SAT promete continuar as acções radicais
Sindicato andaluz promove expropriações
Um protesto contra a fome

Centenas de activistas do Sindicato Andaluz de Trabalhadores levaram a cabo, dia 7, acções de «expropriação» em duas grandes superfícies em Écija (Sevilha) e Arcos de la Frontera (Cádis).

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Em Écija, a acção simbólica teve como alvo uma loja da cadeia de supermercados Mercadona. Activistas do Sindicato Andaluz de Trabalhadores (SAT) começaram por se concentrar junto do estabelecimento. Um grupo de 30 elementos entrou e encheu uma dezena de carrinhos com produtos de primeira necessidade: arroz, leite, azeite, farinha, feijão, etc.

Para evitar que fossem interceptados ao passarem pela caixa sem pagar, os seus camaradas no exterior encenaram uma manobra de diversão que atraiu a atenção da polícia. A maioria dos carrinhos com os alimentos foi assim retirada do local antes dos agentes se aperceberem do ocorrido.

Cá fora, o deputado regional da Esquerda Unida e dirigente do SAT, Juan Manuel Sánchez Gordillo, de megafone em punho, explicava os objectivos daquela acção: «Neste momento de crise, em que estão a expropriar o povo, queremos expropriar os expropriadores, isto é, latifundiários, bancos e grandes superfícies, que estão a ganhar dinheiro em plena crise económica».

Gordillo, que também é alcaide do município de Marinadela, desde 1979, e líder do partido CUT-BAI (Colectivo Unitário de Trabalhadores – Bloco Andaluz de Esquerda) integrante da Esquerda Unida, insistiu na necessidade de alertar para a grave situação social na Andaluzia, onde «35 por cento das famílias nos centros urbanos estão abaixo do limiar da pobreza, há cerca de um milhão e 250 mil desempregados, três milhões de pobres e mais de 200 mil famílias com todos os seus membros desempregados que não recebem nenhum subsídio».

Os produtos alimentares foram distribuídos em bairros de Sevilha e na comunidade «Corrala Utopia», um imóvel ocupado onde vivem 36 famílias que perderam as suas casas.

A outra acção teve lugar, na mesma manhã, em Arcos de la Frontera, perto de Cádis, numa loja do grupo Carrefour, e foi liderada pelo secretário-geral do SAT, Diego Cañamero. Aqui, cerca de duas centenas de trabalhadores agrícolas desempregados e representantes do sindicato entraram no estabelecimento decididos a levar 20 carrinhos com alimentos de primeira necessidade.

Porém foram bloqueados à saída pela guarda civil. Os sindicalistas optaram então por negociar com os responsáveis da superfície, informando-os dos objectivos da acção e que os produtos se destinavam à população dos concelhos da Serra de Cádis, onde a taxa de desemprego atinge 40 por cento e há uma pobreza extrema. O hipermercado concordou em entregar posteriormente os produtos «expropriados» nos locais indicados.

 O barril de pólvora da desigualdade

Ambas as acções suscitaram um coro de veementes condenações por parte de dirigentes do PSOE e do PP, e o tom foi dado pelo próprio presidente da Junta da Andaluzia, o «socialista» José Antonio Griñán, que qualificou o acto como «uma barbaridade».

Sánchez Gordillo retorquiu notando que «mais bárbaros são os expedientes de regulação de emprego (ERE), o pacto [dos socialistas] com o PP para alterar a Constituição, a aplicação dos cortes, isso sim é uma barbaridade que faz letra morta do Estatuto de Autonomia».

«Alguém tem que fazer alguma coisa para que as famílias comam todos os dias», acrescentou Gordillo, que defendeu a criação de um subsídio mensal de 500 ou 600 euros para as famílias sem recursos.

«O barril de pólvora está criado e alguém pode acender um rastilho em qualquer momento e por qualquer circunstância», afirmou ainda o deputado, garantindo que o SAT vai prosseguir com acções deste tipo, incluindo ocupação de terras e de bancos «para chamar a atenção de que é preciso que a crise não seja paga sempre pelos mesmos».


Prisões e ameaças

O governo espanhol reagiu às acções do SAT ordenando a detenção dos responsáveis pelos assaltos aos supermercados. O ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, foi peremptório ao afirmar que não irá permitir que se viole a lei. «Todos estamos conscientes de que as pessoas estão a passar mal, mas o fim não justifica os meios».

