• Hugo Janeiro

«Dirijo-me (...) àqueles que serão perseguidos, porque no nosso país o fascismo está há tempos presente», vaticinou Allende no seu último discurso
35 anos sobre o golpe fascista no Chile
<font color=0094E0>«A história é nossa e quem a faz são os povos»</font>
Cumpriram-se no dia 11 de Setembro 35 anos sobre o golpe fascista que derrubou o Governo Popular do Chile. Em torno de Salvador Allende, o povo e os trabalhadores lançaram-se na transformação do país. Pela construção do socialismo, uniram-se comunistas, socialistas e outros democratas numa experiência derrotada pela burguesia aliada ao imperialismo.
A luta pela unidade das forças progressistas e a fidelidade à causa dos trabalhadores e da democracia sobressai no percurso de Allende logo em 1948, quando, no Senado, se manifesta contra a ilegalização do Partido Comunista do Chile.
Em 1951, rompendo com o anticomunismo do Partido Socialista, e com o oportunismo do Partido Socialista Popular, Allende junta-se ao Partido Socialista do Chile e assume a candidatura à chefia do Estado. A iniciativa é apoiada pelos comunistas, que se mantêm na vanguarda mesmo nas duras condições clandestinas.
A Frente Popular que se forma percorre o país durante 283 dias. Allende discursa com a mesma paixão para milhares de pessoas como para um punhado de camponeses ou pescadores massacrados pela exploração. As sementes que germinariam em 1970 estão lançadas.
O cenário repete-se em 1958. No dia da contagem dos votos, Allende seguem na frente até que uma falha de electricidade se prolonga por horas e o deixa a 30 mil votos da vitória. Fraude, reclama-se.
Seis anos depois, volta a candidatar-se, desta feita contra o democrata-cristão Eduardo Frei, apoiado pelos Estados Unidos, que desde 1963 investem milhões de dólares nas forças reaccionárias.
Em Outubro de 1969 constitui-se a Unidade Popular (UP) e nela se encontra a antecâmara de um governo que reunirá comunistas, socialistas e outros democratas. A 4 de Setembro de 1970, triunfa Allende, gozando do apoio do vigoroso movimento operário e popular forjado em décadas de combate.

Mil dias de conquistas

Com o governo da UP – o primeiro onde participam ministros operários -, inicia-se um período de conquistas históricas. O povo passa a actor maior da história. O proletariado urbano e rural está com Allende. «A democracia vive-se, não se delega», dizia o presidente. Multidões mobilizam-se na concretização do programa de transformação social.
O governo responde com segurança social e assistência médica no campo e nos bairros pobres urbanos; leite grátis para todas as crianças até aos 15 anos e para as mulheres grávidas; publicação de livros a preços populares; férias para os trabalhadores e incentivo à sua educação; legaliza-se a Central Sindical.
No primeiro ano de mandato, o progresso económico e social é esmagador. A produção industrial aumenta 11 por cento; o PIB cresce 7 por cento; o desemprego caí de 8,3 para 4,8 por cento; o número de casas construídas aumenta 20 vezes; os salários reais crescem 66 por cento e os assalariados passam a deter 59 por cento do Rendimento Nacional.
Para tal contribuiu decisivamente a coragem de enfrentar a burguesia nacional e estrangeira. Segundo o próprio Allende, no seu discurso nas Nações Unidas, em Dezembro de 1972, a subordinação económica do Chile ao capital internacional media-se pelo facto de mais de 80 por cento das exportações do país estarem nas mãos das multinacionais.
Neste contexto, o Governo Popular nacionaliza 90 por cento do sector bancário, e 70 grandes empresas são expropriadas ou encontram-se sob controlo operário. O cobre, o salitre, o ferro e o aço passam à área da propriedade social. De um ano para o outro, a Reforma Agrária abrange 2,4 milhões de hectares de terra.
«O povo unido jamais será vencido!», grita-se nas ruas. Mesmo no terreno eleitoral a revolução avança. Nas municipais de Abril a UP obtém uma maioria de 50,86 por cento. Os comunistas têm 17 por cento.

«O soldo do Chile»

«O cobre é o soldo do Chile», considerava Allende. E com razão, pois mais de um terço das reservas daquele metal encontram-se no subsolo do país. Multinacionais como a Anaconda dominavam o sector. Extraíam a matéria-prima a preços de saldo, transformavam-na nas suas siderurgias deixando nos EUA a maior fatia do valor acrescentado, lucravam à tripa forra com os recursos naturais do povo chileno.
Assim, a nacionalização do cobre – aprovada por unanimidade no Congresso Nacional a 11 de Junho de 1971 - significava a «segunda independência», como definiu Allende.

