• Anabela Fino

Sem relaxe

Tendo nascido e crescido num país submetido a uma feroz ditadura fascista e tendo tido a incrível sorte de viver os tempos luminosos da revolução de Abril, nunca pensei que viria ainda a ser testemunha de como a democracia burguesa vigente nesta nossa Europa dita civilizada e desenvolvida pudesse ser tão brutalmente exploradora e opressora, tão violentamente obscena, tão bestialmente desumana. Sabia, evidentemente, que não era ainda «a democracia», essa forma superior de organização social onde não é sequer concebível a exploração e a opressão do homem pelo homem, mas o caminho estava aberto à única utopia por que vale a pena viver: a construção do socialismo. E eis que volvidas menos de quatro décadas – um nada na história colectiva – a realidade aí está a mostrar como as revoluções podem servir de trampolim aos traidores de todos os quadrantes disponíveis para se aliarem aos tiranos derrubados, os mesmos que lá no buraco onde se escondem quando os tempos são de convulsão social não olham a meios para reunir forças para novo assalto ao poder. Com mais sanha, com mais fúria, com mais sede de exploração. E cada vez com menos pruridos de mostrar a verdadeira face, por muito que se afirmem «democratas».

Ao Portugal governado pelas troikas chegam os sinais dessa «democracia» instalada na Europa e por cá a singrar com todo o esplendor: que este caminho onde PS/PSD/CDS meteram o País é o acertado, dizem-nos, mas há que acelerar o passo, estamos mesmo a ficar atrasados – como severamente advertiu Mário Draghi, presidente do BCE – e a dona Europa pode perder a paciência. Há que despedir para criar emprego, há que reduzir o salário mínimo para combater o desemprego, há mesmo que encarar como natural, que digo eu?, como imprescindível o relaxe – que termo tão significativo! – do que ainda subsiste de protecção laboral na legislação portuguesa para que o País entre enfim em velocidade de cruzeiro... no caminho da servidão. Trabalhar de sol a sol por um prato de lentilhas, eis o que nos oferecem. Ocorre-me a propósito o refrão de uma canção muito popular no tempo do fascismo: que mais queres tu, no País do sol onde podes andar nu? Abril foi então a resposta. Haverá mais, que o calendário não relaxa.



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