• Domingos Lobo

Paisagens humanas, luta e resistência
O património literário de Alves Redol

Alves Redol, nascido na sua Vila Franca de Xira há 100 anos, iniciou-se nas tarefas da escrita com um romance soberbo, romance que inaugura o nós no processo narrativo, estruturando, de modo fulgurante, o mais criativo, interventor e duradouro movimento literário do nosso século XX: o neo-realismo.

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Com Gaibéus, de Alves Redol e Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, estabelecem-se as coordenadas fundamentais do quadro iniciador de um movimento cultural que pretendia traduzir, no processo literário, a luta pela dignidade da pessoa humana, como Armando Bacelar não deixou de assinalar numa nota crítica publicada em 1947 na revista Vértice.

É esta busca da dignidade que leva o então jovem autor (Redol tinha 28 anos quando publica Gaibéus) a percorrer o escuso universo dos descamisados, desses homens e mulheres que do Alto Ribatejo e das beiras desciam às lezírias pelas mondas e ceifas, trabalhando de sol a sol, amealhando uns cobres, escassos e sofridos, que lhes permitiam manter a courela e alimentar a prole nas suas serranas e madrastas terras. Este mundo da gente miúda, que olhava as éguas que pastavam de patas amarradas e exclamava, espelhando a consciência de que também eles eram éguas de mãos peadas, nunca antes fora abordado com a lucidez analítica e ideológica que o autor de Fanga nos transmite nesse soberbo romance. Redol vai mais longe na abordagem dos processos do meio, sociais e materiais, que levam à desumanização do homem, que o impedem de não ter plena consciência da sua condição de explorado, de égua apeada, do que a análise que, por exemplo, o autor brasileiro Graciliano Ramos desenvolve no seu Vidas Secas, romance publicado um ano antes de Gaibéus e percorrendo os mesmo territórios de sujeição do homem face aos elementos e à usura de outros homens. Paradoxalmente, Redol não deixa de introduzir, na pirâmide social de Gaibéus, traços de solidariedade e consciencialização colectiva, que tornam este romance inicial um documento humano, uma viagem crítica, dialéctica e pungente, sobre esse território dos homens e mulheres que trabalhavam nos arrozais e sobre os quais pendia a mão persecutória de Agostinho Serra, mandante de senhores e essa abstracta e longínqua Senhora Companhia, omnipresente símbolo do capitalismo todo poderoso, causa última da degradação humana a todos os níveis da escala social. Redol, num desabafo agastado, define, com o seu verbo agreste e raso, a condição destes homens e mulheres: Os gados e os ceifeiros – tudo gado!. Em Fanga, regressará ao tema da sub-condição humana dos trabalhadores contratados, referindo-se-lhes, com a mesma secura verbal, como andando todos de cabeça baixa (…) como se tratasse de um bando de animais a comer na resteva.

A Senhora Companhia, símbolo maior da exploração das gentes da Borda d’Água, o capitalismo sem rosto, aparece referida em outros textos de Redol, nomeadamente em Avieiros e Barranco de Cegos.

Gaibéus mostra-nos um autor seguro no manejo da língua, senhor de um estilo claro, de uma peculiar forma de contar que percorreria, num labor incomum (Alves Redol teve vida breve, vindo a falecer com apenas 58 anos), 34 títulos, abarcando o conto, o romance, o teatro e as estórias para a infância; que se lançava à tarefa inicial de nos contar a saga desse rancho de homens e mulheres perdidos na lezíria imensa mas, igualmente, da oposição entre o gaibéu e o rabezano, dado que este último, operário agrícola oriundo da região era já conhecedor de outras artes da lavoura, como a de valador e, nessa função se achava orgulhosamente superior aos ceifeiros. Possuía, para além disso, uma ténue percepção de classe e um poder reivindicativo que escapava aos gaibéus – e, a alguns destes rabezanos já o horizonte das fábricas de Alhandra e Alverca se abria como fuga possível à sujeição da terra e seus mandantes.

