Foram criados três colectivos em Lisboa e uma Coordenadora Regional no Porto
Encontro Nacional do Ensino Secundário da JCP
Uma organização sempre a crescer
Depois de meses de preparação, o Encontro Nacional do Ensino Secundário da JCP (ENES) tem lugar amanhã, na Faculdade de Letras de Lisboa. Débora Santos, da Comissão Política, fala sobre o crescimento da organização e as propostas dos jovens comunistas.
- Como foi feita a preparação do ENES?
- Começámos há três meses. Tem sido um processo de discussão e análise da situação das escolas e da organização da JCP. Temos trabalhado para fazer recrutamentos e criar mais colectivos de escola e organizar melhor os que já existiam. Temos feito uma série de iniciativas para a recolha de fundos e para afirmar a JCP, como debates e concertos.

- Já se sabe quantos recrutamentos foram feitos no ensino secundário neste ano lectivo?
- Neste momento [segunda-feira] temos 95 recrutamentos, mas há outros que não foram centralizados. Devemos chegar ao fim da semana com cerca de 120.

- Que balanço se faz desse número?
- É bom, mas acima de tudo, para além do recrutamento em si, interessa-nos saber que enquadramento está a ter o novo militante. Esta é uma prioridade que tínhamos: assim que algum estudante entrasse para a JCP ser logo enquadrado na organização e atribuir-lhe tarefas.
Em algumas regiões em que nos organizávamos a nível concelhio, estamos a conseguir criar colectivos de escola. Nos últimos três meses, foram criados três colectivos de escola em Lisboa e uma Coordenadora Regional no Porto. Com a preparação do ENES, destaca-se um conjunto de camaradas que demostram alguma responsabilidade.

- A organização do ensino secundário é a organização com mais militantes da JCP. Podes fazer uma caracterização geral?
- Temos uma grande diversidade, nomeadamente no tipo de escolas que os militantes frequentam. As próprias iniciativas realizadas pelas organizações regionais reflectem a cultura de cada sítio. Em Castelo Branco, há pessoas que se levantam às seis da manhã para apanhar a camioneta às sete e estar na escola às oito e meia. Em Lisboa, basta andar um bocado ou apanhar o metro e está nas aulas em 15 minutos ou meia hora. Temos uma boa organização. É preciso melhorar em alguns aspectos, mas é de valorizar a nossa participação no movimento associativo. Temos militantes que fazem teatro, que são atletas, há uma grande variedade...

- Como é o trabalho com militantes que, em poucos anos, passam para outras organizações?
- No seu todo, a JCP é uma organização revolucionária, com trabalho de massas e isto reflecte-se na organização do secundário. É mais fácil recrutar no ensino secundário do que no superior, até porque a ofensiva ideológica é diferente e as pessoas têm menos preconceitos. As coisas que aprenderam na nossa organização serão depois aplicadas na organização do superior ou da juventude trabalhadora. Saem uns militantes, mas depois entram outros, não se nota assim tanto...

Estudar, mas com condições

- Os estudantes do ensino secundário realizaram protestos nas últimas semanas. Qual o envolvimento dos militantes da JCP?
- Procuramos mobilizar e consciencializar. Este ano lectivo já houve uma série de lutas – na semana de 6 a 10 de Novembro, depois nos dias 16 e 22 – e a própria comunicação social não consegue esconder que há descontentamento e não é só por causa das aulas de substituição. A JCP procura participar nas listas unitárias para as associações de estudantes, o que tem um papel fundamental no desenvolvimento da luta. Foram feitas reuniões gerais de alunos (RGAs), em que os nossos militantes naturalmente participaram e onde se colocam as preocupações dos estudantes. Numa escola em que não há laboratório, as pessoas estão mais preocupadas com isso. Noutra escola em que há adolescentes grávidas, o problema será mais a necessidade de implementar a educação sexual.

