• Correia da Fonseca

Duas escolhas

Como facilmente se entende, é necessário escolher para abordagem nestas colunas o assunto ou os assuntos que, entre todos os que a televisão traz a nossas casas, semana após semana pareçam mais relevantes, mais significativos ou, eventualmente, mais apetitosos. Também se entenderá que nem sempre é uma escolha fácil: o produto que as operadoras de TV nos fornecem é em grande parte medíocre sobretudo nos seus dois sectores dominantes, o da informação e o do chamado entretenimento, e isto de tal modo que no que se refere à informação (que, bem o sabemos, de facto se torna formação ou deformação), a própria infidelidade à verdade, isto é, a mentira e a manipulação, se torna rotina e, consequentemente, chateza e enfado, coisa quase desinteressante por tão repetida. Ainda assim, porém, é preciso prosseguir a tarefa de ver, ouvir e contar, quer dizer, de vigiar e proteger o que é nosso, isto não porque sejam nossas as operadoras privadas de televisão, é claro, mas sim porque são nossos os nossos olhos, os nossos ouvidos e o nosso bom entendimento das coisas, o que a TV tenderá a impedir, para nosso mal. A questão é que, dia após dia, a televisão nos entrega uma versão da História contemporânea construída em decisiva parte com omissões e viciações, com páginas arrancadas e/ou truncadas, tudo isso tendo a ver com o permanente ataque ideológico em que cada um de nós é alvo, embora não dê por isso ou facilmente o esqueça. É neste quadro, como bem se entende, que a TV exige vigilância bastante e denúncia quando necessária, porque a ameaça constante é a de uma espécie de envenenamento colectivo.

Lamentos e confusões

Abandonemos, porém, este tom à beirinha de se tornar presunçoso sem qualquer razão para isso e passemos à tarefa desvaliosa, mas necessária, de escolher o assunto ou os assuntos que hoje aqui serão abordados. Como sempre, haveria várias candidaturas, digamos assim, mas talvez não seja errado optarmos por dois temas que muito têm surgido nos nossos televisores nestes últimos dias, um já quase tendo adquirido um carácter permanente, outro mais episódico mas caracterizado por uma interessante exemplaridade. O primeiro tem a ver com o senhor primeiro-ministro e com o Governo que, dizem, é por ele liderado: a absurda guerra mediática desencadeada por esse punhadinho de criaturas contra o Tribunal Constitucional atingiu o grau de tragicomédia e prova que esse curioso grupo, a quem alguns chamam bando, se considera completamente incapaz de governar sem infringir a lei. E, pasme-se, lamenta-se por isso! Com perdão do paralelo que não quer ser agressivo, imaginemos como seria risível que uma quadrilha de larápios bramasse contra as leis que lhe dificultariam o peculiar modo de vida e delas se queixasse todos os dias, alegando que assim não poderia exercer a sua actividade: é essa a triste figura que fazem Pedro Passos e companhia. O segundo tema escolhido para estas colunas não tem a mesma importância mas parece ser eloquente: é o caso do senhor ministro dos Negócios Estrangeiros que, para se defender da acusação de ter mentido deliberadamente, veio alegar que fez confusão, que tomou acções da SLN como sendo do BNP numa declaração formal feita ao Parlamento. Aparentemente, quer isto dizer que o senhor ministro é daqueles que, de tantos bens que detém, acaba por não saber ao certo quais exactamente são os seus. Há, porém, um pior aspecto do equívoco invocado: é que o actual ministro dos Negócios Estrangeiros era até há poucochinho tempo uma figura de topo dos negócios bancários, e é curioso que criatura assim possa confundir acções de empresas diferentes a ponto de trocar umas por outras numa declaração com responsabilidades. Perante isto, fica a gente a conjecturar coisas decerto injustas, mas dificilmente evitáveis, acerca de méritos e competências. E também de probidades, porque há uma outra estória ligada a estes títulos, ou a outros muito semelhantes, essa relacionada com lucros vultosos e rápidos proporcionados pela compra e venda de títulos. Mas disso não se falará aqui, entenda-se, porque ao fazê-lo nos arriscaríamos a ter de falar do senhor Presidente da República, leviandade que não cometeremos.



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