Correias de transmissão

O frenesim mediático em torno das propaladas sanções europeias tem marcado a agenda dos últimos dias e semanas. A troca de correspondência entre cá e Bruxelas tem feito as delícias dos media e da maioria dos comentadores, e tem servido para alimentar linhas de especulação. Eles, que nunca põem em causa o essencial: a ilegitimidade da aplicação de um correctivo a um País soberano.

O passado fim-de-semana foi marcado por uma notícia explosiva que, começando na SIC, rapidamente se espalhou, se desenvolveu e se transformou. Uma carta enviada pela Comissão Europeia ao Parlamento Europeu com a lista dos fundos europeus que podem ser alvo de suspensão no quadro das tão faladas sanções chegava a público. A afirmação foi imediata a meio de sábado: «Bruxelas propõe suspensão de 16 fundos estruturais» ou variações do mesmo título no Público, DN, JN, Observador, TVI, Lusa, Renascença. A carta foi divulgada por um deputado espanhol no Parlamento Europeu e dizia que «as condições para a suspensão do fundos foram cumpridas e a Comissão fará uma proposta nesse sentido em breve».

A generalidade dos órgãos de comunicação social deram a notícia com base numa fonte, a tal carta, que se tinha tornado pública e acessível a qualquer um. Mas só se pode concluir que não a leram, o que é grave, porque lá estava claro que a proposta ainda não existe – será tomada «em breve». A outra hipótese é que tenham lido, não o que lá estava, mas o que esperavam que lá estivesse, o que é ainda mais grave. No primeiro caso é negligência, o que é manifestamente inverosímil, no segundo é mais uma manifestação da reprodução de tudo o que dita a máquina de propaganda da direita. Horas depois surgia um esclarecimento oficial: a carta dizia o que lá estava escrito; ainda não há decisão tomada. Os mesmos media tinham nova notícia para dar: Bruxelas esclarece que a suspensão de fundos não é para já.

Mas o que os órgãos de comunicação social têm vindo a provar é que não são apenas correias de transmissão acrítica das agências de comunicação e das máquinas de propaganda dos que ainda não se conformaram com a recuperação de rendimentos e direitos, limitada que seja. São agentes directos dessa campanha.

«Os truques da imprensa portuguesa», uma página que se tem dedicado a denunciar o enviesamento dos nossos media, tem dado exemplos disso. A divulgação dos dados estatísticos sobre o emprego, a execução orçamental ou os resultados dos leilões de dívida pública, quando favoráveis ao anterior governo, eram invariavelmente chamados a destaque. Neste novo quadro político, quando não há leitura deturpada possível, são apagados ou remetidos para «uma dúzia de linhas numa coluna lateral». Claramente, o tratamento dos números depende pouco da sua importância, mas sim da sua utilidade para justificar uma determinada tese.

São exemplos da forma como a comunicação social dominante vem deturpando a realidade. Ora escondendo-a, ora impondo a sua leitura própria, mesmo quando é preciso dizer o contrário do que vem nas cartas.



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