- Muitas vezes é passada a ideia de que os estudantes se manifestam porque são preguiçosos e querem ter a vida muito facilitada. Até que ponto é que isto é verdade?
- Acho que não é. Interessa passar a ideia de que os estudantes não querem estudar, em vez de mostrar que falta é investir, aplicar a avaliação contínua, introduzir a educação sexual... Nestas lutas passaram imagens na televisão que não eram as mais dignas. Não quero dizer que todos os estudantes estão completamente conscientes. É um facto, não se consegue chegar a toda a gente e continua a haver estudantes que não têm consciência das bandeiras de luta. Mas, se protestam, é porque alguma coisa sentem. Até podem não perceber o que são os numerus clausus no acesso ao ensino superior, mas sabem o que significa não ter um pavilhão para fazer educação física ou ter de pagar 200 euros em livros no início de cada ano lectivo. Os estudantes querem trabalhar, mas com condições.

- Neste cenário de falta de condições nas escolas, de elitização e de abandono escolar crescente, quais os objectivos do Governo com estas políticas educativas?
- O objectivo é ter uma população ignorante, que não o conteste. Além disso, procura privatizar o ensino e ganhar dinheiro com a educação. Já se deu início a isso, com a privatização de refeitórios, bares e reprografias. Na Lei de Bases, entretanto suspensa, estava prevista a existência de gestores nas escolas em vez do conselho executivo. Ao encarecer os preços nas escolas, cada vez se elitiza mais o ensino.

As reivindicações dos estudantes

Fim das aulas de substituição:
«A lei prevê que as aulas a que os professores faltam devem ser ocupadas no desenvolvimento pessoal, científico ou de relação com os colegas, ou seja, não fala em aulas de substituição. Não há condições nas escolas para ocupar este tempo, porque ou não têm biblioteca ou não têm pavilhão... Por outro lado, faz bem ter um furo. Porque não ocupar aquele tempo como se quiser? Podemos ir a casa ou estar com o namorado... Nestas aulas de substituição, ficamos fechados numa sala, não se dá matéria e podemos ser acompanhados por um professor de outra disciplina ou por um funcionário que trazem uma ficha da biblioteca para fazermos.»

Mais condições materiais e humanas:
«O Orçamento de Estado para 2007 faz um corte de 30 por cento no investimento nas escolas e de cinco por cento nas despesas correntes, quando por exemplo existem escolas com instalações provisórias há mais de 30 anos. A educação é o pilar da sociedade. Sem haver investimento, a própria avaliação dos estudantes não é bem feita. Como é que se avalia um estudante em educação física, se a escola não tem um pavilhão e não tem aulas quando chove? Não há a mesma evolução.»

Fim dos exames nacionais:
«Haverá exames no 9.º, 11.º e 12.º, com a perspectiva de existirem também no 4.º e no 6.º anos. O objectivo não é pôr os estudantes em pé de igualdade, mas sim filtrar o prosseguimento dos estudos. É mais fácil para os governos aplicarem as medidas que entenderem se a população tiver menos formação. Se um estudante de uma família com boas condições económicas pode ter acesso a explicações, o filho de pais que recebem o ordenado mínimo não se pode preparar da mesma maneira para os exames. Se a avaliação é contínua, não faz sentido haver exame, até porque o exame não revela de facto os conhecimentos dos estudantes. Devemos ser avaliados pela nossa participação, pelos trabalhos, pelas apresentações, pela evolução... Com o exame, fica decidido em duas horas se se pode ou não continuar a estudar.»

Implementação da educação sexual:
«Não há desculpa para passar 22 anos sobre a aprovação da lei e a educação sexual não ter sido introduzida nas escolas. Não queremos uma disciplina de educação sexual, mas que a matéria seja abordada nas várias disciplinas que temos. Em matemática, em vez de se fazer problemas com maçãs ou feijões, podia-se fazer com o número de jovens infectados com doenças sexualmente transmissíveis.»

Fim do limite de vagas no acesso ao ensino superior:
«As vagas que existem não estão de acordo com as necessidades do País, como se vê facilmente nos cursos de Medicina e Arquitectura. É mais uma forma de elitizar o ensino.»


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