• Manuel Augusto Araújo

João Abel Manta é um dos maiores artistas portugueses de sempre
João Abel Manta, o rigor da ironia

MANTA 90/40 , na galeria Valbom até 10 de Novembro


João Abel Manta adquiriu um enorme reconhecimento público com os cartoons que publicou no pós-25 de Abril no Diário de Lisboa, onde, com grande ironia e bem fundada esperança na Revolução de Abril, registava, com uma pontaria que nunca falhava o alvo, os sucessos em que ela se enredava. Paradoxalmente, o que o tornou mais conhecido ocultou as várias disciplinas das artes, incluindo as artes gráficas, em que já tinha realizado um notável trabalho que o colocava e coloca entre os maiores artistas portugueses de sempre.

Na obra gráfica de João Abel Manta o grande destaque é o dos cartoons, anglicismo que propositadamente utiliza para acentuar o carácter de intervenção desse seu trabalho. Essa sua urgência de intervir, política e culturalmente, inicia-se nos anos 40 na revista da Arquitectura até à colaboração, relativamente recente, com o JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias. Fá-lo com uma imaginação transbordante, uma fina e sofisticada ironia impermeável ao demagógico e ao fácil e uma quase insuperável qualidade oficinal em que apoia esse empenho no detalhe, no pormenor que nunca se distrai de uma aguda visão global.

Presente aqui, como na sua pintura e na sua arquitectura, João Abel Manta tem um grau de exigência, de rigor, que é um valor acrescentado à sua criatividade, originalidade, saber, inteligência e erudição, à sua dignidade sem transigências com um mundo medíocre de que faz uma crítica aguda onde traça as geografias desse universo conceptual, do provincianismo e o anacronismo universal dessa mentalidade.

Isso está em toda a sua obra e está bem presente nos cartoons. Os mais conhecidos, como se referiu, são os cartoons que em 1974 e 1975 acompanharam o que se viveu em Portugal durante esses dois anos de todas as esperanças. Com o 25 de Novembro, o cartoonista João Abel Manta que tinha durante dezenas de anos enfrentado processos, lutado contra o impiedoso lápis azul da censura sem um desfalecimento, com uma coragem exemplar, desaparece do convívio público quase diário com que, entusiasticamente, cartografava a Revolução de Abril.

Eram comentários urgentes, acutilantes, em cima do acontecimento. O que era e continua a ser espantoso é nunca perderem o norte, acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu. A história de Portugal entre 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os cartoons de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do País está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Qualidade sem flutuações

A sua obra gráfica é muitíssimo mais extensa que esses cartoons e é isso que se pode ver, embora que limitadamente, na exposição da Galeria Valbom no que possibilita a percepção do imenso trabalho, da diversidade desenvolvida pelo artista em mais de cinquenta anos com uma qualidade que nunca sofre flutuações.

João Abel Manta é o que aí se mostra e é muitíssimo mais que isso. Sem referir o seu trabalho de arquitectura, a sua formação académica, há que referir a sua pintura que é a afirmação da defesa da arte contra a banalidade, evidenciando um conhecimento, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

O novo, na pintura de João Abel Manta, nunca foi o desejo superficial de inovar, mas a ferramenta que usa como meio imprescindível para exprimir a sua visão própria. Decorre de uma necessidade do processo criativo. Não lhe é exterior, o que liberta a sua pintura do uso mecânico, burocrático, das linguagens pictóricas em uso ou desuso. Não tem a pretensão de explicar o mundo mas penetra na sua opacidade, descasca a sua insuportável estranheza. Humaniza-o e revela-o.

Num ano em que João Abel Manta comemora os seus 90 anos e em que a história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas mais diversas contradanças, o tem deliberadamente esquecido, é tempo para se realizar uma retrospectiva de toda a sua vasta e poliédrica obra.




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