• Miguel Urbano Rodrigues

Duas semanas no Irão -I
Um povo pacífico e civilizado <br> num país de cultura milenar
Lenine dizia que a ideologia da classe dominante nos países capitalistas marca decisivamente todos os aspectos da vida social. Ao visitar em Maio o Irão recordei a afirmação do autor de O Estado e a Revolução. Porquê? Porque durante duas semanas viajei pelo país de surpresa em surpresa. O encontro com uma realidade muito diferente da imaginada fez-me tomar consciência de que mesmo aqueles que se julgam imunizados contra os efeitos da desinformação promovida por um sistema mediático perverso são de alguma maneira influenciados por campanhas que projectam uma imagem deformada de povos satanizados pelo imperialismo.
O Irão que descobri nada tem de comum com o Irão que os Estados Unidos apresentam como uma sociedade de islamistas fanáticos que ameaçaria a paz mundial, um país retrógrado e belicista para o qual Bush e Rumsfeld pedem sanções do Conselho de Segurança da ONU, encarando mesmo a hipótese de o bombardearam com armas nucleares tácticas.
Em Pasargada, junto do túmulo de Ciro o Grande, o fundador do Império Aquemenida, 550 anos antes da Nossa Era, encontrei um casal canadiano que expressou num desabafo o seu espanto:
«No meu país a televisão diz tais coisas do Irão que eu, fora das ruínas da Pérsia antiga, esperava encontrar uma terra de camelos, com estradas poeirentas, violência nas ruas, proibição de entrar nas mesquitas e tropa por todo lado. E afinal este povo impressiona pela cultura, pela educação, pela simpatia com que recebe os estrangeiros…»
Evoco o episódio por ser expressivo da reacção da maioria dos turistas ao serem confrontados com um sociedade civilizada, a antítese do «estado bandido» de ayatollahs medievais obcecados pela ambição de dominar o Médio Oriente pela força das armas.
Aqueles que ao desembarcar temem enfrentar uma polícia de fronteiras carrancuda e formalidades burocráticas demoradas têm a primeira surpresa. Tudo é mais fácil do que na Europa de Schengen. No aeroporto carimbaram o passaporte sem olhar para mim e não me revistaram as bagagens. No hotel não me pediram sequer o passaporte, esclarecendo que a reserva continha os dados pessoais.
Pela primeira vez na vida, ao utilizar voos domésticos, não me pediram documento de identificação.
Na cadeia de surpresas, o asseio das cidades impressiona. Em Teerão, megalopolis de quase 13 milhões de habitantes, não vi lixo nas ruas. Nas estações do Metropolitano, revestidas de mármores, não se vê no chão um papel, um plástico, um simples bilhete usado.
Pedi ao guia que me levasse a bairros degradados. Ele não entendeu, inicialmente, o que pretendia. Quando visitámos depois áreas da periferia densamente povoadas percebi o motivo da sua perplexidade. Eram bairros de moradores pobres, de ruas estreitas, mas asfaltadas, com abastecimento de luz, água e gás. Nada que lembre as favelas brasileiras, as infectas barriadas de Lima, os casebres dos morros de Caracas.
O inesperado chegou também da visita aos bairros residenciais da classe dominante. O luxo e a riqueza não são ali menos ostensivos do que nas grandes capitais europeias. Milionários excêntricos escolheram terraços de alguns arranha-céus para instalar mansões, jardins e até piscinas em ambientes paradisíacos.
A existência de uma grande burguesia iraniana, que acumulou fortunas enormes na época do Xá Pahlevi – sobretudo na indústria, mas também no comércio – chama a atenção para a peculiaridade do regime iraniano. O anti-imperialismo da chamada Revolução Islâmica ideada pelo Ayatollah Khomeiny nunca pôs em causa – contrariamente ao que a extrema-direita estadunidense insinua – os pilares do sistema capitalista. O nacionalismo iraniano, positivo, foi orientado desde o começo para a modernização do país, iniciada aliás na época do Xá. O «Islão Político» – expressão usada por Samir Amin – iraniano tenta conciliar a gestão neoliberal de um amplo sector da economia com a existência de um capitalismo de Estado ancorado num poderoso sector público.
O Irão é um dos raros estados do Sul que criou e defende um projecto nacional burguês. O que Washington considera inaceitável na Revolução Islâmica iraniana é a orientação independente sua política exterior.
Toda o alarido em torno da suposta decisão de o país enriquecer o urânio para se transformar numa potência nuclear é uma cortina de fumo que esconde o objectivo estratégico dos EUA: esmagar um Estado, com um projecto nacional, herdeiro de grandes civilizações, que recusa submeter-se ao poder imperial norte-americano.
A linguagem, os argumentos e o estilo agressivo da campanha que apresenta o Irão como uma ameaça à segurança dos EUA repetem, sem imaginação, a lenga-lenga da campanha que precedeu a agressão contra o Iraque.
Acontece que o osso, agora, é mais duro de roer, e que os EUA, atolados em duas guerras perdidas, no Iraque e no Afeganistão, não se encontram em condições de se envolver num conflito desaprovado pelos próprios generais do Pentágono e que, no dizer de Kissinger, teria um desfecho de pesadelo.
Repentinamente, Bush moderou o tom ameaçador. Agora fala na via diplomática e Condoleeza Rice, embora condicione o diálogo com Teerão à suspensão da produção do urânio enriquecido, admite pela primeira vez a negociação directa com o governo de Amadinejad.