Os trabalhadores derrotam o golpe

Atingido no âmago dos seus interesses, o capital responde com violência no ano de 1972. O sector privado reduz drasticamente o nível de investimento com o objectivo de sabotar a revolução. As campanhas de difamação, as mentiras, e as sabotagens ganham uma parte da média e da pequena burguesia, muito embora Allende tenha frisado que contava com essas camadas na luta contra o grande capital nacional e estrangeiro.
Em Outubro de 1972 dá-se uma insurreição da burguesia. O objectivo é «fazer uivar de dor a economia chilena», como havia instruído o presidente norte-americano, Richard Nixon (ver caixa).
As empresas de camionagem entram em lock-out, os patrões querem encerrar as unidades produtivas. A intentona acaba derrotada pela valentia do proletariado, que se lançou na gestão das fábricas, e pelo Governo Popular que restitui os transportes no país. Das 35 mil oficinas e fábricas paralisam totalmente menos de 20. O patronato é obrigado a pedir um acordo, mas a economia chilena sofre sérios revezes.

Alta traição

Em Março de 1973, os partidos da UP obtêm 44 por cento dos votos nas legislativas. È um tónico para a luta de classes que se adensa.
Apesar dos progressos, a maioria do poder económico permanece nas mãos da burguesia. A propriedade social controla apenas um terço da produção.
Nas forças armadas, altas patentes assume a oposição a Allende. No comando - acumulando desde a sabotagem patronal de Outubro de 1972 a pasta do Interior - o general Carlos Pratts mantém-se fiel à legalidade constitucional. A verticalidade demonstrada custar-lhe-ia a vida, em 1974, tal como já havia custado ao seu antecessor, René Schneider, assassinado a 22 de Outubro de 1970.
Soldados e marinheiros mobilizam-se em defesa do Governo Popular, mas em nenhuma ocasião se quebra a disciplina nas forças armadas, e esse terá sido um factor decisivo para que o fascismo tenha triunfado.
A 11 de Setembro de 1973 consuma-se o golpe de Estado. Pinochet que havia jurado fidelidade ao Governo Popular lidera a acção. O Palácio de La Moneda é bombardeado, acção inútil dada a débil resistência armada dos revolucionários. É um prelúdio sobre a natureza da ditadura que viria a usurpar o poder fazendo recair sobre o povo a brutal repressão fascista, com o assassinato, a tortura e prisão de milhares de dirigentes operários e populares, de comunistas, socialistas e democratas, dos filhos de um Chile novo.
Debaixo do ódio de classe da burguesia, Salvador Allende dirigiu-se pela última vez ao povo e aos trabalhadores, a quem agradece a lealdade e a confiança. Chama traidores aos que o foram. Responsabiliza a burguesia nacional aliada do imperialismo pelo crime que se cometia. Mas deixou a certeza de que «antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor».

EUA pagam golpe

O envolvimento dos EUA e da CIA no ataque ao Governo Popular de Allende é um facto documentado. Com base no relatório Church, em documentos desclassificados e em memórias de alguns dos participantes, é possível delinear um quadro aproximado da intervenção norte-americana.
Somente de 1969 e 1973, os EUA «investiram» mais de 7 milhões de dólares nas forças reaccionárias e na desestabilização económica e política do país. Compraram mercenários que realizaram actos de sabotagem, manifestações e intimidações; pagaram greves como as dos comerciantes ou a dos camionistas.
A estes valores acrescem vários milhões de dólares para empresas privadas, sindicatos traidores e para a imprensa de direita, sobretudo ao El Mercúrio.
O jornal era propriedade de Agustin Edwards, recebido pelo presidente dos EUA, Richard Nixon, imediatamente após a vitória de Allende.
Na Casa Branca reúnem-se o presidente da Pepsi, Donald Kendall, Nixon, que tinha sido advogado daquela empresa, Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança Nacional, John Mitchell, procurador-geral, o director da CIA, Richard Helms, e claro, Edwards.
Das notas de Helms percebe-se que o grupo está disposto a gastar o necessário. «Dez milhões de dólares disponíveis. Há mais se for preciso», acertam. Querem os melhores homens disponíveis com o objectivo de «fazer gritar de dor a economia chilena».
No mesmo dia, o presidente Nixon informou o director da CIA, Richerd Helms, que um governo de Allende não era aceitável para os Estados Unidos e instruiu a secreta para que tivesse um papel directo na organização de um golpe militar no Chile.
Nove semanas antes do golpe, Nixon telefonou a Kissinger para dizer que «o rapaz do Chile pode ter alguns problemas. Kissinger responde: «creio que definitivamente está em dificuldades».
Salvador Allende morreu no ataque dos fascistas ao Palácio Presidencial, a 11 de Setembro de 1973.


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