• Jorge Messias

Quanto mais Caridade<br> mais a miséria alastra

«A alta dos preços do arroz, feijão, milho, soja e outros produtos, através do recurso a mitos da chamada globalização do mercado (commodities), vai matar em breve 100 milhões de seres humanos… Na verdade, a globalização liberal não intensifica a concorrência mas facilita a conquista do controlo do mundo por meia dúzia de potências que dão cartas no FMI, Banco Mundial e OMC...» (Archibaldo Figueira, “O Monopólio é a causa da Fome”, Nº. 43).

«A agricultura da subsistência mundial foi pilhada pelos países mais ricos. Mas a fome no mundo não pode ser anulada pela intervenção caritativa do Ocidente no controlo dos preços ou no simples aumento da produção. Só se resolverá com uma Reforma Agrária que devolva aos países neocolonizados a soberania alimentar» (“Fome Mundial, fartura do capital”, Revista Rubra, nº. 16).

«Diz Marx que a lei geral da acumulação capitalista ocasiona uma acumulação de miséria correspondente à acumulação do capital... A acumulação da riqueza num pólo é, pois, ao mesmo tempo, a acumulação da miséria, da exploração, da escravidão, da ignorância e da brutalização e degradação moral, no pólo oposto» (“K. Marx, “O Capital”, Livro II).

Ajuda a entender os acontecimentos comparar-se o que desde há algum tempo se vem passando na América Latina e as situações que rapidamente se instalam em boa parte do resto do mundo, nomeadamente na Europa. Os direitos dos fracos baqueiam perante os interesses dos fortes. Os pequenos países do Sul europeu aceitam o jugo imposto pelas troikas do grande capital; não cessa de aumentar o número dos pobres e dos desempregados. Crescem em flecha os preços dos bens necessários à vida (sobretudo, os dos produtos alimentares), as contribuições e impostos que incidem sobre salários e pensões, o custo dos medicamentos, dos transportes, da saúde, educação e justiça, etc. Isto não se passa num ou noutro país. A cadências diferentes, é certo, verifica-se nos territórios desenvolvidos e nas terras mais atrasadas do universo. Os pobres que paguem a crise e se verguem sob o chicote dos ricos.

Para multidões de pobres e de explorados, a crise capitalista é um estado permanente que não devem aceitar e significa fome, miséria e exclusão social. Para outros, porém (uma pequena minoria) crise económica e financeira é expressão risonha que gera fortunas novas e transporta algumas das antigas aos píncaros da Lua. Há uma terceira camada de cidadãos embalados por promessas utópicas tais como os das capacidades sociais da Caridade, da Filantropia ou da economia assistencial da Sociedade Civil pós-moderna.

A verdade é que 64% de capitais norte-americanos e japoneses se incluem no grupo de 1% dos mais ricos banqueiros mundiais e 35% da riqueza universal é canalizada para os EUA, enquanto a Europa recolhe nos seus cofres 30% das fortunas globais. Dinheiro produz dinheiro mas também fome, miséria e angústia entre aqueles de que o capital se serve como produtores. Só nos três principais países latino-americanos onde o agronegócio se tem vindo a desenvolver, os dados estatísticos elaborados pela Merril Linch capitalista apontam para a existência – apenas no Brasil, México e Argentina – de cerca de 40% das populações com receitas abaixo da linha da pobreza ou em aberta indigência.

Os mais ricos, porém, têm uma outra história.

A grande crise capitalista concentra a posse do dinheiro e faz engrossar o «pelotão da frente» do grande capital. Vale tudo desde que a riqueza aumente e o poder político seja nosso, é a filosofia central dos milionários como Gates, Slim, Buffet, Arnaut, Ortega e de um punhado de outros especuladores, representantes das forças que ditam os destinos actuais de vida e morte da humanidade. Têm as mais diversas fontes financeiras a que chamam mercados e exploram todos os sectores lucrativos, desde a banca aos armamentos, da agricultura à prostituição ou da agiotagem à filantropia.

Um dos exemplos desta prática neoliberal, permanentemente citado, é o caso de Bill Gates, senhor de uma fortuna pessoal situada à volta dos 57 mil milhões de euros (Agência Forbes, 2014). Explorador sem escrúpulos morais, é simultaneamente campeão da filantropia.

Outro tanto acontece com o Vaticano. Opta pelos pobres (!!!...) mas não cessa de acumular fortunas e de apoiar os ricos, impelindo-os no sentido de uma Nova Ordem Mundial cujo futuro passa pelo mais retinto fascismo.

 



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