«Da noite de sábado à manhã de segunda-feira, pelo menos 2100 tripolitanos foram esmagados pela barbárie»
Agressão imperialista à Líbia
Tripoli cai afogada em sangue *

Ao fim de seis meses de insurreição, cinco dos quais apoiados por persistentes bombardeamentos da NATO, os contra-revolucionários tomaram a capital da Líbia. No assalto a Tripoli, a Aliança Atlântica e os mercenários e fundamentalistas islâmicos afectos ao Conselho Nacional de Transição (CNT) mataram tantas pessoas como as vítimas civis estimadas pelo governo líbio durante todo o conflito.

 

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Foto  LUSA

A batalha final por Tripoli iniciou-se sábado à noite quando colunas do CNT, na sua maioria vindas da região Oeste, começaram a atacar os arredores da metrópole. Nos dias precedentes, os rebeldes já tinham tomado cidades entre a fronteira Norte com a Tunísia e a capital, facto que, aliado às posições mantidas pelos rebeldes a Este fruto do constante apoio aéreo e naval da NATO, deixava ao governo líbio o controle de pouco mais que a faixa litoral entre a principal cidade do país e o porto petrolífero de Ras Lanuf, e, ainda assim, com Misrata em mãos pró-colonialistas interrompendo a ligação costeira entre as martirizadas Zliten e Sirte.

Não deixa de surpreender que o regime líbio tenha resistido tanto tempo. Não raras vezes, empurrou as hordas contra-revolucionárias para o desespero da derrota. No último momento, foram sempre os imperialistas a evitar a aniquilação dos bandos do CNT. Na conquista de Tripoli não foi diferente.

 

Máquina da morte

 

Entre 10 e 22 de Agosto, os EUA – cujo presidente, Barack Obama, sempre defendeu que o país não estava em guerra, mas em missão humanitária, evitando, assim, ter de pedir autorização ao Congresso para realizar a actual campanha bélica – despejaram sobre a Líbia e o seu povo toneladas de bombas num mínimo calculado de 55 ataques aéreos (entre quatro e cinco por dia).

No total, em cinco meses de campanha, só a aviação norte-americana realizou 1210 bombardeamentos com aviões tripulados, e 110 com aeronaves comandadas à distância. Desde Março, o conjunto das forças da NATO realizaram mais de 20 mil voos ao arrepio das próprias resoluções que fizeram aprovar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pelo menos 7500 das quais consumados com bombardeamentos que, só por grosseiro insulto à inteligência, podem ser qualificados de missões para protecção de civis.

De dia 22 até ao final de Março, a NATO realizou 180 ofensivas diárias. A 28 de Março registou-se o impressionante número de 600 bombas ditas de precisão e 199 mísseis Tomahawk lançados sobre a Líbia.

Se nos cinco meses de operações criminosas a NATO havia sido responsável pela morte de entre 1200 e 2000 civis líbios, de acordo com cálculos conservadores do governo líbio (excluindo, evidentemente, as centenas de refugiados que sucumbiram à fome e à sede nas travessias entre a Líbia e a ilha italiana de Lampedusa, alguns dos quais vítimas da indiferença dos vasos de guerra franceses que patrulham o Mediterrâneo), entre o passado sábado e a manhã de segunda-feira, pelo menos 2100 tripolitanos terão sido esmagados pela barbárie do eixo atlântico.

 

Assalto final

 

O banho de sangue em que Tripoli foi afogada começou na noite de 20 de Agosto, quando células de jihadistas acoitadas na cidade foram chamadas à acção pelos imãs das mesquitas. Aos apelos vindos dos minaretes – que noutras latitutes têm feito tremer nas botas soldados e graduados imperialistas –, somou-se o desembarque de grupos armados multinacionais comandados por membros dos serviços secretos imperialistas. Estava a todo o vapor a «Operação Sereia», que fez tombar nas primeiras horas mais de 370 pessoas, entre civis e militares líbios.

No final da tarde de domingo, Moussa Ibrahim, porta-voz do governo líbio, dizia que só nesse dia as autoridades haviam contabilizado outras 1667 vítimas dos bombardeamentos da NATO e dos ataques rebeldes. Depois disso não foi divulgada nova contagem oficial.

Muito raros foram os órgãos de comunicação social e agências, nacionais e internacionais, que falaram do massacre. Tudo o que interessava era amplificar a campanha mediática que acompanhava o avanço rebelde.

 

A primeira vítima da guerra

A cobertura informativa do brutal assalto a Tripoli não fugiu à norma da realizada durante a agressão imperialista à Líbia. Confirmou que «na guerra a primeira vítima é a verdade», como disse o político norte-americano Hiram Johnson a propósito da Primeira Grande Guerra Mundial, a primogénita de todas as guerras imperialistas, como bem a definiram, na altura, os comunistas com Lénine na primeira linha.

No início de Fevereiro, um serviço informativo em horário nobre numa televisão nacional relatava a «sublevação popular» líbia com imagens de uma manifestação, sim, de massas, é verdade, com mulheres e jovens, é inegável, mas todos com bandeiras verdes (!).

Nas mais de 48 horas de bombardeamento mediático em torno dos combates em Tripoli, além da ocultação da matança que decorria na capital do território norte-africano, difundia-se que dois filhos de Muammar Kahdafi haviam sido presos pelo CNT.

