Um emotivo adeus a António Dias Lourenço
Aplausos para uma vida inteira

O imenso aplauso com que centenas de pessoas saudaram, no domingo, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, a passagem da urna com o corpo de António Dias Lourenço foi uma sentida e justa homenagem a um dos mais destacados dirigentes da história do Partido.

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Essas palmas, que duraram largos minutos, acompanhadas por vivas ao PCP e punhos cerrados, antecederam o discurso do Secretário-geral do Partido. E foi com a voz embargada pela emoção que Jerónimo de Sousa falou do «sentimento de perda» que a morte de António Dias Lourenço provoca nos comunistas portugueses. Para a seguir acrescentar que «porque ele lutou o tempo todo que tinha para lutar, também nos anima o seu exemplo. Exemplo de que vale a pena lutar sempre, sempre, enquanto cá estivermos, com aquela inabalável convicção do ideal comunista, que nós, que outros, hão-de prosseguir». «Fizeste mais que aquilo que te competia, camarada! Essa homenagem te devemos!»

Mas para o Secretário-geral do Partido, mais do que uma despedida, o que ali levou tanta gente foi um «dizer “presente” a quem deixa gravado no percurso da luta dos trabalhadores e do povo português um sulco imperecível de dedicada e corajosa intervenção e luta pela liberdade, a democracia e o socialismo». Assim, afirmou o dirigente comunista, «evocar a vida de António Dias Lourenço é trazer para a nossa presença o percurso de luta do seu Partido de sempre, um percurso que se confunde com a heróica acção dos comunistas portugueses contra a ditadura fascista, contra a exploração e pela construção de uma vida melhor». Fazendo parte da história do Partido, Dias Lourenço é parte «daquela gesta de lutadores revolucionários» que foi protagonista do «heróico percurso de luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo contra a tirania fascista, pela liberdade e a dignidade humana».

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Operário e funcionário clandestino


Nascido em Abril de 1915, em Vila Franca de Xira, filho de uma costureira e de um ferreiro, António Dias Lourenço lançou-se bem cedo na vida de operário, passando a trabalhar como torneiro mecânico nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico/OGMA e na Soda Póvoa. Aos 17 anos, destacou Jerónimo de Sousa, Dias Lourenço aderiu ao PCP, «iniciando desde logo, uma intensa actividade no plano social, cultural e político que manteria ao longo da sua vida».

No processo de reorganização do Partido dos anos 1940 e 1941, Dias Lourenço assumiu um papel activo, nomeadamente no Baixo Ribatejo. Funcionário clandestino do Partido desde 1942, passou a assumir a responsabilidade das tipografias do aparelho central de distribuição da imprensa.

O Secretário-geral do Partido destacou igualmente a sua intensa participação na «organização da luta da classe operária e dos trabalhadores portugueses expressa na sua participação nos organismos dirigentes das grandes greves de Julho e Agosto de 1943 e de Maio de 1944, período marcante e decisivo na história do Partido em que se consolida a natureza de classe do PCP, o seu papel de vanguarda efectiva da classe operária e dos trabalhadores, o seu papel determinante no movimento popular e antifascista».

Na clandestinidade, António Dias Lourenço integrou as direcções regionais de Lisboa, Ribatejo e Margem Sul, tendo sido responsável por várias organizações de Partido do Alentejo, Algarve e Beiras. Participante no III Congresso do Partido, em 1943, o primeiro clandestino, foi aí eleito para o Comité Central, do qual foi membro até 1996. Entre 1957 e 1962 integrou o Secretariado, tendo sido membro da Comissão Política em 1956 e entre 1974 e 1988. Foi responsável pelo Avante! entre 1957 e 1962, ano da sua segunda prisão, e seu director desde a publicação do primeiro número legal, em Maio de 1974, até 1991.

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De prisioneiro a deputado


Jerónimo de Sousa não se esqueceu de referir as prisões sofridas por António Dias Lourenço – que aí passou 17 anos da sua vida – nem o «porte digno» que sempre assumiu perante a violência e a tortura da PIDE. Nem a sua fuga de Peniche em 1954, uma das «mais audaciosas fugas dos cárceres fascistas», retratada no filme A Fuga, de Luís Filipe Rocha.