Um estado organizado

Não foi por acaso que no actual território do Irão se desenvolveram desde a Antiguidade civilizações brilhantes que contribuíram decisivamente para o progresso do homem.
Hoje, com 1 650 000 km2, o equivalente ao triplo da Espanha acrescentando ainda Portugal, Bélgica e Holanda, e 70 milhões de habitantes diferencia-se dos países da região pela sua riqueza em recursos naturais, a multiplicidade de climas que lhe permite uma produção agrícola diversificada e a existência de um Estado organizado.
A rede rodoviária, com magníficas auto-estradas, é uma das melhores da Ásia. No tocante a alimentos é praticamente auto-suficiente. Produz em média 13 milhões de toneladas de trigo por ano, e cevada, milho, arroz e batatas quase suficientes para o consumo. O rebanho de ovinos, com 60 milhões de cabeças, é dos maiores do Continente, assim como o de caprinos, cerca de 26 milhões. O número de bovinos excede 11 milhões.
Na indústria pesada a recuperação das destruições resultantes da guerra com o Iraque, quando os EUA apoiaram a agressão de Sadam Hussein – 500 000 mortos e muitas cidades arrasadas, sobretudo na província fronteiriça do Kuzistão – foi muito rápida.
O petróleo, o Irão é o quarto exportador, e o gás constituem a maior riqueza do país que possui as segundas reservas mundiais desses hidrocarbonetos.
A indústria automóvel produz anualmente 450 000 carros ligeiros e camiões, com a particularidade de os modelos mais vendidos serem nacionais. O Estado é proprietário das principais fábricas, nacionalizadas após o derrube da monarquia.
O nível de desenvolvimento do sector avançado da economia é comparável ao do Brasil e do México com a diferença de que na sociedade iraniana não existem como naqueles países milhões de párias vegetando numa miséria degradante.
Os grandes bancos são estatais e os sectores de ponta da indústria química são controlados também pelo Estado, que adoptou uma política de produção maciça de medicamentos genéricos vendidos a preços irrisórios.
A Segurança Social é igualmente da responsabilidade do Estado, assim como a importante e diversificada indústria militar. A notícia sobre o êxito de experiências com mísseis de médio alcance de difícil intercepção não surpreendeu, aliás, os especialistas do Pentágono.
Desejando a paz, os iranianos encaram com muita serenidade a possibilidade de uma agressão dos EUA. Destruir as infra-estruturas de um país é muito mais fácil do que ocupar-lhe o território.
Os dirigentes não acreditam numa invasão terrestre, mas não excluem a hipótese de bombardeamentos aéreos com armas tradicionais ou mesmo atómicas. A maioria não esconde, porém, a convicção de que Washington não dará esse passo desesperado por temer as suas consequências. Uma grande parte das exportações mundiais de petróleo sai do Golfo e bastaria que o Irão fechasse o Estreito de Ormuz, se fosse agredido, para que a situação criada provocasse uma crise mundial de proporções gigantescas.
Em viagem pelo planalto central, a caminho da cidade de Kashan, ao passar próximo das instalações nucleares de Natanz, parte delas subterrâneas, tive a oportunidade de avistar da estrada mísseis apontados para o céu.
Quando comentei o desenvolvimento da indústria militar, responderam-me que a Pérsia – o país somente mudou de nome no século XX – foi sempre ao longo da sua história multissecular um importante produtor de armas.
Turistas franceses e alemães com quem falei em Esfahan e Chiraz, e que viajavam em grandes grupos, manifestaram estranheza pela dimensão do sector empresarial do Estado e sobretudo por contradições no funcionamento de serviços públicos.
Um exemplo: as melhores universidades e as mais procuradas são do Estado num país no qual o poder religioso predomina. O grande Ayatollah Khameney, guia supremo da revolução islâmica, é a autoridade máxima da República, acima do Presidente Amadinejad

