O golo fora

Manuel Gouveia

Foi o Presidente do Sindicato quem o disse, referindo-se ao acordo entre o Sindicato dos Estivadores e o patronato do Porto de Lisboa: um empate, com sabor a vitória pelo golo marcado fora.

Depois de meses de luta, o acordo assinado trava os principais objectivos de patronato: implica a assinatura de um novo contrato colectivo (que os patrões fizeram caducar em Novembro de 2015); implica a integração nos quadros da empresa dos trabalhadores precários que o patronato deixou de contratar em Novembro de 2015; aponta para o fim da PORLIS, da empresa de trabalho portuário criada pelos patrões para colocar na insolvência a actual empresa de trabalho portuário (ETP-L), com a integração dos seus trabalhadores na ETP-L; mantém o essencial dos direitos dos trabalhadores.

Percebo a cautela e o alerta. Primeiro, porque é preciso que os patrões cumpram o acordo, e estes já deram bastas amostras da sua pouca seriedade. Depois, porque é verdade que o essencial da ofensiva patronal é derrotada, mas os patrões não deixam de conseguir alguns dos seus objectivos, e cada um deles é um injusto agravamento da exploração. E por fim, porque o acordo apenas incide no Porto de Lisboa, o que implica que os restantes estivadores continuam sujeitos a níveis crescentes de exploração e a lei do Trabalho Portuário de 2013 continua a ameaçar toda a classe.

Mas foi um acordo necessário e positivo, para a luta que continua. Repito: percebo a ideia do dirigente, até concordo com o que ele quer dizer, mas não foi por acaso que os trabalhadores sentiram este empate como uma vitória. E das grandes. E também foi. Porque escolher o caminho da luta em vez do da conciliação e da cumplicidade com a exploração é já vencer. Porque neste processo, os trabalhadores derrotaram ofensivas planeadas durante anos, como quando impuseram a extinção do sindicato criado para os dividir ou da empresa criada para os despedir. Porque resistiram a todas as campanhas difamatórias, sem se desorganizar e sem se intimidarem.

E afinal, na sociedade capitalista, não são os golos marcados pelos trabalhadores sempre golos marcados fora? E não está sempre a vitória na luta que continua?




Mais artigos de: Opinião

35 horas: luta, vitória, experiência

As 35 horas de trabalho na função pública vão ser repostas. É uma vitória dos trabalhadores e uma derrota da operação do grande capital, assumida pelo governo PSD/CDS-PP que, ao aumentar o horário de trabalho semanal de 35 para 40 horas na função pública, teve como objectivo iniciar um processo de aumento da jornada de trabalho para todos os trabalhadores e inverter a marcha da história de redução progressiva do horário de trabalho fruto da luta do movimento operário no último século e meio.

Dois casos sintomáticos

No debate quinzenal na AR, na passada sexta-feira, Jerónimo de Sousa questionou o primeiro-ministro sobre diversas matérias, das quais se regista aqui dois exemplos. Sobre a necessidade de revogar a caducidade do Contrato Colectivo de Trabalho (CCT) do sector têxtil (negociado em 2012) e, ao...

O sr. Praet acha coisas

Peter Praet é membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu. Antes disso, passou pelo FMI e pelo banco central belga. Um currículo que fala por ele e que nos deixa logo preparados para o pior. Para a grande maioria do povo português – e dos povos do resto da zona euro com grande margem...

Obama em Hiroshima

O primeiro presidente dos EUA a visitar Hiroshima depois do seu bombardeamento atómico em 6 de Agosto de 1945 recusou pedir desculpa ao povo japonês, recusa que foi cinicamente sublinhada numa vasta operação mediática em que Obama é apresentado como campeão da luta por um...

Mas têm

Armou-se um aranzel com a greve portuária de Lisboa, em crescendo de há três semanas para cá. Houve «directos» televisivos em barda, foram na televisão ouvidos uma infinidade de peritos, cuja selecção cuidadosa conduziu à «conclusão...