A intervenção cultural de António Dias Lourenço foi também destacada pelo Secretário-geral do Partido: desde muito jovem, afirmou, participou em jornais de Vila Franca de Xira e do Ribatejo, colaborou nas revistas O Diabo e Sol Nascente e foi correspondente do jornal República; assumiu ainda um importante papel na organização dos Passeios do Tejo, nos quais participaram, entre outros, Álvaro Cunhal, Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol, fundamentais para a dinamização do movimento neo-realista. Dias Lourenço representou, ainda, o Partido no Conselho Nacional do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF).

Deputado entre 1975 e 1987, fez parte da Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição da República. Para Jerónimo de Sousa, «quando alguns inscrevem nos seus objectivos a subversão dos valores de Abril e a liquidação das conquistas económica sociais contidas no texto constitucional, o melhor tributo que podemos prestar ao António Dias Lourenço é o de estarmos à altura do combate e da luta que precisamos de erguer e ampliar para manter vivos Abril e o que ele significou de esperança num futuro melhor para os trabalhadores, o povo e o País».

 

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António Dias Lourenço por ele próprio

 

Na última década, António Dias Lourenço concedeu ao Avante! três entrevistas: duas em 2001, a propósito do 80.º aniversário do PCP e do centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça; e outra cinco anos depois, por ocasião do cumprimento dos seus 90 anos. Em ambas, revelou traços fundamentais da sua personalidade e o seu contributo para a construção do PCP e para o derrubamento do fascismo.


Felicidade


«O que me faz mais feliz é ver toda essa gente nova que vem ao Partido, para pegar na bandeira e andar para a frente.»

 

«Estar neste combate é uma felicidade.»

 

A clandestinidade


«Em 1941, fui atirado para o Alentejo, deram-me mais o Algarve e, como era pouco, deram-me mais Gouveia e a Covilhã... De bicicleta, de bicicleta... E eu era o único “ciclista” que fazia isto tudo. Tínhamos de fazer longos percursos... O Álvaro Cunhal – que estava no Norte – às vezes vinha durante toda a noite a pedalar até Lisboa, reunia durante o dia e ia na noite seguinte outra vez para o Norte, de bicicleta. A gente conhecia Portugal com a geografia das botas

 

«Tivemos de criar formas de o Avante! sair, mesmo com o assalto da polícia a uma tipografia. Tínhamos sempre mais do que uma tipografia a fazer o mesmo Avante!. Algumas vezes a polícia assaltava ou impedia que uma tipografia fizesse o jornal e faziam festa: «Acabou-se, conseguimos!». Nessa altura estava o Avante! a ser distribuído porque tinha sido feito noutra tipografia.»

 

«Enquanto a orgânica do Partido assentava em organismos colectivos (clandestinos, com elementos que às vezes nem sabiam o nome uns dos outros), a orgânica para a distribuição da imprensa clandestina tinha de ser rigorosamente individual. Tu levas o embrulho para a organização tal, entregas a responsáveis directos que distribuíam a outras pessoas para levar para outros sítios. Tinha de se criar uma orgânica rigorosamente assente no trabalho individual paralelo à organização do próprio Partido, que funcionava em termos colectivos.»


A prisão e as torturas


«Eu já sabia que eles gostavam de ver a cara dos presos sob a tortura. E resolvi construir para a minha cara um ligeiro sorriso constante. Mesmo debaixo das dores mantive sempre um sorriso.»

 

«A mim não me hão-de ver a cara torturada.»


As fugas


«Vi a maré e decidi: é amanhã!» (sobre a sua fuga de Peniche, em que escapou do Segredo e se lançou ao mar, naquela que foi uma das mais audaciosas fugas das prisões fascistas).

 

«Já tinha a saia, a blusa, os sapatos, e duas perucas – uma loira e uma morena.» (acerca de uma fuga do hospital-prisão, vestido de mulher, que não chegou a ser tentada devido ao 25 de Abril).

 

«Sair da prisão devido à Revolução de Abril deu-me uma alegria incrível.»

 



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