As rivalidades existentes entre os explorados, a falta de solidariedade e consciência colectiva de classe, será tema recorrente na dialéctica redoliana, a par da denúncia daqueles que, conseguindo promover-se socialmente, negam as suas origens e se transformam em traidores do povo, como acontece em Marés, Avieiros e, de forma politicamente mais comprometida, em O Muro Branco.

As linhas fundadoras de toda a configuração discursiva redoliana, vamos encontrá-las na figura do ceifeiro rebelde, e essa estrutura modelar será desenvolvida com rigor, coragem e premunição histórica e visionária, que acompanha os grandes autores, ao longo da sua vasta obra. Como afirma um dos personagens de Gaibéus: se não fossem eles (os gaibéus), mais braços da borda d’água arranjariam trabalho na Lezíria. E, mais assertivo e demolidor, noutra passagem: «Os patrões querem pessoas que não tenham domingos e se alimente de jornas baixas». 72 anos depois ainda esta verdade permanece imutável e a essência do capitalismo não mudou.

 
 

A escrita em busca dos sinais de transfiguração do real

 

Marés – «Em baixa-mar e praia-mar a vida agita-se como um grande oceano»

 

O tema das rivalidades entre assalariados é magistralmente desenvolvido no romance seguinte de Alves Redol, romance ainda de juventude: Marés. Rivalidades que serviam os interesses do patronato e que Redol, lúcido, inscreve no discurso narrativo: O Capataz sabia do ofício e incitava-os. Não eram companheiros – puxavam uns pelos outros como inimigos. (…) Esqueciam-se de que eram companheiros – que venciam a mesma jorna e tinham choupanas irmãs. A ausência de consciência e solidariedade sociais por parte dos assalariados será uma das traves mestras das teses permanentemente desenvolvidas na ficção de Redol: o poder dos exploradores só se exerce e mantém dado existirem divergências profundas entre os explorados.

Neste romance, de 1941, o autor regressa ao espaço da explanação, lírica e telúrica, da sua essência discursiva e efabulatória: as terras de riba Tejo, mas desta feita não já na lezíria imensa, nesse solo descampado e tolhido pelo sol, mas na margem Norte do rio grande, na sua Estremadura. As terras são já outras, a propriedade mais dividida e as durezas do Verão menos agrestes dado que já há sombras e árvores e os jornaleiros podem, para o sustento da prole e arredondo da féria, granjear a sua nesga de terra.

Neste romance, Redol afasta-se do épico estruturante de Gaibéus, reflectindo sobre a decadência da aristocracia terratenente dos finais do século XIX e os contornos da ascensão de uma burguesia de merceeiros e industriais de riscado que a levaria, numa primeira fase, ao apoio da República e, anos volvidos, ao alinhamento acrítico com as teses mais retrógradas do salazarismo.

