Washington retira-se do Tratado do Céu Aberto
EUA abandonam mais um tratado internacional e admitem novos testes nucleares

AMEAÇA Os EUA anunciam que se retiram do Tratado de Céu Aberto, em vigor desde 2002, e admitem realizar nova experiência nuclear, o que, a acontecer, seria a primeira em 28 anos.

Washington anunciou no dia 22 a retirada dos Estados Unidos do Tratado de Céu Aberto, decisão já esperada mas que mereceu críticas à administração Trump no próprio país, e também da Rússia, da China e mesmo de aliados europeus.

O Tratado de Céu Aberto, assinado em 1992, em Helsínquia, e em vigor desde 2002, subscrito por 34 países, permite a observadores militares realizar voos desarmados de vigilância aérea para obter imagens de movimentos de tropas e navios de guerra, num vasto território, desde a cidade canadiana de Vancouver até ao porto russo de Vladivostok, no Extremo Oriente.

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, justifica a decisão de Washington, que entrará em vigor dentro de seis meses, como sendo em resposta a um alegado incumprimento do tratado por parte da Rússia, alegação que é veementemente negada por esta. Afirma que os EUA poderão reconsiderar a retirada do convénio «no caso de a Rússia regressar ao pleno cumprimento do tratado».

Esta foi a terceira vez que a administração Trump renuncia a um importante pacto de controlo de armas: em 2018 os EUA retiraram-se do acordo nuclear alcançado entre o Irão e seis potências mundiais; e em 2019 fez o mesmo com o Tratado de Forças Nucleares de alcance intermédio.

«Ao mesmo tempo que não protege os norte-americanos da COVID-19, o presidente Trump insiste em destroçar outro pacto. A decisão de retirar-se do Tratado de Céu Aberto sem substituí-lo faz com que os EUA estejam menos seguros», afirmou a senadora democrata Elizabeth Warren.

Em Moscovo, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, denunciou que os EUA põem em causa a estabilidade estratégica mundial, ao destruir metodicamente os mecanismos de acordos e limites na esfera do desarmamento.

Em Pequim, a China qualificou a decisão dos EUA de contra producente, pois afectará a confiança e transparência militar na comunidade internacional.

10 países membros da União Europeia, incluindo a Alemanha e a França, divulgaram um comunicado «lamentando o anúncio do governo dos EUA da sua intenção de se retirar do Tratado do Céu Aberto».

EUA admite
novos testes nucleares

A administração do presidente Donald Trump discutiu numa recente reunião com altos funcionários a possibilidade de realizar uma experiência nuclear, o que, a acontecer, seria o primeiro teste deste tipo em 28 anos.

Vários meios jornalísticos fizeram eco de uma notícia do Washington Post, que sublinhou que a medida «teria consequências de grande alcance para as relações com outras potências nucleares e reverteria uma moratória de décadas sobre tais acções».

O assunto foi tratado numa reunião no dia 15 deste mês entre importantes responsáveis das principais agências de segurança nacional, indicou o jornal. Segundo o Post, o tema foi discutido depois de acusações, por membros do governo norte-americano, de que a Rússia e a China estavam a levar a cabo experiências nucleares de baixo rendimento, «uma afirmação que não foi corroborada por prova disponível publicamente e que ambos os países negaram».

A reunião não concluiu pela realização do teste nuclear, mas o jornal diz que a proposta continua a ser debatida.

Os EUA não realizam uma explosão nuclear experimental desde Setembro de 1992 e os defensores da não-proliferação nuclear advertem que fazê-lo agora poderia ter consequências desestabilizadoras. Seria um convite para que outros países detentores de armas nucleares seguissem o exemplo e ponto de partida para uma corrida aos armamentos nucleares sem precedentes – considerou a propósito o director executivo da Associação de Controlo de Armas norte-americana.

Os EUA são o único país a ter utilizado a arma nuclear numa guerra e desde 1945 pelo menos oito países realizaram, ao todo, cerca de duas mil experiências nucleares, mais de um milhar pelos Estados Unidos.

As preocupações sobre os perigos dessas acções levaram 184 países a assinar o Tratado de Proibição Completa de Ensaios Nucleares, que não foi ratificado pelos EUA.

A proposta de orçamento militar para 2021 da administração Trump inclui quase 46 mil milhões de dólares em gastos adicionais em programas de armas nucleares.



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