«Entre a democracia e o fascismo não pode haver neutralidade»
Forças democráticas brasileiras mobilizadas para travar ameaça fascista

ESCOLHA Na segunda volta das eleições presidenciais, no domingo, 28, os brasileiros escolhem entre um projecto democrático, representado por Fernando Haddad, e a ameaça de cariz fascista de Bolsonaro.

Numa acção de campanha no Nordeste, em Fortaleza, no Ceará, perante 50 mil pessoas, há dias, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) mostrou-se confiante na vitória, apesar das sondagens desfavoráveis. «O povo vai eleger Haddad e Manuela para ser feliz de novo, com liberdades, direitos sociais e direitos civis», afirmou, criticando o opositor, «que só fala em violência, ofende os nordestinos, ofende as mulheres, ofende os negros, é uma figura doentia que só tem ódio no coração».

Aos jornalistas, Haddad acusou Jair Bolsonaro de estar a ser favorecido por grupos mediáticos, bancos, elites e empresas que usaram milhões para veicular mensagens falsas através das redes sociais, o que «põe em risco a democracia» no Brasil. A recusa do candidato de extrema-direita em participar em debates, sublinhou Haddad, mostra que não tem propostas, não tem programa, quer «um cheque em branco do país para ser presidente da República».

Também Manuela d’Ávila, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), candidata a vice-presidente pela coligação «O Povo Feliz de Novo», alertou contra as notícias falsas difundidas em redes sociais sobre os candidatos do PT e do PCdoB. «Tudo isso é calculado, financiado por uma máquina multimilionária, eficiente e perversa, ao serviço de interesses escusos», considerou Manuela.

De acordo com a Folha de São Paulo, a campanha de Bolsonaro utiliza um esquema ilegal de disseminação de fake news no WhatsApp, recebendo para tal financiamento milionário, proibido pela legislação eleitoral. Segundo o jornal, as empresas envolvidas compraram um serviço chamado «disparo em massa», utilizando a base de utilizadores do próprio candidato ou bases vendidas por agências de estratégia digital – outra ilegalidade.

Contra o fascismo

Cerca de 150 personalidades das mais diversificadas áreas de intervenção subscrevem o «Manifesto internacional contra o fascismo no Brasil», o que representa uma expressão de solidariedade para com o povo brasileiro e a sua luta em defesa da democracia e contra a ameaça do fascismo no Brasil.

«Nós, mulheres e homens de várias partes do mundo comprometidos com a democracia e os direitos humanos, expressamos o mais profundo repúdio ao candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, que disputa o segundo turno da eleição presidencial no Brasil no próximo 28 de Outubro», declaram os subscritores.

«As posições que o candidato tem sustentado ao longo de sua vida pública e nesta campanha eleitoral são calcadas em valores xenófobos, racistas, misóginos e homofóbicos. O candidato de extrema-direita defende abertamente os métodos violentos utilizados pelas ditaduras militares, inclusive torturas e assassinatos. Tais posições atentam contra uma sociedade livre, tolerante e socialmente justa», denunciam.

Alertam que «a decisão que o povo brasileiro tomará no segundo turno das eleições presidenciais constituirá uma escolha de transcendental importância entre a liberdade e o pluralismo e o obscurantismo autoritário, com impactos duradouros não só para o Brasil mas para toda a América Latina e Caribe e o mundo».

E apelam: «Conclamamos as brasileiras e brasileiros a reflectirem sobre a gravidade deste momento histórico. Entre a democracia e o fascismo não pode haver neutralidade!».

Entre os portuguesas que assinaram o manifesto figuram sindicalistas, jornalistas, escritores, historiadores, professores universitários, estudantes, editores, actores, músicos, designers, deputados na Assembleia da República e Parlamento Europeu e activistas associativos.

Em todo o mundo, expressaram «o seu mais profundo repúdio ao candidato de extrema-direita», Jair Bolsonaro, personalidades e intelectuais como Adolfo Pérez Esquivel (Prémio Nobel da Paz, Argentina), Bernie Sanders (senador, EUA), Costa Gravas (cineasta grego), Angela Davis (filósofa e activista dos direitos civis nos EUA), Danny Glover (actor, EUA), Noan Chomsky (linguista, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Thomas Piketty (economista, França); ex-presidentes como Pepe Mujica (Uruguai), François Hollande (França), Cristina Kircher (Argentina), Vicente Fox (México), Ernesto Samper (Colômbia), Fernando Lugo (Paraguai) e Dimitrius Christofias (Chipre) e ex-chefes de governo como Massimo D’Alema (Itália) e Dominique de Villepin (França), deputados do PE, parlamentares de diversos países, além de centenas de líderes sindicais, activistas de direitos humanos, etc.

Um outro manifesto de apoio a Haddad e Manuela, «Por uma frente progressista do tamanho do Brasil», ocupou uma página da edição de sábado, 20, da Folha de São Paulo.

Subscreveram o manifesto mais de 22 mil artistas, intelectuais e outras personalidades.

Face ao perigo do autoritarismo, o manifesto destaca que «não cabe a neutralidade ou abstenção diante de uma situação que pede de nós acção imediata». E pede a «todas as lideranças políticas democráticas e da sociedade civil que se empenhem num entendimento mais amplo para enfrentar o risco que a eleição de Bolsonaro significa para o Brasil». A omissão dos democratas neste momento «poderá levar o Brasil a uma escalada autoritária, como se tem observado em outros países», admite.

E finaliza: «É chegada a hora de formar uma frente democrática que renove as esperanças de um Brasil mais generoso, justo, plural e inclusivo. É chegada a hora de passarmos por cima de nossas diferenças internas. Unindo-se por um objetivo maior, os políticos progressistas e os brasileiros demonstrarão que a prática política pode e deve ser uma atividade exercida com grandeza, ao serviço do país e de sua população».

Bolsonaro ameaça

Apoiantes de Jair Bolsonaro levaram a cabo, no domingo, 21, actos públicos em diversas cidades, atacando a campanha de Fernando Haddad.

No Rio de Janeiro, repetiram durante a sessão o slogan da campanha «Brasil acima de tudo, Deus acima de todos» e afirmaram que defendem a família, a segurança pública e a educação «sem doutrinação», informou a Agência Brasil.

O sítio Jornalistas Livres revela que, numa transmissão em directo na manifestação em São Paulo, Bolsonaro pronunciou um dos seus discursos mais violentos.

Aos gritos, disse que pretende fazer uma «faxina» para limpar o Brasil das pessoas que discordam dele: «A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria».

O ex-capitão também aproveitou para afirmar que, se vencer, os movimentos populares seriam criminalizados e citou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e o Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto, como alvos a eliminar.




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