• Correia da Fonseca

O empresário e a fome

Como se saberá, está em curso na RTP1 uma série de entrevistas, uma por dia excepto ao domingo, com figuras públicas que efectiva ou supostamente «influenciam a vida do País», como nos diz a própria RTP. São antigos presidentes da República, pelo menos um banqueiro e antigo líder partidário, empresário ou empresários dominantes, figuras assim. A nota de carácter religioso foi confiada à entrevista a D. José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa. A prova do pluralismo informativo da iniciativa será dada pela entrevista a Carvalho da Silva, prevista para a chamada Quinta-Feira Santa ou de Trevas. Do que já se viu e ouviu, nada foi especialmente revelador e excitante, mas uma ou outra teve passagens muito significativas. De qualquer modo, é certo que me senti muito tocado pela entrevista do senhor Alexandre Soares dos Santos, homem-forte do Jerónimo Martins, grupo que detém em Portugal os supermercados Pingo Doce e Minipreço e lugares semelhantes além-fronteiras, designadamente na Polónia, país apetitoso para investimentos na área da distribuição por ser lugar de salários baixos e alta apetência por consumos de primeiro grau, digamos assim. Além disto, que já não é pouco, acresce que o senhor Soares dos Santos é um dos três portugueses detentores das mais vultosas fortunas, de tal modo que têm lugar no ranking internacional dos mais ricos do mundo, sendo os outros dois os senhores Américo Amorim e Belmiro de Azevedo. Fica assim claro que Soares dos Santos integrou esta série de entrevistas por direito próprio, o que nem sequer se discute. E foi também por direito próprio, decerto, que disse à entrevistadora Fátima Campos Ferreira coisas que não só caracterizam o seu perfil de cidadão super-abastado como também dificilmente serão esquecidas.

 

Uma dúvida importante

 

Entre todas elas, que não foram muito poucas, é inevitável destacar o que o empresário nos revelou acerca dos seus empregados que passam fome. Ao ouvir aquilo, é claro que estranhei: custava-me a entender como era possível que empregados ou empregadas do senhor Soares dos Santos fossem remunerados com salários que de algum modo se pudessem englobar na consagrada e tristemente antiga expressão «salários de fome» que teve tão adequada voga nos longos anos do salazarismo agora de saudosa memória. Mas decerto percebendo o risco do equívoco, Soares dos Santos logo teve o cuidado de esclarecer que se referia a empregados cujos cônjuges terão sido despedidos de empresas outras onde trabalhavam, pelo que a remuneração do agregado familiar terá ficado reduzida. Era, como bem se percebeu, a inocentação do grupo Jerónimo Martins perante a eventual suspeita de pagar pessimamente, ou de não pagar todas as horas de trabalho prestadas (com exclusão, por exemplo, de todo ou parte do trabalho dito extraordinário), ou de abusos e malfeitorias equivalentes ou afins. Suponho que perante o esclarecimento ficaram aliviados todos os que ouviam Soares dos Santos com inclusão da entrevistadora. Porém, como sucede a muitos alívios semelhantes ou equiparáveis, também este não durou muito tempo. É que logo de seguida pode surgir uma dúvida, uma inquietação, e desta vez tratou-se de uma pergunta que à jornalista decerto não ocorreu, o que bem se compreende porque a senhora não pode pensar em tudo, mas que terá surgido a muitos telespectadores: então os salários pagos pela empresa do senhor Soares dos Santos aos seus empregados não serão suficientes para que, mesmo em rendimentos familiares cruelmente reduzidos pelo despedimento do outro cônjuge, o flagelo da fome (e o modo como o empresário se lhe referiu não deixou margem para que se duvidasse de que se trata de fome propriamente dita, não apenas de uma redução alimentar) não tenha entrada naquele lar? É certo que complementarmente, diga-se assim, Soares dos Santos informou que esses casos, quando detectados, são objecto de inquérito, de estudo, a que se seguirá uma generosa providência de carácter caritativo. É bonito que seja assim, já se vê. Não é indiscutível, porém, que esse peculiar modelo de concertação social seja o adequado a um país europeu, civilizado, já na segunda década do século XXI. Também não ocorreu a Fátima Campos Ferreira abordar este aspecto da questão. É de crer, contudo, que tenha ocorrido a milhares de telespectadores, sobretudo se trabalhadores e mais ainda se o forem em empresas de Alexandre Soares dos Santos. E a omissão da jornalista ficou a pairar como uma sombra sobre o resto da entrevista.



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