Marés, trata da ascensão de um filho do proletariado agrícola, Francisco da Silva Diogo, que, de marçano, ascende à categoria de patrão no comércio de secos e molhados. Retrato típico, e com tiques queirosianos, do self-made-man. O rapaz aprende cedo os meandros do negócio e, de especialista em subtrair no peso ou de deixar, por descuido, cair para o chão uma posta de bacalhau, passa a especulador, a açambarcador dos bens essenciais que o governo da República, face aos constrangimentos impostos pela 1.ª Guerra Mundial, quer tabelar. Hei-lo, vigarista, na plenitude da sua condição de burguês explorador e exercendo essa função contra o povo do qual nasceu. Mas ele é agora um homem, com amigos, com família, com alguma coisa de seu, os outros não passam de formigas: «A vida era aquilo mesmo», pensa, assustado, Francisco Diogo enquanto o Povo faminto lhe tenta assaltar a loja, «Uns formigas – outros homens. Os que estavam lá fora não eram seus irmãos. Ele caminhara e vencera. E a vida é dos que a vencem. Que a vencem, vencendo os outros, sem olhar como». E, desta vez, o ex-marçano vence uma vez mais graças à ajuda preciosa da GNR que afugenta a tiro a turba de revoltosos. Mas Redol irá deixar cair este filho do povo, este traidor de classe. A crise de 1929 arrastará o seu império de secos e molhados; o guarda-livros mostra-lhe, implacável, as letras que se vencem, o próprio filho não entende como todo o seu mundo ruiu e acabará, também ele, por desprezar o pai. E este, abandonado por todos, nem sequer tem coragem de se atirar para debaixo do comboio. Resta-lhe reflectir sobre o seu percurso e concluir que «Não há moral, porque a moral é criada e mantida por uns em prejuízo dos outros». Os Diogos, de todos os tempos, na sua ganância sem medida, «comer-se-ão uns aos outros», como Alexandre Pinheiro Torres não deixou de referir no estudo que dedicou a este notável, e actualíssimo, nas suas intrínsecas coordenadas, romance de Redol.

Do herói negativo (Francisco Diogo), Alves Redol passará, no romance seguinte, à estruturação do herói positivo utilizando a personagem Olinda Carramilo.

 

Avieiros – Os ciganos do rio Tejo

 

Com o romance Avieiros, Alves Redol percorre a saga de um grupo humano raro na sua estrutura social, orgânica e cultural, esses nómadas do mar que, vindos das praias da Vieira se estabelecerão, com as suas frágeis barcaças, os seus saveiros, nas margens do Tejo, esse caminho antigo da gente da Vieira: das Caneiras, a Muge, de Escaroupim a Vila Franca. Perder-se-ão do mar e do rio, tornando-se lavradores em terras da Glória do Ribatejo? Incógnita que ainda hoje persiste e que nem mesmo Redol no seu estudo etnográfico Glória, Uma Aldeia do Ribatejo, consegue desvendar inteiramente. Mas os sinais profundos dessa identidade cultural, esse código do avieiro, permanecem nos gestos das mulheres, nos bordados, nos cantos das gentes da Glória – ainda por lá andam vivos e detectáveis.

Eis-nos, de novo, na margem esquerda do Tejo, nesse mar-rio que bordeja a Lezíria imensa. Neste espaço entre o rio e a terra larga da Senhora Companhia, desenvolverá Redol um dos seus mais interessantes romances, quer na análise social e humana do grupo principal, os avieiros, quer na técnica estrutural da narrativa. Tal como os gaibéus, também os avieiros são imigrados, gente vinda de outras terras em busca de melhor vida e sustento. Mas, o rio, tal como a lezíria, também tem os seus senhores, os seus donos, os seus capatazes.

Neste romance emerge, pela vez primeira na escrita de Redol, a figura de uma mulher do povo, Olinda Carramilo, espécie de Catarina Eufémia da borda d’água, que conduzirá os pescadores, com argúcia e profundo sentido dos interesses do grupo a que pertence, da sua classe, a enfrentarem a ganância e a usura do Zé Malho, dono ou financiador das redes que, acolitado ao fiscal Júlio Gonçalves, por alcunha o Tubarão, vive da exploração dos pescadores, impondo-lhes condições intoleráveis na percentagem cobrada, sobretudo aquando da campanha do sável. Olinda organizará os pescadores em cooperativa e estes conseguirão comprar as suas próprias redes e enfrentar o Zé Malho e esse esbirro odioso que é o Tubarão: No Tejo não era Deus quem mandava, mas o Tubarão, o homem mais cruel, safardana e danoso que alguém deitara ao mundo.

