• Eugénio Rosa

A crise não toca a todos
Lucros das grandes empresas subiram 154,6 por cento em 2010
O INE acabou de divulgar uma publicação importante com o titulo «Evolução do Sector Empresarial em Portugal 2004/2010». E os dados constantes dessa publicação revelam que as grandes empresas (empresas com mais de 250 trabalhadores e com um volume de negócios superior a 50 milhões de euros/ano) estão a obter elevados lucros; por outras palavras, nem todas as empresas estão a perder com a crise como os patrões e o Governo pretendem fazer crer à opinião pública.

Comecemos por analisar a variação dos lucros totais das empresas não financeiras segundo a sua dimensão (as PME subdividem-se em Micro, Pequenas e Médias empresas) no período 2006/2010, ou seja, os lucros de todas as empresas antes da crise (2006) e depois da crise (2007/2010).


A conclusão que se tira é a seguinte: entre 2006 e 2010, os lucros totais líquidos das empresas não financeiras aumentaram em 33,4%, pois passaram de 15 058,8 milhões de euros para 20 082,6 milhões de euros. No entanto, o aumento não foi igual para todas as empresas, pois as micro e pequenas empresas até registaram diminuição. Segundo o INE, entre 2006/2010, os lucros das grandes empresas (1082 empresas em 2010) aumentaram em +83,3%; os lucros líquidos obtidos pelas médias empresas (6281 empresas) subiram em 39,2%, mas os lucros das pequenas empresas (42 662 empresas) diminuíram em -22,2%, e os lucros das micro empresas (1 094 215 empresas) reduziram-se em -12,5%. Se a análise se restringir ao período 2009/2010, a desigualdade das situações é ainda maior. E isto porque em 2010 os lucros líquidos das grandes empresas aumentaram em 154,6%; os das médias empresas subiram em 88,8%; mas os das pequenas empresas cresceram em 17,9%, e os lucros das micro empresas tiveram um aumento de apenas 8,8%.

E não se pense que esta diferença tão grande na taxa de aumento dos lucros se deve a alteração do número de empresas entre 2006 e 2010. Se analisarmos o lucro médio por empresa conclui-se que, entre 2006 e 2010, o das grandes empresas aumentou +77,2%, o das médias empresas subiu em +42,8%, e o das pequenas e micro empresas diminui, respectivamente, em -17,7% e –12.7%. E que, entre 2009 e 2010, segundo os dados divulgados pelo INE, o lucro líquido obtido em média por uma grande empresa aumentou em +149,9%, por uma média empresa cresceu em +93,3%, enquanto as pequenas e micro empresas tiveram, cada uma delas, um aumento médio de lucros, respectivamente, de +21,3% e +14,1%.

Em 2010, cada uma das grandes empresas teve em média um lucro líquido de 11,3 milhões de euros (6,3 milhões de euros em 2006), enquanto o lucro obtido por uma empresa média foi de 265 700 de euros; o de uma pequena empresa foi de 20 100 euros, e o de uma micro empresa foi apenas de 4900 euros (5600 de euros em 2006); por outras palavras, o lucro liquido médio de uma grande empresa foi 2306 vezes superior ao de uma micro empresa.

É evidente que a taxa de exploração dos trabalhadores, que tem como a base a mais-valia criada pelo trabalho não pago, é muito maior nas grandes empresas como facilmente se conclui do Quadro, 2 cujos valores foram calculados utilizando os dados do INE.


Em 2010, segundo o INE, o lucro líquido médio por trabalhador obtido nas grandes empresas foi 4,9 vezes superior ao obtido por trabalhador numa empresa média, mas o gasto com pessoal per capita foi na grande empresa apenas 1,1 vezes superior ao da empresa média; em relação às pequenas empresas, o lucro médio por trabalhador de uma grande empresa foi 13,5 vezes superior ao obtido por uma pequena empresa, mas o gasto com pessoal per capita na grande empresa foi somente 1,4 vezes superior ao de uma pequena empresa; em relação às micro empresas, o lucro médio obtido por trabalhador numa grande empresa foi 4,8 vezes superior ao obtido numa micro empresa por trabalhador, mas o gasto com pessoal per capita numa grande empresa foi superior apenas em 3,7 vezes ao suportado por trabalhador numa micro empresa. Fica assim claro que nas grandes empresas o nível de exploração dos trabalhadores (mais valia criada pelo trabalho não pago) é superior ao verificado nas restantes empresas. Daí a necessidade de um imposto que incida sobre estes sobrelucros, nomeadamente sobre os dividendos distribuídos que não são nem investidos, nem criam emprego, e a maior parte deles nem paga impostos.

Com apenas 21,3% dos trabalhadores
grandes empresas ficam com 60,9% dos lucros


As grandes empresas eram apenas 1082 em 2010 (em 2006 eram 1046), ou seja, 0,1% do total de empresas existentes no nosso País. No entanto, elas apropriam-se de mais de metade dos lucros líquidos de todas as empresas, como revelam os dados do INE constantes do Quadro 3.

Em 2010, segundo o INE, as grandes empresas empregavam apenas 21,3% (818 113) do total dos trabalhadores, mas obtiveram 60,9% (12 229,4 milhões de euros) dos lucros líquidos totais

alcançados pelas empresas não financeiras nesse ano, enquanto nas micro empresas, que empregavam 44,3% (1 701 959 trabalhadores) do total de trabalhadores, os lucros representaram apenas a 26,5% (5326,3 milhões de euros) dos lucros líquidos totais das empresas.

Fica assim claro, que contrariamente à mensagem que o Governo e o patronato pretendem fazer passar junto da opinião pública, para impor mais sacrifícios aos trabalhadores, nem todas as empresas estão a ter prejuízos, e as grandes empresas já estão a ganhar muito com a crise. É evidente que a crise não está a atingir nem todos nem todas as empresas (alguns estão a ganhar muito com ela), o que é ainda mais agravado pela política de classe iníqua deste governo e da troika em que os mais atingidos são os trabalhadores, os aposentados e os pensionistas, e aqueles que para sobreviverem precisam de apoios sociais que estão a sofrer grandes cortes.



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