Estado alemão entra no capital da EADS para salvar Airbus
Airbus/Alemanha
Estado controla crise
Uma semana depois das manifestações de operários frente às sete fábricas da Airbus na Alemanha, Berlim decidiu entrar no capital da EADS, para assim ter uma palavra a dizer sobre a reestruturação do consórcio europeu.
A intenção da DaimlerCrysler de vender 7,5 por cento da sua participação no grupo de aeronáutica e defesa europeu (EADS), proprietário da Airbus, era há muito conhecida. A braços com dificuldades financeiras, o construtor automóvel germânico-americano precisava de fundos frescos. Contudo, a redução da sua presença na EADS, onde constitui o maior parceiro com 22,5 do capital, punha em risco o frágil equilíbrio entre accionistas alemães e franceses. As possíveis consequências para a Alemanha tornaram-se claras nas últimas semanas, após a administração da Airbus ter anunciado um draconiano plano de diminuição de custos, que designou de «Power 8».
Embora os pormenores do plano não tenham sido oficialmente desvendados, o anúncio dos objectivos gerais (redução das despesas em cinco mil milhões euros até 2010) colocou de imediato em causa cerca de dez mil postos de trabalho, a esmagadora maioria dos quais nas fábricas da Alemanha, cuja produção com maior incorporação tecnológica seria deslocalizada para as instalações francesas, conforme documento interno, oportunamente publicado pela imprensa.
Com os operários na rua em protesto, o governo alemão engrossou a voz ameaçando cancelar as encomendas à EADS, caso o plano de reestruturação penalizasse demasiado as fábricas germânicas. Por seu turno, a administração da Airbus retorquiu, notando que era preciso mais do que palavras, o estado teria de dar passos concretos para poder influenciar o curso dos acontecimentos. O «conselho» não tardou a ser ouvido.

Capital público
em consórcio privado


Na sexta-feira, 9, a DaimlerCrysler anunciou ter assinado um acordo com um grupo de investidores para a venda de 7,5 por cento do seu capital na EADS, garantindo, no entanto, os direitos de voto das acções alienadas.
A operação consistiu na transferência da totalidade do capital da DaimlerCrysler (22,5%) para uma nova entidade jurídica, na qual 15 investidores assumem os 7,5 por cento das acções, ressarcindo o construtor automóvel em 1,5 mil milhões de euros.
A novidade é que, pela primeira vez, o estado alemão e várias as regiões federadas entram no capital da EADS, adquirindo 40 por cento das acções vendidas.
O governo federal, através do banco público KfW, toma posse de 13 por cento, o estado de Hamburgo 10 por cento, Baviera, Baixa Saxónia e Bade-Wurtemberg, cinco por cento cada, ficando a cidade-estado de Bremen com uma parte de dois por cento.
Do lado dos privados, perfilam-se os grupos alemães Alianz, Commerbank e Deutsche Bank, o banco helvético Credit Suisse e o americano Golman Sachs, cada um com dez por cento. Seguem-se os bancos Morgan Stanley (americano) e Sal. Oppenheim (alemão) com cinco por cento do capital.
O envolvimento do governo alemão terá sido decisivo para a concretização deste negócio, no qual, a DaimlerCrysler surge como o principal beneficiado. Contudo, a equipa de Angela Merkel foi obrigada a fazer outro tipo de contas, como denotam as declarações da sua porta-voz: «Com um grupo de accionistas estável, nós estamos mais bem colocados para as negociações difíceis que temos pela frente». Ulrich Wilhem explicou ainda que a operação «é a expressão da confiança na EADS e na Airbus», cujo futuro passa por uma solução «razoável», ou seja, a repartição «justa» dos efeitos da reestruturação entre a França e a Alemanha.

Jornada europeia
em preparação


A central sindical francesa (CGT) avançou com a proposta de realizar uma jornada europeia do sector aeronáutico, no próximo dia 20 (terça-feira), em protesto contra o plano de reestruturação «Power 8» que deverá ser oficialmente apresentado naquela data pela administração da Airbus.
Na passada semana, dia 6, os sindicatos franceses convocaram uma paralisação de uma hora nas fábricas do grupo que foi cumprida por cerca de 90 por cento dos trabalhadores do construtor de aviões.
A paragem afectou as cinco unidades de Toulouse, bem como as instalações de Sait-Nazaire e Nantes (Loire) e em Méaulte (Somme). A Airbus emprega em França mais de 21 mil trabalhadores.


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