso acontece. Alunos que nunca iriam chumbar, podem chumbar com os exames», garante Débora. «Acontece com frequência, até porque as escolas são muito diferentes: não têm o mesmo tipo de estudantes ou as mesmas condições de trabalho, nem se dá o mesmo tipo de aulas. O exame não nivela os estudantes. Eu tive disciplinas em que passávamos matéria à frente porque se sabia que não saía no exame. Assim, as aulas não são dadas para aumentar a nossa formação, mas para os exames», acrescenta.

A importância das explicações

Ricardo Guerra, responsável pela organização do secundário de Lisboa, fala na diferença de condições das escolas e da falta de apoio pedagógico fora das aulas: «Os filhos dos trabalhadores têm mais dificuldades para continuar a estudar e fazer o ensino superior, porque não têm explicações. Além disso, as escolas que frequentam não têm tantos materiais de qualidade, como laboratórios, bibliotecas e computadores. As turmas são extensas, com 30 alunos.»
O apoio extra-curricular não se aplica a todos. Os estudantes podem pedir, mas só têm acesso se os professores considerarem que é mesmo necessário para passar, não para ter boas notas. «Normalmente, só tem apoio quem tem mais de três negativas. Colegas que têm dizem-me que só preenchem fichas, mais nada», explica André.
«Outro dia uma aluna que ia ter exame de matemática dizia-me que até há pouco tempo achava que era possível passar nos exames sem explicações, mas que agora percebe que, se não tivesse tido explicações ao longo de todo o secundário, não teria passado», conta Débora. «Mas a questão é que não deveria ser necessário recorrer a explicações, devia ser a escola a garantir que os estudantes tivessem condições para fazer os exames. O que acontece é que quem tem dinheiro paga a explicação, safa-se no exame e prossegue os estudos. Quem não tem acaba por ir chumbando, entra no mercado de trabalho com pouca formação e cultura geral, como mão-de-obra mais barata e fácil de explorar», defende.

Até dia 25
Para acabar com exames


«O senhor exame voltou», lê-se no folheto da campanha da JCP contra os exames nacionais. Seguem-se as principais propostas dos jovens comunistas: o fim dos exames e dos testes nacionais e uma avaliação contínua e justa.
Milhares de estudantes em todo o País já receberam este documento à porta da sua escola. A campanha iniciou-se no dia do primeiro exame, a 19 de Junho, com a colagem de cartazes e a distribuição de folhetos e autocolantes à entrada e à saída dos exames. O objectivo é explicar como os exames funcionam como uma barreira e recrutar novos militantes.
Débora Santos faz um balanço desta primeira fase da campanha, que corresponde à primeira fase dos exames: «Fomos a escola onde não íamos há algum tempo, em distritos onde há mais dificuldades. Mais do que dar o panfleto, queremos conversar com os estudantes para saber o que eles pensam e para que eles conheçam as nossas posições.» Foram feitos recrutamentos em Évora, Setúbal e Lisboa.
Ricardo Guerra conta como ouvem frequentemente frases como «São eles outra vez». «É bom sinal, é o reconhecimento que a JCP vai ali o ano inteiro», comenta, contando que muitos estudantes se dirigem aos jovens comunistas a fazer perguntas. «Fomos bem recebidos. Os estudantes cada vez estão mais consciencializados, também pelo trabalho que a JCP faz durante o ano lectivo. Há escolas em que não temos uma boa recepção, mas é normal porque não temos ido lá frequentemente. A recepção à segunda vez é melhor e à terceira ainda mais», refere. «Já nos conhecem. Numa escola onde vamos uma vez, a recepção é pior do que numa escola onde vamos distribuir o boletim de escola, documentos nacionais, o Insubmissão», acrescenta Débora.
A campanha recomeça na segunda fase dos exames, no próximo dia 19, e prolonga-se até 25. «Na segunda fase, faremos um reforço. Vamos às escolas onde ainda não fomos», diz Débora. Vão ser colados novos cartazes, penduradas faixas e preparadas iniciativas paralelas como bancas de informação ou barreiras simbólicas. Para esclarecer e acabar com os exames.

Consequências negativas
para os jovens e para o País


O abandono escolar em Portugal atinge as mais altas taxas da União Europeia. Na opinião da JCP, os exames e os testes nacionais agravam o problema. «No distrito de Beja, fizemos uma distribuição numa escola de onde saíram 8 estudantes do exame de português. Em zonas menos desenvolvidas é muito comum as pessoas deixarem de estudar por causa da falta de condições, mas muitas também por causa dos exames. Chegam a esta altura, vêem que não passam no exame e não vão fazê-lo», afirma Débora Santos.
O que acontece a estes jovens? Ricardo Guerra responde: «Vão para o mercado de trabalho como mão-de-obra barata e sem qualificações. E mais facilmente são explorados.» Débora comenta: «Se forem aceites. Sem o 9.º ano é difícil.» Ricardo acrescenta: «Não é por acaso que a maior parte das pessoas que trabalha nos centros comerciais são jovens. São explorados e não é pouco!»
Uma das consequências é adiar a saída de casa dos pais, não por opção, mas por falta de condições económicas para viver sozinhos. «Arranjando casa própria, estão sempre a contar o dinheiro. A prioridade é ter comida e um sítio para viver. Tudo o resto – casa própria, filhos, lazer – fica para depois. O mais provável é trabalhar muito e receber pouco», diz Débora.
Também o País sofre com o baixo nível de escolaridade dos jovens portugueses. «Perspectiva-se um futuro negativo», considera Ricardo Guerra. «A educação é uma das bases da sociedade. Se há pouco investimento e os estudantes saem com pouca formação, vamos vê-los a serem explorados pelo patronato», refere Débora Santos. «E o grande capital é favorecido por esta situação», acrescenta André Martelo.



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