Tal como Francisco Diogo, de Marés, Júlio Gonçalves, o Tubarão, é igualmente um traidor de classe. Ex-pescador, arvorado em fiscal, será o capataz submisso e diligente do patrão Zé Malho. E, embora os pescadores saibam que, por detrás do Tubarão existem forças mais poderosas a vencer, que o Tubarão é o braço. Nada mais que o braço, Redol não deixa de denunciar, com veemência, os traidores de classe que estas personagens, na sua abjecção, representam.

Mas, mesmo resistindo, os pescadores, esses gaibéus do rio, serão alvo de uma actividade repressiva sem limites: o Estado, representado pelos fiscais da Senhora Companhia, protege o capital e a avidez dos Zé Malho. Eis, no subliminar metafórico, a denúncia de Redol. Mas o autor vai mais longe na análise deste microcosmos do país do fascismo, revelando em desassombro os limites da organização dos próprios explorados, as malhas que lhes tolhem a acção. E é a voz de Olinda, de novo lúcida, que acrescenta à tese o argumento demolidor: Mas o que eu vejo é que a gente se guerreia e os almocreves ganham com isso. Sempre ganharão com as divisões do povo, duramente o sabemos.

Os Avieiros, esse punhado de homens e mulheres da borda d’água, servirão a Alves Redol para denunciar o capitalismo feroz que se esconde sob o manto diáfano da retórica salazarenta e encenar as fugas, as resistências possíveis que o povo pode estabelecer em confronto com o capitalismo e definir nas páginas poderosas deste romance exemplar, embora limitado pelo cutelo da censura, um primeiro esboço de colectivismo e de combate.

 

Fanga - A saga dos homens sem terra

 

Ao contrário de Gaibéus e Marés, em Fanga Redol fala-nos desses homens desprovidos de terra, de uma leira sequer onde estender o sonho e repousar o corpo. Os que trabalham à fanga têm apenas a força dos braços, e com essa força alugam a terra dos senhores para a granjear num negócio do qual sairão sempre a perder: o que quer dizer que o dono da terra recebe sete partes da colheita, ao passo que o trabalhador só tem uma parte. Assim, os donos das terras, os latifundiários e seus lacaios, podem viver de costas direitas, gozando a vida sem esforço nem cuidados explorando, até ao tutano dos ossos, a turba de deserdados que lhes arrenda as terras: Bem vistas as coisas, o meu pai e outros tinham de trabalhar para o senhor Soromenho passear na Golegã e ainda para outro senhor gastar em Lisboa.

Alves Redol continua no Ribatejo, subindo o rio até às vastas planícies da Golegã. É outra a análise que o autor aqui nos traça da realidade portuguesa vivida nos grandes espaços fundiários nos quais, tal como acontecia no Alentejo, a exploração era mais feroz e desumana. Fanga, romance publicado em 1943, em plena 2.ª Guerra Mundial, portanto, estabelece, sem subterfúgios, os mecanismos dessa exploração à qual o fascismo, já sem máscara, dava suporte ideológico. Mas o autor, tal como em Avieiros, não deixa de reflectir nas páginas de Fanga sobre a ténue possibilidade de uma outra vida, de uma outra realidade: Manuel Caixinha aprenderá, com o suicídio do pai, com a dureza da sua experiência de vida, que a história, a história que os homens constroem com a sua força e vontade, não será sempre, como anátema ou destino, uma constante fatalidade. Manuel Caixinha, tal como Josefina Barra, sabem que o fatalismo da sua condição de explorados, de condenados à pobreza, não é irreversível: basta-lhe, para tanto, sacudir a ignorância, aprender a descodificar os sinais que os mantêm, secularmente, reféns dessa circunstância: Caixinha trocará as tabernas pela leitura, quer aprender, aprender muito, saber tudo. Saber, e isso será o principal, que os explorados são em maior número do que a minoria exploradora dos Soromenhos e Falcões (e, neste particular, os nomes estão, uma vez mais, carregados de simbologia) e que, essa maioria, se consciente, acabará por vencer. O difícil, a tarefa principal dos explorados é inverter, a seu favor, essa maioria, essa força, para conseguirem libertar-se, colectivamente, do jugo dos opressores.

