• Paulo Raimundo
    Membro da Comissão Política

A luta terá de ser canalizada para a ruptura e para a mudança
Romper a alternância, quebrar a continuidade

Numa altura em que estão em curso desenvolvimentos políticos importa situar o que está verdadeiramente em causa e a respectiva arrumação das forças em presença. O que está em causa é a defesa de interesses profundamente antagónicos – de um lado os interesses dos trabalhadores, das populações, das novas gerações, da grande maioria dos portugueses e do País, e do outro os interesses do grande capital nacional e internacional.

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É aqui que se jogam as verdadeiras opções. Tudo o resto, as inevitabilidades, os mercados, a crise, o défice, o supremo interesse nacional, são meras mistificações e poeira atirada para os olhos. Cada um defende os seus interesses e o capital, como ninguém, desenvolve esta máxima de forma exemplar.

Acumulando e concentrando a riqueza criada por todos nós, o capital detém o poder económico, concentra em si os grupos de comunicação social com os quais difunde as suas ideias e escolhe quem e o que deve ou não ser, em cada momento, valorizado. Mas o que verdadeiramente decide da sua influência é o domínio sobre o poder político, usando os seus partidos em função dos seus interesses de médio e longo prazo, optando pelas arrumações partidárias que estão em melhores condições para concretizar os seus planos, fomentando a alternância na continuidade.

Uma alternância que faz rodar no poder ora o PS ora o PSD, com ou sem o CDS; uma alternância que cria ilusão e fomenta a ideia de que são todos iguais, adiando sempre para mais tarde um futuro melhor; uma alternância que procura aliviar a pressão social, desviar as atenções dos verdadeiros responsáveis da situação, concentrando os descontentamentos não nas políticas mas nos seus rostos; uma alternância que, independentemente da forma, mantém sempre a continuidade.

 

Mudar o motorista ou a camioneta?

 

Para os interesses do capital pouco importa quem são os protagonistas – PS, PSD ou CDS. Qualquer um deles, só ou em conjunto, garante que se mantém a matriz fundamental da política de direita. E se em algum momento estes seus partidos não forem suficientes, o capital não hesitará em procurar outras formas de dominação política.

O que está em causa neste momento não é o PEC 4, 5 ou 6, mas um projecto mais profundo. Hoje mesmo, no Conselho Europeu, está a ser feita uma declaração de guerra aos trabalhadores, ao povo e ao País: mais cortes nos salários, aumento da idade da reforma, desregulamentação da legislação laboral, privatizações, ataques aos serviços públicos e às funções sociais do Estado, apoio à banca e ao capital financeiro, perda de soberania e independência. E para o capital o que interessa é saber quem está em melhores condições para continuar a implementar este plano em Portugal: se ainda o PS, se o PSD com a muleta do CDS, ou se todos juntos.

Há dias, um destacado dirigente socialista recorria a uma metáfora para explicar por que considera que não deveria haver eleições antecipadas: «A situação do País é como se fôssemos todos numa camioneta a subir uma montanha e a meio do percurso mudávamos de motorista com a agravante de mudarmos para um novo motorista que não conhecemos.» Aqui está uma excelente definição do pensamento do capital. De facto, se for para continuar a subir essa dita montanha nessa mesma camioneta então para quê mudar de motorista?

 

O grande desafio de lutar

 

O grande desafio que está colocado aos trabalhadores, às populações, à juventude, a todos os sectores atingidos pela política de direita é o de não baixarem os braços, de terem confiança nas suas capacidades e confiança que, com a sua luta e determinação, é possível uma ruptura com este rumo de declínio.

Uma luta que teve no passado sábado, na manifestação da CGTP-IN, uma clara demonstração de protesto, indignação, força e combatividade. Uma jornada construída contacto a contacto, discutida olhos nos olhos com os trabalhadores e as populações e que até ao próprio dia não teve uma referência na comunicação social ao serviço do capital, e que expressou a exigência de uma mudança de política, cada vez mais urgente e necessária.

Uma luta que hoje mesmo se trava no Metropolitano e amanhã na CP, CP-Carga, REFER e noutras empresas. Que envolve outros sectores, como os milhares de estudantes dos ensinos Básico, Secundário e Superior que hoje assinalam o Dia Nacional do Estudante com acções por todo o País, e que levará amanhã sectores da pesca para a Assembleia da República.

Uma luta que se travará no dia 1 de Abril, na manifestação da juventude trabalhadora, e que terá continuidade nas empresas e locais de trabalho, nas escolas, nas pequenas e grandes batalhas do dia-a-dia. Uma luta que terá de ser canalizada para a ruptura e para a mudança e para o reforço do PCP – a força decisiva e fundamental para a concretização de uma política alternativa.



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