A mulher no Irão

A situação da mulher na sociedade alterou-se radicalmente quando Khomeiny tomou o Poder. Nesse campo houve uma involução. O uso do véu passou a ser obrigatório a partir da adolescência e algumas profissões foram-lhes interditas.
Verifiquei porém que o tchador – a túnica que as envolve deixando apenas visível o rosto – é minoritário na capital e na maioria das grandes cidades. Não vi aliás uma só burka, a peça única que cobre todo o corpo, da cabeça aos pés, permitindo apenas o contacto com o mundo através de uma pequena rede em frente dos olhos. Essa ruptura com a tradição impressiona porque a burka manteve-se como vestuário feminino dominante no Afeganistão mesmo durante a Revolução, quando em Kabul estava no poder um partido marxista.
Curiosamente, o Irão é como a Turquia um dos raros países muçulmanos onde os homens renunciaram ao uso de roupas orientais. Somente as exibem hoje os mullahs e os ayatollahs.
No tocante às mulheres as contradições são muitas. Podem ser professoras na Universidade e nos hospitais as médicas tratam normalmente os doentes do sexo masculino.
A resistência das mulheres às leis que lhes limitam os direitos – algumas ridículas como a proibição de assistirem nos estádios aos jogos de futebol, mesmo em bancada especial – é ostensiva. Em festas e reuniões sociais, muitas jovens ignoram o véu. Nas casas de chá, as chaikané, quase uma instituição nacional onde o mobiliário e a atmosfera são tipicamente orientais, vi sempre mulheres fumando descontraídas os narguilé, em desafio à proibição escrita nas paredes em cartazes bem visíveis.
A luta feminina pela recuperação de direitos perdidos gera um debate polémico que envolve toda a sociedade. Perguntei o que aconteceria se o assunto fosse submetido a um referendo. Ouvi respostas diferentes porque mesmo entre as mulheres muitas são tradicionalistas.
Mas adquiri a certeza de que a mulher iraniana não é o ser frágil, tímido e submisso que imaginam muitos europeus, confundidos por uma propaganda enganadora.
O seu encanto e personalidade já eram cantados pelos poetas da antiguidade.Confirmei que as persas sobretudo têm uns olhos enormes, levemente oblongos, com uma luminosidade que lhes realça a beleza e a brancura da sua pele.

Visita a Qom, cidade santa

Qom é, com Mached, uma das cidades santas dos xiitas iranianos.
Adquiriu prestígio para a posteridade na Idade Média quando ali morreu Fátima, a irmã do 8.º Imã xiita. As suas madrassas, universidades, passaram a atrair fiéis de todo o Islão como centros de saber teológico e a sua fama alastrou pelo mundo quando o Ayatollah Khomeiny, filho da terra, lançou dali o apelo à rebelião contra o Xá Mohamed Rehza Pahlevi, desafio que o levou ao exílio mas fez dele o líder de uma revolução simultaneamente religiosa e anti-imperialista que abalou todo o Médio Oriente como terramoto político.
Estive na cidade com uma amiga. Tínhamos sido informados de que era proibida a entrada de estrangeiros não muçulmanos no Mausoléu de Fátima Mansuleh.
A realidade desmentiu a informação. Fomos cortesmente recebidos pelas autoridades religiosas locais. Registamos inclusive as impressões da visita num livro, para difusão pela Internet.
O que nos chocou foram mais uma vez as contradições. A minha companheira de viagem entrou na sala sagrada do belo mausoléu de cúpula dourada por uma porta diferente da minha. As filas não se cruzavam. As mulheres, registei, perdiam a serenidade ao desfilarem perante o sarcófago de prata de Fátima.
Cada culto, cada religião está ligado a tradições que se transmitem de geração em geração. Aquelas iranianas, envolvidas nos seus tchadores – ali obrigatórios –
tocavam com a ponta dos dedos nas saliências do sarcófago antes de o beijarem. Disseram-me que não faziam promessas. As jovens pediam beleza, fecundidade, amor. As idosas gemiam e lançavam apelos.