Se em Avieiros, Redol encena a tomada de consciência, por um grupo, do carácter comum da opressão, em Fanga sublinha e sublima, nas falas de Manuel Caixinha, essa determinante de classe emprestando-lhe um sentido mais amplo: Eu sou os outros todos que vão comigo para a praça e ali se alugam. Sem eles nada valho.

Nas páginas de Fanga, Alves Redol mostra-nos como os trabalhadores, sujeitos a brutal exploração, começam a despertar para uma consciência de classe, a saber que só face à percepção da sua força colectiva poderão vencer os opressores. E Manuel Caixinha, tal como Olinda de Avieiros, ou o ceifeiro rebelde de Gaibéus esboçam os sinais que determinam essa consciência sem a qual não haverá nunca fuga, revolução possível.

Fanga é assim, pela dialéctica que o autor introduz na explanação narrativa (exploração vrs. consciência), pelo seu simbolismo contestatário, no contexto da obra redoliana, um dos seus títulos mais exemplares.

 

Porto Manso e o Ciclo Port-Wine – O fim do romantismo e os primórdios da industrialização

 

Deixando o seu Ribatejo natal, uma e outra margem do Tejo, Redol parte para terras do Douro para aí, nas escarpas que bordejam o rio, nos contar outras tantas estórias de luta, traição e exploração do homem pelo homem.

Em Porto Manso e no tríptico Port-Wine, (Horizonte Cerrado, Os Homens e as Sombras e Vindima de Sangue) Redol transfigura a paisagem romântica herdada de Júlio Diniz para de novo nos dar um testemunho pungente de um mundo ainda com traços feudais, de um país cercado pelos jogos de poder, pela usura, pela luta tenaz dos homens face à agreste natureza e pela posse da terra. Posse que simboliza poder, e, quanto maior for esse espaço, mesmo em socalcos de xisto que as chuvas e a filoxera vão amiúde destruindo, maior o poder e a sujeição de quantos não conseguem escapar ao redil de explorados.

É também sobre os sinais de um mundo em lenta e irreversível transformação; um universo fechado nas suas tradições, nas suas rotinas, nos seus rituais que começa a desmoronar-se face ao aparecimento do comboio, essa máquina infernal que transporta, com o fumo poluente das máquinas a vapor, os operários, a industrialização, o mundo novo – e um outro modo, mais violento e rapace, de exploração. O comboio substituirá os rabelos do orgulhoso arrais António do Monte e transformará as relações sociais e políticas, a paisagem e os homens. Mas é, igualmente, sobre as lutas dos pequenos produtores, os conflitos geracionais, o mito da terra, que o olhar de Redol se demorará uma vez mais arguto e demolidor; sobre esses clãs, grandes e miúdos, que têm na terra, nas escarpas do Douro, o seu território, o seu campo de combate desigual. Mas outras forças, exteriores ao seu próprio universo, se organizam para os derrotar. Não apenas a decadência da aristocracia face ao poder da burguesia em rápida ascensão (como Redol não deixará de aprofundar em Os Reinegros e, de forma linear, em Barranco de Cegos) mas o poder da grande finança, o capitalismo sem rosto, essa usura que levará à morte e à ruína, à Vindima de Sangue os pequenos produtores do Douro. A ganância que destruirá o rabelo de mestre António do Monte e o seu pequeno mundo.

