Intervenção de Jerónimo de Sousa
no lançamento da «Fotobiografia de Álvaro Cunhal»
Uma vida exemplar<br> que nos enche de confiança

Em nome do Partido Comunista Português queria, antes de mais, agradecer a vossa presença neste acontecimento editorial de lançamento da «Fotobiografia de Álvaro Cunhal» que, estamos certos, reconhecerão pelo valor e qualidade do trabalho que agora se dá a conhecer como mais um momento marcante no conjunto das iniciativas que temos vindo a realizar no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento. Temos afirmado, no decorrer do já extenso e diversificado programa das comemorações realizado, que Álvaro Cunhal é uma figura central e uma referência maior da nossa história contemporânea e da luta do nosso povo pela liberdade, a democracia e a emancipação social e humana.

Não há exagero quando afirmamos que esse homem de cultura integral e invulgar inteligência, de firmes convicções humanistas, inteireza de carácter, é uma figura fascinante. Esta obra colectiva que agora se dá à estampa revela-o na plenitude e diversidade da sua vida, da sua intervenção política, como militante e dirigente comunista, como estadista, como intelectual, ensaísta, criador literário, artista plástico e teorizador de arte, mas igualmente nas suas relações mais íntimas e pessoais como filho, como pai, como irmão, como companheiro que amou os seus com a mesma intensidade com que foi amado e cuja profundidade dessas relações afectivas sobressaem com cristalina transparência nesta fotobiografia.

Uma obra que, contendo uma história pessoal de um homem extraordinário, comunista convicto, revela não apenas o trajecto de uma vida de trabalho, luta, coragem e dignidade, vivida em nome da concretização do ideal da construção de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem, mas também a história das nossas próprias vidas no último século. Uma história na qual foi um protagonista destacado, presente nos mais significativos e importantes acontecimentos da nossa vida colectiva.

História da luta do povo

Nesta «Fotobiografia» está muita da história do nosso País e do nosso povo. Está a vida e luta dos trabalhadores, dos camponeses, dos pescadores, dos intelectuais, dos jovens e dos estudantes, das mulheres e das classes e camadas antimonopolistas, que será uma constante em todos os períodos da vida nacional. Do período da resistência à Revolução de Abril. Do período revolucionário ao período de recuperação capitalista e dos governos de política de direita, que permanece até aos nossos dias.

Grandes e corajosas lutas que não podem ser desligadas do contributo, da acção e da intervenção do PCP e do acompanhamento, estudo e contribuição de Álvaro Cunhal que desde cedo deu para a sua valorização e desenvolvimento como elemento fundamental e determinante do processo de mudança e motor das grandes transformações.

Uma contribuição bem evidente na sua proposta de adequação da luta da classe operária e dos trabalhadores às condições impostas pelo regime fascista. Isso está patente, no relatório por si apresentado no já longínquo III Congresso do PCP, que esta Fotobiografia evidencia, que permitiu que a classe operária se tivesse transformado na vanguarda da luta de resistência antifascista, criado as condições para o surgimento da Intersindical, em 1970, e esta tivesse desempenhado o papel que desempenhou nos grandes movimentos de massas e o papel de relevo que assumiu no processo revolucionário de Abril e que hoje permanece como o grande baluarte dos trabalhadores portugueses, e a mais importante e combativa organização social do País.

Uma contribuição de grande originalidade de resposta à especificidade da situação portuguesa, quer na via escolhida da intervenção do movimento operário no plano sindical com o abandono dos sindicatos clandestinos e a participação nos sindicatos nacionais, quer no plano das soluções para garantir a unidade da classe operária que haveria de influenciar e determinar as características únicas que apresenta o movimento sindical unitário português.

Estar onde estão as massas, trabalhar e aprender com elas, e com elas agir na defesa dos seus interesses, foi a palavra de ordem que então se impôs e que hoje mantém toda a actualidade, particularmente quando assistimos à mais brutal ofensiva contra as conquistas que são o resultado da luta de gerações de trabalhadores e se impõe pôr fim a uma política, a um pacto de agressão e a um governo de desastre nacional.