Saif al-islam, dizia-se, estava mesmo em vias de ser extraditado para Haia a fim de ser apresado pelo Tribunal Penal Internacional, que lhe reserva o mesmo destino que os supostos criminosos de guerra da ex-Jugoslávia.

Para espanto geral, Saif surge horas depois junto ao hotel onde se alojam os jornalistas garantindo que o pai está em Tripoli e que a cidade será retomada pelo exército regular. Tal não veio a verificar-se, mas o aparecimento de Saif embaraçou o imperialismo.

E mesmo que agora o TPI venha dizer mil vezes que nunca confirmou a detenção do suposto sucessor de Kahdafi, talvez seja avisado deter a incontinência verbal do procurador Luís Moreno-Ocampo que, domingo, garantia que Saif seria transferido para a Holanda no dia seguinte.

Recorde-se que Moreno-Ocampo se notabilizou nesta guerra por ter acusado Muammar Kahdafi de ter comprado doses massivas de estimulantes sexuais para que os seus fiéis soldados retaliassem contra a população opositora com violações em massa. No capitalismo o absurdo dos seus mais férreos acólitos não conhece limites.

No mesmo sentido, Mohammed Kahdafi, irmão de Saif, esteve detido pelos insurrectos depois de ser entrevistado pela Al-Jazeera, difundiu-se. Afinal, acabou libertado por militares líbios quando os   o juntavam a Saif no inalienável rol de troféus de guerra que os contra-revolucionários coleccionavam na marcha triunfal sobre os bairros da capital.

Na noite de domingo e na manhã de segunda-feira, a Al-Jazzera reproduziu em looping as imagens da manifestação de «regojizo popular» em Bengasi. Mais, forjou as imagens inaugurais dos «festejos populares» e contra-revolucionários na Praça Verde. Conceda-se que a montagem da manifestação de iraquianos em volta da estátua de Saddam Hussein prestes a ser derrubada por um tanque dos EUA foi bem mais conseguida.

Saliente-se que no Iraque como na Líbia e na Síria, a transformação de dezenas ou centenas de pessoas em multidões avassaladoras através de planos aproximados ou imagens de telemóveis distorcidas e sem qualidade, cumprem o mesmo objectivo de retocar a realidade ao sabor dos interesses imperiais e minar a confiança dos agredidos para a acção em sua própria defesa e do respectivo país.

A jornalista independente Lizzie Phelan confirmou o logro televisivo envolvendo a simbólica Praça Verde na Líbia, facto que, ontem, lhe valia uma sentença de morte decretada por supostos jornalistas misturados com profissionais honestos no hotel Rixos.

Na unidade hoteleira de Tripoli, estão igualmente Thierry Meyssan e Mahdi Darius Nazemroaya, repórteres corajosamente independentes, e por isso igualmente ameaçados por agentes da CIA e do britânico MI6 que se fizeram passar por jornalistas das grandes cadeias televisivas ocidentais.


Mergulho no caos

É objectivo dizer que a queda do regime líbio atira todo um povo na incerteza, já que, segundo os resultados das recentes guerras imperialistas, os líbios arriscam-se a mergulhar no caos em que se encontram iraquianos e afegãos.

Tal confirma-se quando, um dia antes da entrada dos mercenários do CNT em Bab Al-Azizya – complexo fortificado que era o último reduto dos patriotas líbios e onde se supunha que Muammar Kahdafi estivesse resguardado –, é o próprio chefe do conselho contra-revolucionário que ameaça demitir-se caso os grupos rebeldes insistissem nas pilhagens, na destruição gratuita e no bacanal do ajuste de contas em Tripoli.

Mustafa Abdul Jalil enfrenta, porém, muito mais duras provas. Apresenta-se como comandante de um Conselho cujos subordinados não obedecem. Sublinhe-se as lutas intestinas que culminaram nas últimas semanas com a morte do principal e mais respeitado chefe militar insurrecto, ou a menos intensa participação dos grupos fundamentalistas islâmicos que controlam o Leste da Líbia no assalto a Tripoli. Muitos destes não é de hoje que avisam que não se submeterão ao poder do CNT.

Acresce que, por muito que as grandes potências capitalistas tenham pressa em «estabilizar» o território para, como admitiu o congressista Ed Markey, «sacarem petróleo» o mais depressa possível, o facto é que a revolução Verde e Kahdafi gozam de enorme prestígio na Líbia. São os próprios chefes imperialistas quem o admite adiantando que a guerra vai continuar. O objectivo é extinguir as derradeiras bolsas de resistência patriótica.

Barack Obama, Nicolás Sarkozy ou David Cameron conseguiram afogar Tripoli num banho de sangue, como alertou Silas Cerqueira em conversa com o Avante!, publicada a 7 de Julho.

Na ocasião, o militante comunista e membro dos corpos directivos de estruturas unitárias de defesa da paz lembrava ainda que, na sua última viagem a Tripoli, os líbios haviam apelado à solidariedade internacional para com o seu povo. Pediram-lhe para transmitir aos portugueses que resistiam por todos nós ao imperialismo, apelando tão somente à nossa acção pelo fim dos bombardeamentos.

A queda de Tripoli é uma derrota para todos os progressistas e amantes da paz, mas não a sua rendição ou deserção da luta contra a barbárie.

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* Com Agências, Réseau Voltaire, Global Research, Telesur e The Economist.

 



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