O Museu das Jóias da Coroa

Passei horas em museus de sonho, em Teerão e noutras cidades.
O culto dos museus no Irão é parte do amor pela história, do orgulho que o seu povo tem como herdeiro de grandes civilizações.
Se o Museu Nacional proporciona ao visitante, através das peças expostas, uma travessia pelo tempo até culturas como a de Sialk que há 7 000 anos já produzia uma cerâmica colorida belíssima, outros, como o dos tapetes ensinam-lhe que os persas antigos, mestres nessa arte, já fabricavam há 25 séculos carpetes deslumbrantes como as que decoravam os palácios de Persepolis.
Mas foi no Museu das Jóias da Coroa que encontrei resposta para uma questão que me vinha à memória. Eu não entendia o motivo pelo qual Mossadegh conta com o beneplácito oficial como herói popular. Na revolução que ele liderou e pôs fim ao monopólio imperial britânico da Anglo Iranian sobre o petróleo, revolução que obrigou o então jovem Xá Pahlevi a fugir, os comunistas desempenharam um importante papel. Eu sabia que o Xá voltara pela mão da CIA que organizou a contra-revolução. Mas intrigava-me o respeito dos ayatollahs por Mossadegh, como herói nacional, porque o regime da Revolução Islâmica perseguiu duramente os comunistas.
No Museu das Jóias percebi.
Instalado num bunker blindado construído no subsolo de um edifício aparentemente banal, é um museu único. Nas suas salas acumularam a mais fabulosa colecção de tesouros do planeta. O valor do que ali se expõe é incalculável. São tronos, coroas, tiaras, colares de ouro e platina, vestes sumptuosas, obras de arte exóticas, tudo cravejado de pedras preciosas. São milhares, talvez milhões de diamantes (o maior do mundo), de rubis, de esmeraldas, de pedras raríssimas cujo brilho encandeia, fatigando os olhos.
Entre os tronos chamam a atenção os que o último e defunto Xá mandou fabricar para a sua coroação e para as três rainhas que foram suas mulheres. Parte daquelas riquezas resultou de guerras e saques ao longo dos séculos, mas o que dói e inspira repulsa é o luxo milionário e desafiador do Xá do nosso tempo.
Pensei em Mossadegh e na indignação do povo.
Na visita ao grande parque onde em Teerão foram transformados em museus os palácios do Xá e do seu pai, a sensação de choque recebida ao contemplar tronos e coroas faiscantes voltou a subir em mim. Vi ali tapetes com 200 metros quadrados cobrindo o piso de salas de tectos dourados e móveis Luís XV importados de França, numa arrogante exibição de riqueza que ofendia o povo pobre que pagava tudo aquilo.

Que futuro no horizonte?

