• Anabela Fino

Uma Festa com sementes de futuro

Os desportos náuticos (ainda) não fazem parte do diversificado cartaz das actividades desportivas da Festa do Avante!, mas quem optou por entrar no recinto pelo portão da Quinta do Cabo, e foram milhares e milhares de visitantes, certamente notou os mastros dos veleiros e vislumbrou as embarcações de todos os tipos, ancorados uns, sulcando as águas outros, que por ali não faltam, anunciando num magnífico bilhete postal ao vivo e a cores que agora a Festa convive mesmo paredes meias com a belíssima Baía do Seixal. Pode mesmo dizer-se que a Festa, onde o verde cresceu com a incorporação do arvoredo do Cabo, ficou mais azul, serpenteando pela margem da Baía até ficar sobranceira ao Tejo, lá na Medideira, onde nos dias claros se contempla Lisboa em todo o seu esplendor.

Quem optou pela «velha» entrada da Quinta da Princesa também se apercebeu de imediato que a Festa, sendo a mesma, é outra. Os espaços cresceram, dando a ilusão de que a própria avenida central está mais ampla e que as colinas ganharam suavidade abrindo horizontes até à agua que se avista lá ao fundo, serena, repousante, convidativa.

Numa palavra: a Festa está mais bonita. Não falta quem, saboreando o espaço, exprima o quase inevitável comentário – «imagina o que seria ter uma casa aqui». Pois é, mas nesse caso não haveria gente e é de e para gente que esta Festa existe. A nossa gente, as nossas gentes, que esta é uma Festa de um povo e de um País inteiro e um tributo aos povos de todo o mundo.

Gente foi o que não faltou na 40.ª Festa do Avante!, onde as pronúncias portuguesas se misturaram com outras línguas vindas de todos os continente, numa sinfonia difícil de adjectivar, misturada com sabores e cores de fazer corar de inveja o arco-íris. E alegria, pois então, que estar junto e partilhar é isso, seja à volta da mesa – por que outra razão a inventariam os homens a não ser para nela se juntarem? – ou num espectáculo, onde as emoções de quem actua e quem assiste se misturam em magnífica manifestação colectiva. E tempo para coisas sérias – como se o resto o não fosse... – que dão para pensar e aprender, seja uma exposição da máscaras que nos falam da nossa história ou debates, muitos, onde os problemas do nosso tempo, do País e do mundo, convocam para a reflexão e para a luta. E muita, mas mesmo muita juventude, presente em todo o lado com a sua diversidade, desde os que já sabem tomar partido aos que começam a dar os primeiros passos, como o pré-adolescente que na manhã de domingo memorizou a letra do «Avante, camarada» tirada da Internet para a poder cantar no comício, onde participou de moto-próprio devidamente «armado» com a bandeira do Partido e dançou a «Carvalhesa» lá bem no meio da multidão «até sentir o chão tremer» como a avó um dia lhe contou.

Quarenta festas depois a Festa continua a lançar à terra sementes de futuro. O esforço não é pequeno – que o digam os construtores! – mas os frutos, como os filhos, fazem com que valha a pena.

 



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