Fiat impõe «acordo» leonino
Pressão e chantagem

Os trabalhadores da fábrica de Mirafiori da Fiat, em Turim, aprovaram sob fortes pressões e ameaças um acordo que extingue o contrato colectivo vigente e viola a legislação laboral italiana.

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Sob uma capa de democracia, a administração da empresa colocou, dia 14, o dito «acordo» à votação dos trabalhadores do centro de Mirafiori, depois de, em 23 de Dezembro, ter obtido a assinatura das diversas estruturas sindicais, com excepção da Federação dos Metalúrgicos (FIOM), filiada na CGIL, que lutou até ao fim pela vitória do Não.

Contudo, a liberdade de escolha tinha sido previamente condicionada por um conjunto de pressões e chantagens, nas quais o governo italiano de Silvio Berlusconi tomou parte activa.

O grupo, liderado pelo italo-canadiano, Sergio Marchionne, apresentou as coisas de forma unilateral: é pegar ou largar. Se as suas condições fossem aceites comprometia-se a investir mil milhões de euros e construir modelos das marcas Jeep e Alfa Romeo. Caso os trabalhadores recusassem perder direitos, arriscavam-se a perder igualmente os seus empregos, já que a fábrica seria deslocalizada para a Sérvia.

O primeiro-ministro italiano, tomando o lado de Marchionne, legitimou a chantagem, afirmando em vésperas do referendo que se os trabalhadores recusarem o acordo «a Fiat teria boas razões para deixar Itália e ir produzir noutros países».

Enfiados num colete-de-forças, parecia que aos trabalhadores de Mirafiori não restava outra alternativa senão aceitarem as novas regras qualificadas pela FIOM de «esclavagistas» e contrárias ao código do trabalho italiano.

E de facto o Sim venceu, mas os 54 por cento dos votos favoráveis estão longe de expressar o apoio massivo que o autoritário patrão esperava conseguir. Entre os 5139 votantes (94,6%), o Sim ganhou por apenas 400 votos, resultado em grande parte proporcionado pelas chefias e administrativos, uma vez que entre o pessoal operário o acordo passou por uns escassos nove votos (El País, 15.01), sendo chumbado em todas as linhas de montagem e secções de chaparia.

 

Exploração insana

 

A oposição dos operários não é meramente uma questão de orgulho. O endurecimento das condições de trabalho recairá essencialmente sobre eles, na linha de produção. Aqui os turnos passam a ter uma duração de oito horas, com apenas três pausas de dez minutos. Isto significa que só no final do trabalho haverá tempo para uma refeição.

Acresce que todos ficam obrigados a prestar 120 horas extraordinárias anuais e a fábrica passa a poder funcionar 24 horas por dia e seis dias por semana em caso de necessidade.

O «acordo» estipula a proibição das greves contra as condições sufragadas, abole as dispensas para actividade sindical, limita as baixas pagas por doença a casos extremos (hemodiálise, hepatites ou problemas circulatórios, etc.), que exigem internamento hospitalar, e exclui da empresa os sindicatos que não subscreveram as novas regras.

Susanna Camusso, secretária-geral da CGIL, já declarou que a FIOM não se conformará com a proibição e «voltará à fábrica».

Camusso apelou à reabertura das negociações, considerando que o resultado do referendo demonstra que as fábricas não são quartéis: «Não se poder gerir Mirafiori sem consenso». Uma greve geral foi convocada pela CGIL para dia 28.



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