A luta incomoda

O tratamento mediático das greves é sempre uma oportunidade agarrada pela comunicação social dominante para procurar perpetuar preconceitos face à luta dos trabalhadores e, particularmente, a essa sua forma superior.

Isto quando a opção não é o silenciamento e ocultação da luta, seja na forma de greve ou sob qualquer outra, o que acontece na generalidade dos casos. Partindo apenas da última edição do Avante!, foi o que aconteceu com a greve no Dia, na Imprensa Nacional Casa da Moeda, no Centro de Contacto da EDP em Seia, na Preh Portugal, na Mecfri Indústria de Refrigeração, ou, já depois da saída para as bancas, na Infra-estruturas de Portugal e na Lusíadas Saúde. Todas foram, na generalidade, ignoradas, com raríssimas excepções, como este jornal.

Isto ajuda a repetir fórmulas estafadas que visam a conformação do pensamento dos leitores, ouvintes e espectadores à ideologia dominante, criando campo fértil para que outras notícias e comentários se fixem sem qualquer problema: de desvalorização do papel dos sindicatos, da organização e acção dos trabalhadores em torno dos problemas que enfrentam e das suas reivindicações colectivas. De que sindicalização, as greves, enfim, a luta está fora de moda.

Quando não é possível varrer para debaixo do tapete o incómodo que a luta reivindicativa provoca nos grupos económicos que dominam a produção informativa, entram em campo outras medidas, passando-se para a manipulação, a deturpação e a mentira.

É o que se passa quase sempre que há uma greve na Educação e na Saúde, tal como se verificou recentemente. Na greve dos médicos, na passada semana, os mesmos que denunciaram – e bem – situações escandalosas e dramáticas que se vivem no Serviço Nacional de Saúde (SNS), fruto do desinvestimento que o actual Governo não inverteu, pareceram esquecer tudo isso. As peças, particularmente os directos nas televisões, quase resumiam todos os problemas do SNS aos efeitos da greve.

Quando um doente via a operação adiada pela greve, depois de meses numa lista de espera, a responsabilidade é atirada pelos media para os médicos – como se o problema de fundo fosse o adiamento e não os meses de espera, que é, aliás, uma das situações que a resposta às reivindicações dos profissionais de saúde podia resolver.

Pelo contrário, veja-se como são manipulados os utentes para que respondam o desejado, violando mesmo o código deontológico. Uma jornalista da televisão pública perguntou, no segundo dia de greve dos médicos, a uma grávida que se tinha deslocado a um hospital para realizar um exame, se estava preocupada com a perspectiva de não o fazer, explorando sentimentos e a intimidade, perguntando: «Está preocupada por não ver o seu bebé hoje?».

Também existiram casos em que o texto já parecia ir preparado de casa, independentemente das respostas dos utentes. Perante a afirmações de compreensão face ao protesto dos profissionais de saúde, uma outra jornalista rematou a peça falando num descontentamento que nunca saiu da boca de nenhum utente.




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