Neste ciclo sobre o Douro, que Alves Redol inicia com o romance Porto Manso e prolonga nos 3 títulos sequentes, o autor analisa, em soberbo enquadramento histórico-social, as vítimas de um processo, de um mundo em rápida transformação: a velha aristocracia fundiária, os pequenos produtores, uns e outros incapazes de travar a ascensão de homens sem escrúpulos (definido pela personagem Silva Costa) que apenas vêem no lucro e na cupidez, no poder do dinheiro, a sua razão de ser. Regressando a um tema recorrente na obra do autor de Gaibéus, a ausência de consciência de classe, tanto dos pequenos produtores como dos jornaleiros, e desse grupo último na escala social constituído pelos ranchos que vêm de Trás-os-Montes e das Beiras para as vindimas, que os transformará em vítimas fáceis dos grandes senhores das terras, Alves Redol traça e configura as complexidades de um tempo e de um sistema.

Redol não deixa de introduzir nestes títulos do Ciclo Port-Wine, nomeadamente em Vindima de Sangue, outras questões, como a luta entre Norte e Sul, dado que o vinho produzido no Sul é mais barato do que o Porto que o chão do Douro, agreste e xistoso, produz (e, quem no estrangeiro o consome nunca saberá, desde que no rótulo venha aposto o nome da região desse néctar famoso), e os caminhos da República, a ascensão de um burguesia mercantilista, e dos camilianos brasileiros torna viagem e o fim de uma aristocracia em rápido processo de definhamento.

O Douro serve a Redol para traçar o retrato realista de um tempo de mudança, de um tempo novo opondo-se ao tempo velho, arrastando nessa análise o fim do romantismo, do seu diáfano manto, e dando-nos das gentes do Alto Douro e Beiras o retrato invertido do pícaro genial de mestre Aquilino Ribeiro.


A República em «Os Reinegros», «O Muro Branco» e «Barranco de Cegos»

 

A análise mais vasta da sociedade que a República vem introduzir, os seus desvios e consequências, a ascensão ao poder dessa burguesia de merceeiros e industriais de riscado (o próprio pai de Redol tinha mercearias e padarias em Vila Franca de Xira, e o autor chegou a ser marçano nos estabelecimentos do pai, embora a contragosto), será brilhantemente retratada no romance Os Reinegros, o romance maldito de Redol, escrito em 1945 e proibido pela censura, publicado postumamente em 1972. Em O Muro Branco, o seu último romance, publicado em 1966, Redol regressa ao tema dos traidores do povo, na figura de Zé Miguel Rico e, lateralmente, abordando pela primeira vez na sua escrita a questão da homossexualidade, entendida aqui, em páginas de uma rara incursão pelo psicológico, como defeito. A República, essa revolução burguesa, essa oportunidade perdida para o povo miúdo, terá tratamento analítico mais abrangente e socialmente aprofundado e crítico nessa obra prima que é Barranco de Cegos.

Esse trabalho de contínuo e apurado exercício ficcional, culminaria com a publicação, em 1961, desse título que a crítica considera o seu melhor romance e uma das obras-primas do romance português contemporâneo, a par de Seara de Vento, Sinais de Fogo, Esteiros, Casa na Duna, O Delfim. E é interessante repescar alguns paralelismos que Redol introduz neste texto, com estes dias que nos tentam fazer viver: a crise de 1891, com o país em bancarrota; as reservas do Banco de Portugal esgotadas; a falência do Banco Baring Brothers, em Londres; o fecho de fábricas, a falência do comércio, os suicídios em massa – crise esta, a de 1891/92, que se deveu, como a actual, «à especulação pura» dos mercados.

Barranco de Cegos será uma espécie de obra síntese de todo o universo romanesco de Alves Redol. Os temas que o autor sempre manteve nas suas narrativas voltam a estar presentes, embora numa escrita muito mais segura, depurada e majestática: a busca de verosimilhança no dicotómico verdade/ficção; os mitos da Tradição, Família, Terra; o regresso a um lirismo absorvente e romântico na melhor tradição camiliana (Maria do Pilar/Zé Pedro); os medos da industrialização e os perigos do republicanismo vistos segundo o prisma do latifundiário; o mundo hierarquizado dos senhores da terra e a rebeldia espúria dos explorados (o Saca Rolhas).

