• Nuno Gomes dos Santos

Cantar de amiga

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O ar triste que aparenta tem que se lhe diga. A vida deu-lhe muitas voltas, tentando ela dar-lhe, à vida, as, no seu entender, melhores voltas que soube. Pequena no mensurar do tamanho físico, passará despercebida nas ruas que calcorreia, sendo o Pragal excepção. Nesse lugar será, digamos mesmo, em tom assertivo, que é, uma mulher enraizada: veste de escuro, percorre a pé os caminhos do supermercado, passeia-se por eles com o carrego das compras pesando-lhe das mãos trabalhadoras que não esconde, junta-se a conversas de bairro, descura ostentações, arreganha-se na defesa de filhos e netos, cozinha pataniscas no restaurante que compartilha com o companheiro, vai contando cêntimos no augúrio dos dias seguintes. Luta como pode e sabe. Está, teimosamente, de pé. Escorrega impropérios à moda do quotidiano circundante, rebela-se, concede, cansa-se, sobrevive, faz contas à vida dos dias seguintes que se compra com euros parcos, ama, dolorosamente, persistentemente, esperançadamente, pessoas e ideias inabaláveis. Diz o bilhete de identidade que se chama Úrsula. Porém, se assim a nomearmos, não saberemos que o nome público desta mulher proclama ser, para todos os efeitos que ultrapassam assinaturas notariais, Luísa Basto.

Nasceu em 1947 em Vale de Vargo. Aí cresceu pouco, por ter sido obrigada a, sendo miúda, crescer longe. Compartilhando a clandestinidade de vida de seus pais, cresceu mais num país nascido de ideias nobres e nele se formou, de canudo, na arte de soletrar superiormente a música que a voz lhe comandava. Desembarcou em Lisboa quando Álvaro Cunhal e José Mário Branco regressaram ao país dos seus – dos nossos – sonhos, por diferentes que fossem ou que ainda sejam divergências de projectos. Era, então, uma miúda feliz, portuguesa, regressada, deslumbrada, mesmo sem saber que o deslumbramento do nosso conhecimento dela viria a seguir, quando soltou a voz e cantou, por inerência de cargo, o Avante, Camarada que Luís Cília compôs em tempos de poder e querer fazê-lo. Depois foi um percurso árduo. Primeiro no entusiasmo inicial da transmissão da esperança de um futuro possível, debutante e promissor. Depois na incompreensão da recusa de cantigas, quando alguns puseram, à frente da voz, da sua qualidade e da mensagem que transmitia, a interrogação sobre o «valor qualitativo» delas. Dando de barato isso, poderemos, sempre e sem contestação, dizer que cantou Eugénio de Andrade, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Joaquim Pessoa, Romeu Correia, Florbela Espanca. Podendo ser menos relevante, também interpretou letras e músicas de João Fernando e Samuel e uma ou outra que ousei escrever. Mas pela sua vida e pelo seu reportório passaram Ary dos Santos, Pedro Osório, Paco Bandeira, Fernando Tordo, António Henriques, Eduardo Olímpio.

Fez parte do grupo «Amigos» (com Fernando Tordo, Fernanda Piçarra, Ana Bola, Paulo de Carvalho e Edmundo Silva) que ganhou um Festival RTP da Canção e foi ao certame eurovisivo. Assumiram-se: levaram, contrariando reacionarices organizativas, cravos vermelhos nas lapelas. Filipe La Feria escolheu-a para fazer de conta de Amália Rodrigues no musical «Amália». Antes, tinha estado no Teatro Aberto, cantando e representando duas peças musicais que tinham Ary dos Santos e Augusto Sobral por fundo e Paulo de Carvalho, Helena Isabel, Morais e Castro, Rui Mendes, Pedro Osório, Manuel Mendonça e Adelaide Ferreira, entre outros, como companheiros de cena e de músicas.

Acontece que mantém a voz límpida e de timbre inigualável que, desde sempre, a caracterizou e, confesso, me continua a comover. Poderia ser a top one de vendas e popularidade, se tivesse cedido aos «mercados» (creio que é assim que agora é uso apelidar os sacadores de dinheiro) não fora ser quem é. Se fosse só eu a dizê-lo, seria suspeito, dada a amizade que nos une. Mas, num encontro recente onde estiveram pessoas que sabem da poda, uns com alguma sabedoria que a idade e a experiência lhes concederam, outros despudoradamente com menos anos, a unanimidade não precisou de consensos forjados e todos afinaram pelo mesmo diapasão: Duarte Mendes, Silvestre Fonseca, Manuel Loureiro, Samuel, Viriato Teles, Jaime Queimado, Nuno Nazareth Fernandes.

Ora como há quem reivindique que as cantigas são uma arma (não matam, mas disparam, têm alvos, atingem cifrões ou pessoas, fazem com que a gente se sente no sofá a ouvi-las num encolher de ombros ou nos sobressaltemos, assim como quem diz Que bom que é trautearmos coisas de valer a pena ou ouvirmos pessoas e músicas que saem das vozes que nos chegam e que fazem com que nos apeteça sorrir, ou voltar a querer ouvi-las e pensá-las), este escriba teimoso, de cumplicidade com o Nuno Nazareth Fernandes, mais a ajuda incomparável do Paulo de Carvalho, o bom gosto de encadernação musical do Samuel e o profissionalismo generoso do António Bizarro, no estúdio, e a arte do Carlos Canhão no alindar da capa, partiu – partimos estes todos, já se vê – para a feitura de um disco novo da Luísa. Há-de sair ainda este ano. A miúda de Vale de Vargo, agora mulher do dia a dia de quem partilha amores e canseiras, vai poder preencher-nos os dias porque sim. Basta ouvi-la para melhor a perceber. Para melhor nos percebermos.



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