Unidade, solidariedade, luta

Nesta «Fotobiografia» evidencia-se o empenhamento e a particular importância que Álvaro Cunhal deu à unidade das forças antifascistas e à criação e organização de amplos movimentos unitários políticos e sociais, na afirmação, desenvolvimento e êxito dos quais o PCP se empenhou. Amplos movimentos que vão, em períodos diversos, do MUNAF ao MUD, do Movimento Nacional Democrático à Frente Patriótica de Libertação Nacional, das Comissões Democráticas Eleitorais à realização dos congressos da Oposição Democrática, no quadro dos quais se travaram importantes batalhas políticas e eleitorais visando a criação de condições para o derrube da ditadura fascista. Mas igual empenhamento no esforço para unir os democratas, os patriotas, as forças e organizações sociais na defesa do regime democrático e das grandes conquistas de Abril, e na procura da concretização da alternativa ao rumo de destruição, subversão e mutilação que há muito vem sendo seguido no País.

Nesta «Fotobiografia» está muita da história da vida e luta dos comunistas portugueses, que se orgulham de o ter tido como seu Secretário-geral, com uma intervenção que marcou o Partido, esse Partido que reciprocamente havia também de marcar o homem que foi com a sua personalidade ímpar e o revolucionário de corpo inteiro que conhecemos. A história de um Partido construído a pulso, com o sofrimento e o sangue de muitos dos seus melhores, que esta «Fotobiografia» não esquece, e na construção do qual Álvaro Cunhal deu um contributo decisivo. Um contributo pessoal inestimável que se alargou aos mais diversos domínios da vida da sociedade portuguesa e se projectou na acção colectiva de um Partido com uma intervenção marcante e ímpar na vida do País, mas também à luta libertadora de outros povos, em direcção aos quais erguia o seu olhar fraterno e solidário na procura e afirmação de um mundo melhor e mais justo.

Um olhar que se traduziu numa intensa e prestigiante intervenção e acção no plano internacional de apoio aos movimentos de libertação nacional, à luta pela paz, de estímulo ao processo de emancipação dos trabalhadores e dos povos e à luta pelo socialismo, em defesa do reforço da unidade e solidariedade do movimento comunista internacional e deste com a frente anti-imperialista. Uma intervenção reconhecida que, por isso, granjeou o respeito dos muitos milhões de seres humanos, que nesse século e nos diversos continentes, lutavam contra a exploração e procuravam e experimentavam os caminhos de uma vida autónoma e independente, mas igualmente um enorme prestígio para o seu Partido e para o seu País. Isso está espelhado na multiplicidade da sua participação nos mais importantes encontros e fóruns mundiais de debate dos problemas internacionais e na vastíssima rede de relações internacionais que pontuam por toda a «Fotobiografia».

Tempo de grandes combates

Álvaro Cunhal viveu um tempo de grandes combates, grandes desafios e empolgantes empreendimentos, mas também de grandes perigos e ameaças. Num processo que não foi suave e regular, mas acidentado, de avanços e recuos, que conheceu os horrores e a tragédia da guerra e do fascismo. Um tempo que atravessou quase todo o século XX e o princípio do presente.

Viveu-o desde muito cedo, intervindo e trabalhando intensamente do lado dos que faziam avançar a roda da história no sentido do progresso e do bem-estar dos povos. Viveu esse século de grandes conquistas e mudanças revolucionárias, no decorrer do qual o homem deu novos passos no seu caminho milenário em busca da liberdade e da felicidade e no desenvolvimento do seu saber e capacidade criadora. O século das grandes lutas dos trabalhadores e dos povos submetidos. O século da Revolução de Outubro, dessa realização pioneira, sem precedente histórico que inaugura uma nova época histórica – a passagem do capitalismo ao socialismo que irá influenciar de forma positiva a luta dos trabalhadores e dos povos em todo o mundo a favor do progresso social e do desenvolvimento. O século das frentes populares. O século da Guerra Civil de Espanha que foi a resposta do fascismo ao avanço das forças progressistas e que Álvaro Cunhal conheceu de perto. O século das grandes conquistas dos direitos políticos, laborais e sociais e de afirmação e ascenso do movimento operário e das massas populares que a vitória na Segunda Guerra Mundial sobre o nazifascismo potenciou.