Não creio ter conhecido país algum tão encantatório como o Irão. Tudo ali se soma para envolver o forasteiro numa atmosfera intemporal: a história, a beleza da terra, as ruínas de grandes civilizações, o povo no que é e no que foi, a ameaça de guerra vinda de um poder imperial monstruoso.
Megalopolis modernas, desertos escaldantes incompatíveis com a vida animal e vegetal, estepes percorridas por rebanhos que se perdem na lonjura, campos verdes, acampamentos de nómadas, caravanserais que recordam as estórias rota da seda, muralhas de antigos palácios construídos por legiões romanas derrotadas, necrópoles cavadas em falésias abruptas, cordilheiras com píncaros de 5000 metros cujas neves rasgam os céus, mares de águas transparentes e lagos azuis em crateras de vulcões extintos.
A diversidade vem da profundidade do tempo, começou a esboçar-se muito antes de chegarem ao planalto central as tribos arianas que lançaram ali os alicerces do primeiro grande Estado multinacional criado pelo homem
Paradoxalmente essa diversidade não divide, aproxima. Os iranianos de origem persas representam hoje apenas 55% da população. Mas as outras minorias, turcos azeris, curdos, baluches, árabes, arménios e outras, e descendentes dos antigos assírios, kassitas e elamitas convivem quase sem problemas. Todos adoptaram o persa como idioma nacional comum.
Não obstante a ideologia teocrática do regime, as relações entre as diferentes comunidades religiosas não são tensas. Contrariamente ao que ocorre no Iraque e no Paquistão a maioria xiita convive pacificamente com a minoria sunita. Os zoroastricos, que praticam o mazdeismo, a religião dos antigos persas, serão somente uns 150 000. Muito discretos, ninguém os incomoda. Os arménios, a mais numerosa comunidade cristã, têm uma catedral em Esfahan. Ocupam destacadas posições nos meios científicos, na indústria e no comércio. Nas reuniões sociais que promovem estão inclusive autorizados a consumir álcool.
Os judeus, uns escassos milhares, não são hostilizados apesar da linha dura que caracteriza a atitude do governo, o único dos estados islâmicos que se pronuncia pelo desaparecimento de Israel. Praticam livremente a sua religião e informaram-me que sinagogas existentes na época do Xá não foram fechadas.
Que reserva o futuro imediato ao Irão?
A mentalidade cavernícola que domina a extrema-direita estadunidense desaconselha previsões.
Mas no Congresso e no Departamento de Estado a tendência para renunciar à opção militar ganha força, segundo o New York Times e o Washington Post.
A Casa Branca retomaria assim a política seguida na época de Clinton para o apoio às forças internas definidas como moderadas e reformadoras, que desaprovam a linha radical de Amadinejad e desejariam um compromisso cujo desfecho seria o restabelecimento de relações com os EUA. Essa posição é compartilhada inclusive por personalidades da hierarquia religiosa.
É inegável que a vitória eleitoral do actual presidente resultou do apoio que encontrou entre as massas mais desfavorecidas.
A grande burguesia teme envolver-se em conspirações inseparáveis de contactos com serviços de inteligência estrangeiros, mas não esconde o seu descontentamento. Sem o apoio do Exército – quase um milhão de homens – é improvável que seja tentada pela aventura de um golpe. E as Forças Armadas têm reagido muito mal a actos de terrorismo na região da fronteira Sul com o Iraque, apontados pelo governo como de inspiração norte-americana e britânica.
Impressionou-me muito positivamente nas duas semanas que passei no Irão a qualidade de vida alcançada por famílias de recursos modestos num ambiente urbano, sobretudo em Chiraz e Esfahan.
O povo iraniano é educado, com um nível de instrução raríssimo no Terceiro Mundo (apenas 7% de analfabetos).
Na Europa e nos EUA os povos atravessam hoje a vida numa tensão crescente (Portugal não é excepção), perseguindo com angústia melhoras materiais cada vez mais difíceis.
No Irão a exploração do homem subsiste, a estrutura de classes foi moldada pelo capitalismo e os ayatollahs não pretendem destruí-la, não tenhamos ilusões. Mas as heranças de um passado de 25 séculos, muito fortes, ajudam a contrariar a ideologia do lucro, a subordinação da vida a uma globalização comandada pela sacralização do dinheiro.
A solidariedade com o povo do Irão, ameaçado pela estratégia de barbárie de um sistema em crise cuja ambição compromete a própria sobrevivência do homem na Terra aparece-me assim como resultante natural do amor à cultura e à vida.
No sítio arqueológico de Persepolis, o mais maravilhoso conjunto de ruínas que conheço, e na grande praça de Esfahan, talvez a mais bela cidade criada pelo génio artístico do Islão, senti com muita força que a luta pela humanidade não é dissociável da defesa das culturas diversificadas que ela criou ao longo de milénios na sua caminhada para o desconhecido.
(Continua)



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