Os Diogo Relvas, os senhores de Aldebarã, estão aí, vivos e de chicote em riste e sabendo que para as suas tarefas de esbulho e opressão «Homens para rebanho não faltam». Mas também a eles se oporão os Zé Fomecas, também eles, como Diogo Relvas, verão um dia os seus Palácios Mãe-do-Sol desmoronados.

As ideias centrais que estruturam a obra romanesca de Alves Redol são o espelho de um tempo e dele permanecerão sinais indeléveis na história portuguesa do século XX. Sem Redol e outros seus companheiros da escrita e da arte neo-realista, seríamos hoje seguramente mais pobres.


Os elementos, a paisagem e o espaço na estrutura narrativa de Redol

 

A água e o sol são elementos constantes na narrativa redoliana. A terra agreste, o sol inclemente, vamos encontrá-los nos romances Gaibéus, Fanga e Barranco de Cegos como denominadores de sujeição do operário agrícola, trabalhando de sol a sol, mais um factor que impõe as rédeas da exploração a juntar aos maiorais e aos donos do latifúndio. Igualmente a água como fonte de energia, como necessidade vital áuga, áuga, gritam os ceifeiros na Lezíria imensa; e, de outra forma, como elemento estruturante e conflitual da narrativa: o Tejo, em Avieiros, o Douro em Porto Manso. De resto estes dois rios vamos encontrá-los omnipresentes na descrição que o autor faz dos espaços, da paisagem em que os diversos romances têm lugar: Gaibéus, Marés, Avieiros, Fanga, Barranco de Cegos, O Muro Branco, Os Reinegros, quanto ao Tejo; Porto Manso, Horizonte Cerrado, Os Homens e as Sombras e Vindima de Sangue, no que ao Douro diz respeito.

Se nos romances que têm o Ribatejo como elemento telúrico principal o sol é de uma inclemência insuportável, como em Gaibéus, «Só planície e céu – céu e planície», ou determinante do horário, do martírio a que os ceifeiros estão sujeitos e os levará à revolta no início dos anos 1960, sol sobre o qual construirão subliminares mensagens sociais através das «fandangadas»: Vai-te sol, vai-te sol,/Lá pra trás do barracão.../És alegria prà gente/E tristeza prò patrão; já a terra xistosa, agreste e dura dos socalcos durienses se estabelecerá como elemento principal de angústia e esforço dos alugados.

O mar, ceifador de vidas, vamos encontrá-lo, na sua fúria elementar, como protagonista na estrutura romanesca de Uma Fenda Na Muralha e, mais tarde, no guião que Redol escreve para o filme Nazaré, de Manuel Guimarães.

O espaço afectivo, aquele que a escrita de Redol melhor expressa e conhece, a paisagem pela qual o seu olhar se espraia com inquestionável e sensitiva paixão – não raro violenta face à realidade social que percepciona – é sem dúvida o das terras da Borda d´água, as terras da Estremadura e Ribatejo. Mas, igualmente, e com o mesmo percurso de perscrutador de paisagens humanas singulares, no seu realismo etnográfico, outras paisagens habitam nos seus romances não menos impressivas e profusamente reveladas na sua autenticidade e verosimilhança. Os romances do Ciclo Port-Wine e Porto Manso, são paradigmas dessa busca pela verdade das gentes e das paisagens que os povoam. É o homem face ao seu tempo, ao meio, à sua condição e às condicionantes sócio-políticas que o seu arguto olhar desvenda e que se inscreve na escrita modelar, interventiva e crítica do autor de Fanga.


Conclusão

 

A obra que Alves Redol ergueu, poderosa na sua configuração estética, interventiva e cultural, iniciou-se como uma contra corrente que se impôs, como antítese, à «política do espírito» desse ideólogo do fascismo que foi António Ferro, mas, de igual modo, e não menos combativo, opondo-se ao conservadorismo estético da Presença, sendo ainda, num registo mais sóbrio, igualmente de ruptura com o ideário político-cultural que António Sérgio e Raul Brandão defendiam nas páginas da Seara Nova.

