«Disparos»

A novidade dominava a primeira página do Jornal de Notícias: «Desemprego de longa duração dispara 25%». Em subtítulo acrescentava-se dois pormenores terríveis: «Pessoas que perderam o trabalho há mais de um ano já são 226 mil» e «Inscritos nos centros de emprego continuam a aumentar face a 2009».

Ao lado deste «disparo» pontificava outra chamada de primeira página, agora antetitulada por «Pobreza» e que rezava assim: «Balneários públicos têm cada vez mais procura» e «em Alcântara há quem vá tomar banho e peça roupa para entrevista de trabalho». Para quem não saiba, Alcântara fica em Lisboa e esta notícia refere-se à capital do País.

São realmente disparos demolidores sobre a inacreditável vanglória exibida há dias – ou seja, na véspera destas notícias sombrias – pelo secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional, Valter Lemos, gabando-se da descida de umas décimas quaisquer nas comparações homólogas dos números do desemprego, tendo ainda o descaramento de ver nisso «sinais» de que «o desemprego ia começar a descer»...

Ainda por cima, o homem é directamente responsável pelo Trabalho e pelo Emprego, na sinecura que ocupa como secretário de Estado. Mas, no fundo, estas patacoadas do secretário Lemos não surpreendem ninguém: o País fartou-se de lhas ouvir quando, sempre como secretário de Estado, quando foi o «grilo falante» dos dislates da ministra da Educação, Lurdes Rodrigues.

 

Meio milhão

 

Meio milhão de hectares, foi a área de produção agrícola que Portugal perdeu nos últimos dez anos. Para se ter uma ideia da magnitude deste número, basta dizer que equivale a 20 albufeiras do Alqueva. Os dados são do INE e reportam-se a 2009, são portanto recentes. Como recentes são os números sobre o aumento da nossa dependência externa em matéria de produtos agrícolas, que já se situa na ordem dos 70% do que consumimos – exactamente o oposto do que ocorria há 30 anos, quando estes valores eram ao contrário, ou seja produzíamos 70% do que comíamos e importávamos apenas 30%.

Perante isto, a perda de meio milhão de hectares de terrenos agrícolas, em 10 anos, é inapelavelmente catastrófico.

 

Favorecimentos

 

Um trabalho de investigação coordenado pelo sociólogo Boaventura Sousa Santos concluiu que, no nosso País, a legislação referente à regulação dos conflitos decorrentes dos acidentes de trabalho favorece claramente as Seguradoras, em detrimento flagrante dos trabalhadores acidentados. No emaranhado de cumplicidades, entretanto tecidas entre as Seguradoras e a cascata de serviços necessários para a realização de perícias e inquéritos indispensáveis aos julgamentos destes casos, avulta a inconcebível – e cada vez mais vulgar – situação de o mesmo médico desempenhar um duplo papel, o de clínico pessoal do acidentado e o de decisor na Junta Médica convocada pelas Seguradoras para determinar o grau de invalidez em presença.

É mais uma evidência do trabalho dos governos e maiorias PS e PSD «em prol do povo e dos trabalhadores»...



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