O século da derrocada dos impérios coloniais que o ímpeto revolucionário dos povos liquidou. O século da Nova Ordem Mundial, da carta da ONU, de Helsínquia e da coexistência pacífica, mas também da Guerra Fria.

O século da Revolução de Abril. Dessa portuguesa revolução da qual esta «Fotobiografia» recebe as mais expressivas e belas fotografias e nas quais se incluem também as do capítulo da luta dos trabalhadores e do povo. Fotos magníficas e de uma expressiva beleza no que projecta de verdade na relação de Álvaro Cunhal com o povo, na limpidez de sentimentos recíprocos de humanidade e respeito que delas emanam.

Fotografias que revelam não apenas a dimensão do teorizador da Revolução que foi Álvaro Cunhal e o seu contributo precioso, particularmente com essa obra notável que é o «Rumo à Vitória» e que, inquestionavelmente, criou condições para a Revolução de Abril e para as profundas transformações revolucionárias operadas na sociedade portuguesa, que se traduziram em importantes conquistas dos trabalhadores e do povo português. Conquistas em defesa das quais Álvaro Cunhal dedicou o melhor do seu saber, da sua experiência e da sua intervenção, como dirigente do PCP, como deputado, como ministro da República nos governos provisórios, como conselheiro de Estado.

Fotografias que mostram não apenas o orador enérgico, firme e confiante, escutado e respeitado, presente em cada uma das grandes iniciativas e batalhas políticas ou em cada uma das curvas apertadas que a jovem Revolução teve que enfrentar, para rechaçar os vários golpes das forças da contra-revolução que desde a nascença a tentou liquidar, mas a razão que levou tantas vezes Álvaro Cunhal a afirmar com convicção que as conquistas e os valores de Abril se mantêm como uma referência na construção do futuro de Portugal.

Estão ali, na força daquelas imagens, nos rostos e vivências que transparecem de cada um dos participantes, e o que elas significam de ligação à vida e à realidade, mas também de aspiração colectiva. Estão ali, naqueles rostos queimados pelo trabalho árduo dos campos, empenhados na realização da Reforma Agrária – que Álvaro Cunhal definia como a mais bela conquista da Revolução. Expressa-se nesses vibrantes comícios e manifestações de milhares e milhares de portugueses, da classe operária e dos trabalhadores, das mais diversas camadas da população. Na alegria da participação. Na vida das empresas e nos combates travados em defesa da economia nacional, das nacionalizações e por melhores condições de vida para todos.

Vivências e realidades que deixaram marcas profundas no País e que são a razão de, ainda hoje, e perante uma Revolução tão golpeada, afirmarmos com a mesma convicção o futuro desses valores. Marcas que estão gravadas na vivência colectiva das largas massas que se envolveram na construção da sociedade nova de Abril e que esta obra vai contribuir para reavivar e ser também um referencial da nossa memória colectiva. Vivências e valores que passarão de pais para filhos e que jamais se apagarão, como bem se vê no entoar da «Grândola, Vila Morena» que as simboliza, nas lutas que hoje se travam contra a política de destruição, imposta pela troikas nacional e estrangeira ao povo português e ao País!