A escrita de Redol é de claro compromisso com o povo e a sua cultura, com um projecto de elevação social e cultural do povo, definido pelo grupo neo-realista de Vila Franca de Xira (1936/37) e do qual faziam parte Alves Redol, Dias Lourenço, Garcez da Silva, Bona da Silva, Mário Rodrigues Faria, Arquimedes da Silva Santos e Carlos Pato.

Daí a pesquisa incessante das fontes: no Douro, nas lezírias do Tejo, na Lisboa das docas e do operariado urbano; na Nazaré dos amores desesperados, da heroicidade dos homens frente ao mar bravio, revelada em Uma Fenda na Muralha, imaginário que o autor transporta para o guião a partir do qual Manuel Guimarães realizou o filme Nazaré; as conversas no Aljube com um mercenário a soldo do franquismo, ou as metamorfoses de um herói (A Barca dos Sete Lemes); a Lisboa da 2.ª Guerra, cidade povoada de judeus em busca de um passaporte que lhes permitisse serem livres em terras da América (o Cavalo Espantado), tema, sobre a diáspora dos judeus, igualmente presente no livro de contos Nasci com passaporte de turista. Uma busca permanente desse espaço telúrico essencial, a um tempo lírico, desassombrado e agreste, o corpo textual interdependente do corpo social, pelos caminhos em que as tarefas dos homens, dos descamisados, melhor se expressa e afirma. As paisagens humanas, esse conflituoso, esquivo território em que o homem se representa inteiro, se move, se expõe, consciencializa, luta e transfigura.

Alves Redol constrói com autenticidade, uma plêiade imagética única e poderosa na ficção portuguesa de grande parte do século XX, anunciando outro tempo, o tempo da afirmação e da dignidade do humano, da sociabilidade, da arte romanesca como espaço privilegiado de intervenção cultural e política que o neo-realismo veio fixar e, como nenhum outro movimento literário e artístico do século XX português, tornar perene.

Esse posicionamento face à literatura vamos encontrá-lo logo em Gaibéus, no ceifeiro-rebelde, no qual o pensamento do então jovem escritor se projectava. Ele simboliza, no seu esquematismo individual, a idealização da consciência colectiva que só nas obras posteriores o autor desenvolverá com mais clareza. Daí o ceifeiro rebelde, demiurgo do sonho colectivo, saber que «Falava pelos homens que ainda não se haviam encontrado».

Para nos encontrarmos, face às lutas deste nosso tempo, precisamos destas vozes, desse grito que ia para o futuro, destes autores, deste exemplo cívico, cultural e humano que a obra de Alves Redol lúcida e plenamente inscreve na imanência do corpo textual da literatura portuguesa contemporânea.

Repesco aqui um excerto de um texto de Mário Dionísio publicado na Seara Nova em 1942: «Quando mais tarde se estudar a literatura portuguesa do século XX, os seus períodos de apogeu e os seus períodos de decadência, o estudo de Alves Redol impor-se-á como o estudo do primeiro grito de reacção contra a enxurrada de abstenções e falsidades» sobre a realidade desses tempos. A verdade opondo-se à mistificação, eis o que Redol oferece, reclamando, em pleno, o direito de cidade, às letras portuguesas.

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Bibliografia

Alves Redol – Horizonte Revelado – Museu do Neorealismo/Assírio e Alvim

Viviane Ramond – A Revista Vértice e o Neo-Realismo Português – Angelus Novus

José Manuel Mendes – Charrua em Campo de Pedras – Seara Nova

Alexandre Pinheiro Torres – Os Romances de Alves Redol – Moraes

Garcez da Silva – Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca – Caminho

Álvaro Salema – Alves Redol: a obra e o homem – Arcádia

Obras de Alves Redol

 



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