• Sérgio Dias Branco

A vida sobre a morte

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O recente lançamento em DVD de O Filho de Saul (Saul fia, 2015) pela Midas Filmes é uma oportunidade para (re)descobrir um dos filmes mais notáveis que estrearam em Portugal este ano.

Em Outubro de 1944, no campo de concentração e extermínio nazi de Auschwitz-Birkenau, a morte olha-se, ouve-se, cheira-se, toca-se, prova-se a cada instante. O húngaro Saul Ausländer (Géza Röhrig) vagueia por lá, anestesiado, entre a morte e a vida, como se fosse um morto-vivo. O realizador László Nemes optou pela proporção clássica da imagem, quase quadrada, que limita o acesso visual ao que circunda Saul. A câmara acompanha os seus movimentos e as suas paragens, adopta o seu ritmo, geralmente com ele em primeiro plano, focado, e tudo o resto desfocado. O choro incontrolável das pessoas desesperadas, as pancadas incessantes nas portas metálicas das câmaras de gás, são alguns dos sons que vêm de fora dos limites do quadro, compondo a inquietante densidade sonora do filme. Embora Saul seja um guia, a representação não se reduz à sua percepção. Ele encaminha condenados que desconhecem o destino que lhes será imposto. Arrasta os cadáveres empilhados para serem incinerados nos fornos. Limpa o que resta da carnificina nas paredes e no chão. Recolhe os pertences valiosos de quem morreu. É um membro do Sonderkommando, grupo de judeus escolhidos entre os prisioneiros, forçados à labuta necessária para o extermínio em massa até à exaustão – os oficiais nazis limitam-se a coordenar. Durante a limpeza de um dos crematórios, Saul repara num rapaz que sobreviveu à câmara de gás e respira com dificuldade. É rapidamente levado a um médico nazi que o observa e depois o asfixia. Saul assiste a estes acontecimentos, espreitando ao longe. Decide salvar o corpo do rapaz da autopsia para o sepultar de acordo com o preceito judaico, para o qual precisa de um rabino que recite o Kadish, um hino de louvor a Deus tradicionalmente recitado num enterro. Justifica esta decisão perante os seus companheiros de prisão dizendo que o rapaz é seu filho, falando de um passado, inventado ou não, que lhe permite libertar-se do encarceramento do presente. Não descansa enquanto não encontra um rabino para enterrar o corpo do rapaz de modo digno. A demanda de Saul corresponde assim a uma tentativa de preservar, ou de fazer triunfar, a humanidade no meio daquilo que a aniquila, mesmo que seja uma réstia, através de um pequeno gesto que afirme a memória de quem morreu. O pesadelo que se vive em Auschwitz-Birkenau é interrompido por um clarão no fim do filme, depois de Saul aproveitar uma revolta planeada pelos Sonderkommando para escapar com o corpo do rapaz e um suposto rabino. O enterro não chegará a acontecer, mas Saul há-de enterrar a sua tristeza profunda. De dentro de um barracão, escondido com os seus companheiros, avista um rapaz camponês através da porta entreaberta e sorri pela primeira vez. Havemos de seguir brevemente este rapaz quando é apanhado pelos oficiais nazis e depois largado para correr em liberdade, desaparecendo pelo meio das árvores. Os campos de Auschwitz foram libertados pelo Exército Vermelho a 26 e 27 de Janeiro de 1945.

O Filho de Saul foi galardoado com o Grande Prémio do Júri e o Prémio da Crítica Internacional no Festival de Cannes de 2015. Não admira que Claude Lanzmann, o realizador do longo e admirável documentário Shoah (1985), tão crítico de outras representações cinematográficas do holocausto como A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993), tenha expressado a sua admiração por esta obra. É uma experiência extenuante. Em vez da repetição formal, o que encontramos em O Filho de Saul é a moldagem de valores estéticos que transmitem o cansaço da morte que vai desgastando a vida, que resiste, porque cada gesto que Röhrig como Saul decide fazer tem a gravidade de um testemunho e é examinado com minúcia. A cena de abertura confronta, desde logo, o espectador com esse tenaz humanismo. De uma imagem de manchas e movimentos, onde a presença humana é difusa, surge Saul que percorre uma longa fila de prisioneiros a caminho do seu extermínio, encaminhando e dando indicações. Mostra deferência cada vez que se cruza com oficiais nazis, que chocam com ele como se ele fosse uma pedra no seu caminho: tira a boina, pára a marcha, olha para baixo, retoma a marcha. O trabalho é de organização nesta fábrica industrial da morte. As ordens em alemão vão reduzindo a vida a tarefas e a números. Mostrar prisioneiros debilitados pelo trabalho e pelo horror a alimentarem com carvão os fornos que reduzem a cinza os corpos de outros prisioneiros, e todas as suas outras tarefas impostas, revela um entendimento daquilo que o nazi-fascismo foi historicamente: a mais hedionda manifestação da natureza de classe do estado capitalista. A gigantesca máquina montada na rede de 48 campos interligados em Auschwitz reduziu os seres humanos que não pertenciam à elite nazi a coisas, a mercadorias, passíveis de serem aniquilados, forçados a colaborar nesta aniquilação ou a trabalhar para os grandes grupos económicos da Alemanha nazi. Um dos maiores campos ligados a Auschwitz-Birkenau, o de Auschwitz–Monowitz, era um campo de trabalho para o grande grupo empresarial alemão IG Farben, detentor do monopólio da indústria química e farmacêutica.




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