Confiar no futuro, sempre

Mas o que a «Fotobiografia» revela, para quem a quiser olhar sem preconceitos é, sem dúvida, a relação de autenticidade do dirigente do Partido com o povo, que se expressa,em Álvaro Cunhal, numa peculiar forma de estar tão próxima e tão natural, onde está patente o gosto genuíno do contacto directo com as pessoas, de as conhecer e receber delas a experiência das suas vidas, a sua opinião. São muitas as fotos que revelam essa relação de simplicidade, proximidade e de respeito e apreço recíprocos. Vê-se no à-vontade daquela mulher simples em Corvos que lhe coloca a sua mão calejada pelo trabalho no ombro e com ele conversa, tratando-o e falando como um dos seus. Nas inúmeras fotos de encontros ocasionais e de trabalho ou naquela esplêndida foto que mostra a efusiva manifestação de alegria daquela mulher do campo que lhe entrega um ramo de flores silvestres. Um ramo de flores igual àquele que Álvaro Cunhal teria colhido nos jardins da prisão para dar à sua mãe que o visitava em dia de anos, se o seu pedido ao director, que esta «Fotobiografia» reproduz, tivesse tido acolhimento.

Esta é a uma «Fotobiografia» de um combatente intrépido, que se entregou com denodada abnegação – resistindo às mais terríveis e duras provas de vida clandestina e prisão – à causa dos trabalhadores e do seu povo, à causa da liberdade, da democracia do socialismo. Que, nos momentos amargos da derrota, na perda de conquistas, na destruição de direitos, nos ensinou que nada está perdido para todo o sempre.

Sem claudicar, manteve, sempre e sempre, um elevado nível de confiança no futuro, nos seus companheiros de combate e de projecto, na classe operária, nos trabalhadores, na concretização dos objectivos supremos do seu Partido – o PCP: a realização da sociedade nova, o socialismo e o comunismo.

Confiança reafirmada particularmente nos momentos mais difíceis, como o foram as dramáticas derrotas do socialismo no final do Século XX e quando os senhores do mundo e os seus arautos anunciavam o capitalismo como o fim da história. Num momento em que o capitalismo está mergulhado numa das mais profundas crises, a sua afirmação de que «nem o projecto comunista de uma sociedade nova e melhor deixou de ser válido, nem o capitalismo se mostrou ou mostra capaz de resolver os grandes problemas da humanidade e se pode considerar um sistema definitivo», ecoam hoje como certezas que a vida está a confirmar.

Um imenso legado

Álvaro Cunhal deixa-nos um imenso legado, de que esta «Fotobiografia» dá testemunho. Deixa-nos, desde logo, esse grande exemplo da entrega desinteressada ao serviço da causa justa que abraçou. Uma concepção e uma prática política de recusa de vantagens e privilégios sociais. Uma concepção do exercício da actividade política realizada para servir o povo e o País e não interesses pessoais ou de grupo, que, nos tempos que correm, assume uma grande actualidade.

Uma importante produção artística, nomeadamente no campo da estética, da criação literária e nas artes plásticas. Uma notável obra teórica, onde se revelam o domínio das teorias e método de análise do marxismo-leninismo que assimilou de forma criativa, particularmente para responder aos problemas da sociedade portuguesa e à concretização de um projecto de desenvolvimento soberano do País.

Uma contribuição decisiva para a construção do Partido que somos, com as suas características e identidade, mas igualmente um contributo notável na definição do seu projecto político. Isso é patente na sua contribuição de relevo para a definição do Programa para a Revolução Democrática e Nacional e no seu papel destacado na formulação do Programa do Partido «Portugal: uma democracia avançada no limiar do século XXI» e que está na base do actual Programa do PCP «Uma Democracia Avançada – Os valores de Abril no futuro de Portugal». Um programa para responder aos problemas do desenvolvimento do País para a actual etapa histórica, parte integrante e constitutiva da luta pelo socialismo, e cuja realização é igualmente indissociável da luta que hoje travamos pela concretização da ruptura com a política de direita, e da materialização de uma política patriótica e de esquerda.

Mas o que transparece nesta «Fotobiografia» é a força das convicções e do ideal que Álvaro Cunhal afirmou ao longo de uma vida toda, de uma luta inteira – o ideal comunista!

 



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