• Gustavo Carneiro

85 anos do 18 de Janeiro de 1934 e a singularidade da Marinha Grande

LEGADO Já muito foi dito e escrito sobre o levantamento operário de 18 de Janeiro de 1934: as suas motivações, os seus méritos, as suas limitações, o seu legado. 85 anos passados sobre esta jornada heroica, permanece o exemplo da Marinha Grande.

«Sem organização podem fazer-se coisas, mas não se podem lançar grandes lutas, dar-lhes continuidade, elevá-las a um nível superior.» A frase de Álvaro Cunhal, incluída na obra Rumo à Vitória, bem podia ter sido escrita acerca dos acontecimentos de 18 de Janeiro de 1934. Ela resume, como poucas, grande parte do que acabou por estar em causa naquela importante jornada de luta contra o fascismo.

A greve geral insurreccional contra a fascização dos sindicatos marcada pelas organizações sindicais da época – Confederação Geral do Trabalho, anarquista; Comissão Inter-sindical, comunista; Federação das Associações Operárias, socialista; e ainda pelos Sindicatos Autónomos – propunha-se defender o sindicalismo livre e derrubar o governo de Salazar. Na maior parte do País, não passou de paralisações parciais, manifestações de rua e acções de sabotagem, facilmente desbaratadas pelas forças da repressão.

Foi na Marinha Grande que a greve assumiu maiores proporções e um carácter marcadamente insurreccional. Dirigido por comunistas como José Gregório ou António Guerra e contando com a adesão massiva dos trabalhadores, o levantamento revolucionário culminou na tomada do poder pelos operários, que proclamaram o soviete da Marinha Grande, que resistiu por algumas horas à violenta reacção do fascismo (ver caixa nestas páginas).

A derrota do movimento revolucionário não se deveu à falta de coragem ou combatividade dos trabalhadores envolvidos. Aliás, o que não faltou na jornada de 18 de Janeiro, na Marinha Grande como em Silves, Coimbra, Barreiro, Setúbal ou Lisboa, foram episódios heroicos levados a cabo por militantes movidos por genuínos sentimentos revolucionários e antifascistas. O problema não estava nos protagonistas, mas na ideologia e métodos anarquistas e putchistasque ainda predominavam no movimento operário português.

Adesadequação da palavra de ordem de «greve geral revolucionária», a falta de uma efectiva preparação para o movimento insurreccional, a inexistência de uma poderosa vanguarda ou a frágil organização sindical contam-se entre os motivos que conduziram ao fracasso do levantamento, sobejamente analisados pelo PCP ao longo dos anos.

Organização, vanguarda, luta

A especificidade da acção do proletariado da Marinha Grande deve-se a factores como a existência de uma considerável concentração industrial e de uma classe operária numerosa e com vasta experiência de luta, que dispunha de uma combativa organização sindical – o Sindicato dos Vidreiros – e de uma vanguarda política coesa: o comité local do Partido.

Em Janeiro de 2004, assinalando os 70 anos do levantamento, o dirigente Joaquim Gomes explicou ao Avante! que o «número de greves e manifestações era espantoso» nos meses que antecederam a greve: «Não sei se houve alguma outra zona do País em que as lutas atingissem o grau que atingiu na Marinha Grande naquela época.»

O agravamento da situação económica do proletariado no início dos anos 30 e as fortes lutas que ali se travaram fizeram-se acompanhar pelo impetuoso reforço da organização local do PCP, com células nas fábricas e uma forte actividade das Juventudes Comunistas, particularmente entre os aprendizes vidreiros. «Na Marinha Grande, a influência comunista era muito superior a qualquer outra, socialista ou anarquista», recordava Joaquim Gomes.

Essa influência permaneceu nas décadas seguintes, apesar da feroz repressão que se abateu sobre a vila vidreira na sequência dos acontecimentos do 18 de Janeiro de 1934: entre os 32 antifascistas assassinados no Campo de Concentração do Tarrafal estão os comunistas marinhenses Augusto Costa e António Guerra. Francisco da Cruz e Manuel Carvalho, participantes no levantamento operário, também foram vítimas da repressão, o primeiro nas prisões de Angra do Heroísmo e o segundo no Hospital de Leiria.

Por tudo isto, e muito mais, disse Álvaro Cunhal em Janeiro de 1975: «Marinha Grande é um nome escrito a ouro na história do movimento operário português. Melhor se pode dizer: escrito com lágrimas e sangue. Porque a luta dos trabalhadores da Marinha Grande ao longo de 50 anos de fascismo foi paga com pesadas perdas, com perseguições, torturas, prisões, com o assassínio e a deportação de muitos dos seus melhores filhos (…). As tradições de luta do proletariado da Marinha Grande são inseparáveis da actividade dos comunistas.»

O levantamento marinhense
na imprensa operária da época

O levantamento do proletariado marinhense de 18 de Janeiro de 1934 é relatado na primeira pessoa em Abril desse mesmo ano, no segundo número da série ilegal do jornal da Comissão Inter-Sindical (CIS), O Proletário. Nele publica-se uma entrevista com um dos «dirigentes do levantamento operário da Marinha Grande e activo elemento do comité local do Partido e do Sindicato Vermelho Vidreiro», protagonista da heroica jornada.

