• Jorge Cadima

O guião do que se passa nos dias de hoje parece ter sido escrito em 1957
Lições da História

Há muito para aprender sobre o presente quando se olha para o passado. Por vezes situações históricas apresentam (apesar de naturais diferenças) semelhanças impressionantes com a actualidade. Um exemplo disso são os documentos relativos aos planos secretos anglo-norte-americanos, elaborados em 1957, para desestabilizar a Síria e criar condições para uma invasão por tropas estrangeiras e uma mudança de regime.

Relata o jornal inglês Guardian (27 de Setembro de 2003) que documentos descobertos por um investigador nos arquivos do ex-ministro da Defesa do governo inglês chefiado por Harold MacMillan «revelam que em 1957 Harold MacMillan e o Presidente [dos EUA] Dwight Eisenhower aprovaram um plano da CIA e MI6 [serviços secretos ingleses] para encenar falsos incidentes de fronteira como pretexto para uma invasão da Síria pelos seus vizinhos pró-Ocidentais e para posteriormente "eliminar" o triumvirato mais influente de Damasco». E acrescenta: «o assassinato de três altas figuras estava no cerne do projecto». Os três alvos do plano da CIA-MI6, oficialmente apadrinhado ao mais alto nível, eram «Abd al-Hamid Sarraj, chefe dos serviços secretos militares sírios; Afif al-Bizri, Chefe do Estado Maior sírio; e Khalid Bakdash, dirigente do Partido Comunista Sírio».

O guião do que se passa nos dias de hoje parece ter sido escrito em 1957. Ainda segundo o Guardian, o plano passava por «criar pequenas sabotagens, incidentes e golpes de mão no interior da Síria []. O relatório afirmava que, uma vez criado o grau de medo necessário, seriam encenados incidentes fronteiriços e confrontações junto às fronteiras de forma a criar o pretexto para uma intervenção militar iraquiana e jordana. A Síria deveria «ser apresentada como patrocinadora de complots, sabotagens e violência dirigida contra os governos vizinhos» afirma o relatório. «A CIA e o SIS [MI6] devem usar os seus meios, quer no campo psicológico, quer no campo da acção, para aumentar a tensão». Isso significava realizar operações na Jordânia, Iraque e Líbano que tomariam a forma de «sabotagens, conspirações e actividades musculadas de vário tipo» cuja responsabilidade seria atribuída a Damasco». Até mesmo a terminologia não difere muito do que vemos hoje: «O plano previa a criação dum "Comité Síria Livre" e o armamento de «facções políticas com capacidade paramilitar ou de acções de outro tipo» no seio da Síria. A CIA e o MI6 instigariam levantamentos nacionais, por exemplo dos Druzos no Sul, ajudariam a libertar presos políticos detidos na cadeia de Mezze, e instigariam a Irmandade Muçulmana em Damasco». Se a explicação para o objectivo político aparecia então encoberta numa linguagem hoje datada, nem por isso deixa de ser claro queentão, como hojeas preocupações dos dirigentes das potências imperialistas anglo-saxónicas, eram tudo menos a democracia e a vontade popular: «Os autores do plano previam substituir o regime Baas/Comunista por outro, firmemente anti-soviético, mas confessavam que isso não seria popular eprovavelmente seria necessário começar por medidas repressivas e pelo exercício arbitrário do poder».

Estas revelações trazem à memória outro ex-libris do cinismo e da provocação política mais abjecta, por parte dos dirigentes imperialistas: a Operação Northwoods (veja-se o Avante! de 28.12.01). Nesse documento de 1962, o Estado Maior General das Forças Armadas dos EUA respondia a um pedido do Ministério da Defesa para «uma descrição breve mas concreta de pretextos que possam servir de justificação para uma intervenção militar dos EUA em Cuba». A inconcebível lista de possíveis acções a serem levadas a cabo pelos EUA, a fim de criar pretextos para a invasão, incluía uma campanha bombista em território dos EUA, o assassinato de refugiados contra-revolucionários cubanos e a encenação do derrube de um avião civil, acções cuja paternidade seria falsamente atribuída a Cuba.

Quem teime em acreditar na propaganda belicista do imperialismo dos nossos dias faria bem em estudar os documentos oficiais do próprio imperialismo relativos às suas conspirações, provocações e agressões.



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