• Sérgio Dias Branco

A solidão do denunciante

Snowden (2016) é mais um capítulo na revisão crítica da história dos EUA que compõe o âmago da obra do cineasta Oliver Stone. Salvador (1986) retrata a guerra civil de El Salvador. É um retrato que expõe o apoio do governo estado-unidense aos grupos paramilitares de direita, os esquadrões da morte que executaram muitos religiosos que lutaram pela justiça social, nomeadamente o Bispo Óscar Romero. A trilogia Platoon (Platoon – Os Bravos do Pelotão, 1986), Born on the Fourth of July (Nascido a 4 de Julho, 1989), e Heaven & Earth (Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar, 1993) apresenta três pontos de vista distintos sobre a guerra no Vietname. O dos jovens enviados dos EUA para combater, entre os quais esteve o próprio Stone, no primeiro. O de um veterano que regressa a casa numa cadeira de rodas e se junta ao movimento de oposição à guerra, no segundo. E, finalmente, o de uma mulher vietnamita que vive as terríveis consequências do conflito armado, no terceiro. JFK (1991), Nixon (1995), e W. (2008) reflectem a importância histórica de três presidentes do país. JFK investiga o assassinato de John F. Kennedy em 1963, na cidade de Dallas, Texas. Nixon analisa a figura de Richard Nixon, que renunciou ao cargo na sequência do caso Watergate. W. narra a vida de George W. Bush, dos seus tempos de estudante universitário até à «Guerra ao Terror» pós-11 de Setembro de 2001.

A estas obras podemos acrescentar outras representações multifacetadas. Da alta finança antes e depois da crise financeira global de 20072009 em Wall Street (1987) e Wall Street: Money Never Sleeps (Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme, 2010). Da banda liderada por Jim Morrison nos vibrantes anos 1960 e 70 em The Doors (The Doors – O Mito de uma Geração, 1991). Do papel social dos grandes media em Natural Born Killers (Assassinos Natos, 1994). Do mundo espectacular do futebol americano profissional em Any Given Sunday (Um Domingo Qualquer, 1999). Das relações entre a autoridade policial e o tráfico de droga em Savages (Selvagens, 2012). Mas também de Fidel Castro e de Cuba em Comandante (2003) e Looking for Fidel (Ao Encontro de Fidel, 2004). Dos governos progressistas da América Latina e Caraíbas em South of the Border (Ao Sul da Fronteira, 2009). Podemos dizer que o tema essencial da obra de Stone é a América e a sua visão é indagadora. Não é por acaso que o projecto que desenvolveu imediatamente antes de Snowden tenha sido o documentário televisivo em episódios, The Untold History of the United States (A História Não Contada dos Estados Unidos, 2012-13).

A narrativa de Snowden é dirigida pela voz da personagem principal: o analista Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) que revelou as práticas de vigilância generalizada e de recolha de dados privados da Agência de Segurança Nacional (NSA). É conhecida a relutância de Snowden sobre esta produção cinematográfica. O facto é que esta estrutura sublinha que a vida pessoal dele não é o assunto do filme. Nada sabemos sobre a sua infância ou a sua família, por exemplo. Nesse sentido, Snowden preserva a privacidade de Snowden, em contraste com os procedimentos da NSA que ele denuncia. A importância da voz de Snowden é definida desde o início como meio de transmissão de informação e relato do seu caminho até ao quarto de hotel, em Hong Kong, onde contacta com os jornalistas Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e Ewen MacAskill (Tom Wilkinson). É em torno deste contacto, filmado pela realizadora Laura Poitras (Melissa Leo) para o seu espantoso documentário Citizenfour (2014), que o passado é evocado.

Um aspecto significativo do ponto de vista dramático é a recusa em realçar os momentos decisivos da tomada de consciência e da linha de acção de Snowden. Há uma falta de desvelamento psicológico de Snowden, como se nos fosse negado o acesso às suas emoções e aos seus pensamentos, que seria apressado entender como vazio. Na composição subtil de Gordon-Levitt, as palavras são medidas, concisas. A ausência de vibração humana de Snowden é aliás notada e comentada pela sua namorada, Lindsay Mills (Shailene Woodley). Tudo aquilo que ele sabe tem de ser mantido em segredo, mesmo das pessoas que lhe são mais próximas sobretudo dessas pessoas. Inicialmente, por um irreflectido respeito à autoridade. Depois, por uma cuidadosa estratégia com vista à denúncia.

Snowden mostra uma teia de relações a nível mundial na qual os organismos do governo dos EUA vigiam vidas e recolhem dados para fins políticos e económicos, dentro e fora do país, sem respeito pelas liberdades dos indivíduos e dos povos. O filme ganha mais força, precisamente, na ligação intelectual entre imagens e na encenação expressionista que representam, a espaços, a realidade contemporânea nas suas conexões e distorções. É uma realidade vertiginosa que vai do acesso a comunicações pessoais aos actos de guerra por drones. É nela que a figura de Corbin O’Brian (Rhys Ifans), fazendo a vez do instrutor da CIA que recrutou Snowden, parente do O’Brien de 1984, vai crescendo, tornando-se aterradora. No fim, o actor é substituído pelo próprio Snowden numa entrevista pública feita à distância. A mesma tecnologia que permite a subversão de valores democráticos é utilizada para discutir uma «democracia sequestrada», na expressão de José Saramago, reduzida a um mecanismo formal de legitimação de medidas que servem os grandes interesses capitalistas. Perante uma sala cheia, a solidão do denunciante transforma-se numa imagem num ecrã capaz de fomentar a lucidez.




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