O levantamento ao minuto

Sobre o desenrolar dos acontecimentos, o revolucionário recorda que «pelas 2 horas do dia 18, fizemos a distribuição das nossas forças de choque. (...) Um grupo numeroso seguiu a cortar as comunicações. Ao mesmo tempo, três outros grupos marchavam a ocupar, simultaneamente, os Paços do Concelho, a estação telegráfica e o quartel da GNR. As armas eram apenas o que se tinha podido arranjar; algumas espingardas caçadeiras, duas pistolas e umas cinco bombas».

Os dois primeiros pontos foram ocupados sem resistência, focando-se os combates em torno do posto da Guarda. Nesse momento, «já todos os pontos estratégicos da vila se encontravam nas nossas mãos. Por outro lado, já toda a massa operária da Marinha Grande estava na rua, apoiando os poucos homens armados que possuíamos. O quartel ficou completamente bloqueado e foram dados quinze minutos à força para se render. Recusou. Desencadeou-se o ataque».

Duas horas de tiroteio e deu-se a rendição: «A força foi desarmada e o comandante solicitou-nos que impedíssemos possíveis vinganças. Lembra-se de dezenas das suas vítimas que andavam pelas ruas... Concordámos em que o melhor meio de os salvaguardar contra isso, seria conservá-los prisioneiros, sob a guarda de camaradas de confiança. Por isso os conduzimos para uma fábrica de vidros. Mas repara: apenas os que temiam represálias para ali foram. Dois, por exemplo, não temeram represálias, seguiram para as suas casas e ninguém lhes fez mal.»

A vitória foi consumada às cinco da manhã. Por essa altura, «toda a Marinha Grande estava nas mãos do proletariado e milhares de trabalhadores percorriam a vila vitoriando o nosso Partido».

A violência da repressão

A resposta das forças da repressão, vindas de Leiria e de outros pontos do País, não se fez esperar e todos os meios serviram para tentar quebrar a resistência dos revolucionários: «A pouca distância da Marinha Grande, ouvimos passos de muita gente próximo de nós. A pergunta de “Quem vem lá?” respondeu-nos um arrogante “Forças do Governo!” e uma descarga. Caiu um camarada ferido. Ripostámos e durante alguns minutos se estabeleceu um nutrido tiroteio. Sentíamos que a força atacante se afastava. Avançámos. Tinham abandonado os feridos, na estrada. Mas, entretanto, entrava a artilharia em acção.»

Cercados e mal armados, os revolucionários concluem que prolongar a resistência era «loucura». Do seu lado, poucos mais de vinte possuíam armas de fogo. «O Governo opunha-nos artilharia, cavalaria, infantaria, metralhadoras... e até um avião que já voava sobre a vila, para regular o tiro da artilharia!» O recuo para o pinhal foi o passo seguinte. «Decidimos dividir-nos em pequenos grupos de quatro a cinco, e abandonar a luta procurando iludir o cerco. Ainda isto se fez de um modo organizado. Os camaradas que têm dinheiro dividem-no pelos que o não têm. Há gestos admiráveis de camaradagem. Um camarada que possuía 600 escudos fica apenas com setenta, dividindo o resto pelos camaradas! Abraços... comoção e separámo-nos...»

Diferenças e explicações

Para o sindicalista comunista entrevistado pelo jornal O Proletário, a diferença de atitude dos revoltosos face às forças da repressão é a «coroa de glória» do movimento insurreccional. «Há, sim, actos repugnantes, mas praticados pelas forças da “ordem”. As prisões, os espancamentos, as torturas, as prisões de mulheres e crianças para denunciarem os maridos e os pais; tudo isso não manifestações da “ordem” burguesa que se suguem à ocupação da vila. Antes, foi a população na rua em regozijo. Alegria dos rostos… e nem uma só vingança.»

Referindo-se às razões pelas quais o movimento assumira na Marinha Grande uma considerável dimensão e um marcado carácter insurreccional, adianta: «o proletariado da Marinha Grande, mercê das formidáveis lutas que vinha conduzindo contra o patronato e o Estado ocupava realmente um lugar de vanguarda em relação ao grosso do proletariado português, sob a direcção do Partido e do Sindicato Vermelho Vidreiro». Ambas as estruturas, «dando carácter organizado a esta exploração da indignação das massas, cumpriram o seu dever revolucionário».

Na senda das melhores tradições

O PCP, através do Secretariado da Direcção da Organização Regional de Leiria, emitiu no dia 15 uma «saudação à luta do proletariado vidreiro», na qual realça o papel dos que participaram na jornada heróica de 18 de Janeiro de 1934 e dos que, hoje, «continuam a luta por uma vida melhor». Os comunistas recordam que apesar da feroz repressão que se seguiu àquela jornada, a «influência do Partido na classe operária e no povo, o prosseguimento da acção sindical, o exemplo de firmeza, abnegação e de luta por um Portugal melhor criaram raízes profundas que perduram até hoje».

Também o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira promove comemorações da heróica jornada de 1934, que se iniciam hoje, 17, com um jantar no Parque Municipal de Exposições, às 20h30, seguido de uma salva de morteiros e um espectáculo de fogo-de-artifício. Amanhã, 18, às 10h00, realiza-se a romagem aos cemitérios de Casal Galego e Marinha Grande, onde serão colocadas coroas de flores nas campas dos prisioneiros do movimento operário de 18 de Janeiro de 1934 e, às 11h15, realiza-se a manifestação «Ontem e Hoje pelos Direitos». As comemorações prosseguem pelo fim-de-semana com espectáculos, iniciativas desportivas e actividades para crianças.




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