O titular do Interior criticou ainda o apoio que alguns deputados manifestaram aos sindicalistas, considerando, em tom ameaçador, que aqueles dirigentes políticos que «lideram ou incitam» este tipo de actuações, além de incorrem em actos delituosos, «cometem uma gravíssima irresponsabilidade de que terão de prestar contas».

As palavras do ministro não intimidaram Gordillo, que não hesitou em lhe chamar «franquista» por ter ordenado a detenção dos sindicalistas que participaram numa acção pacífica. «Se quer apanhar ladrões, tem muitos por onde começar», e sugeriu o nome de Emilio Botín, o patrão do grupo Santander «e outros banqueiros que roubam milhares de milhões, ou muitos figurões dos partidos que roubaram às mãos cheias».

Na semana passada, as autoridades detiveram oito dos participantes nas acções do SAT, que foram entretanto libertados, e notificaram Gordillo para se apresentar ao tribunal de Écija. O deputado recusou-se a comparecer, lembrando que, dada a sua imunidade parlamentar, só pode ser notificado pelo Tribunal Superior de Justiça da Andaluzia e não pelo Ministério do Interior ou pela Polícia.

«Não vão travar-me, ficarei orgulhoso de ir para a prisão as vezes que seja necessário por este motivo», assegurou Gordillo.


Debate aberto

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A ousada acção do SAT mereceu, sem surpresa, a implacável condenação dos dois maiores partidos de Espanha, PSOE e PP, que consideram intolerável esta violação da legalidade. Ao mesmo tempo, no seio da Esquerda Unida (IU), as opiniões dividiram-se.

Por um lado, Diego Valderas, vice-presidente do governo da Andaluzia e coordenador regional da IU, deixou claro que não partilha as formas do «acto simbólico» protagonizado por Gordillo, embora subscreva o fundo do debate sobre a riqueza e a pobreza.

De distanciamento foi também a posição do deputado europeu Willy Meyer, que fez questão de esclarecer que a iniciativa sindical não tem nada a ver com a Esquerda Unida, considerando que noutros países se demonstrou que acções «vanguardistas» como esta «não só não servem como podem tornar-se num obstáculo».

Opinião diferente manifestou, dia 10, o coordenador da IU na Estremadura, Pedro Escobar, que elogiou a acção «perfeitamente planificada por um sindicato muito reivindicativo e comprometido com os trabalhadores», para suscitar um debate sobre o problema de não se conseguir garantir alimentos a toda a população numa época de crise – um «escândalo» que contrasta com as possibilidades da humanidade que acaba de enviar uma máquina para Marte.

Apoio veio também de Gaspar Llamazares, que defendeu o «acto simbólico» do alcaide de Marinaleda, notando que «foi feito às claras, com a cara descoberta e não em benefício próprio». Perguntado pela ABC Punto Rádio se faria o mesmo, este deputado da IU no Congresso respondeu que não sabia e que «tudo depende da situação». «Creio que há alguns anos ou meses ninguém previa a situação actual e no entanto estamos a ver agora coisas que nos surpreendem, nos doem e nos indignam. Por conseguinte, se for para uma situação dramática, para pessoas que estão numa situação de necessidade, o próprio Código Penal o justifica».

Por seu lado, o deputado da IU no Congresso, Alberto Garzón, qualificou a acção como um «completo êxito». Num texto publicado, dia 9, no seu blog, o deputado assinala que «a acção do SAT não é uma medida contra a crise, porque a sua generalização não resolve os problemas de raiz, mas sim uma acção simbólica com um claro conteúdo político».

No entanto, e «apesar de ser uma iniciativa ilegal, serviu para remover cimentos ideológicos na maioria das pessoas e golpeou o sistema». «A concepção do mundo que era dominante até agora está a abrir brechas e tudo está em dúvida». «E quando sabemos que tecnicamente as necessidades básicas humanas podem ser satisfeitas e que o único obstáculo é o próprio quadro institucional, concebido em benefício e garantia das grandes empresas e das grandes fortunas, então acções como as do SAT recuperam toda a sua natureza revolucionária e de justiça social. Neste ponto, a ilegalidade é legítima e contribui para preparar o terreno para uma mudança institucional, que primeiro e antes de tudo tem de construir-se no plano ideológico».



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