• Manuel Pires da Rocha

O reportório da música de intenção revolucionária é muito vasto
As canções das nossas lutas

No largo do Pelourinho de uma aldeia transmontana, por ocasião da Festa dos Rapazes, um jovem tocava a Carvalhesa na sua gaita de foles. Aquela mesma Carvalhesa que se entoa e dança nos terreiros da Festa do Avante!. Acerquei-me dele e perguntei-lhe de que velho gaiteiro tinha aprendido o toque. Respondeu-me que nunca a tinha ouvido a nenhum gaiteiro dali, já que os pais tinham emigrado, jovens ainda, para Lisboa, e ele já por lá tinha nascido. Regressava à terra dos pais por alturas das Festas, e ali se afeiçoou à função de gaiteiro, que ouvia nas alvoradas. Mas aquela Carvalhesa tinha-a aprendido nas ruas de Lisboa, de ouvi-la «nas aparelhagens de som dos carros da política».

Desiludido ficaria qualquer estudioso do assunto etnográfico com o episódio que aqui se relata. Mas mal. Porque o encanto do relato está em que a «transmissão» nunca deixa de ser produto da História e, por isso, o mecanismo de passagem de testemunho não tem de ser o de uma geração para a geração seguinte. Aquela Carvalhesa – que foi registada em pauta musical por Kurt Schindler e adaptada por Fausto B. Dias – há-de ter morrido junto do gaiteiro que, por último, a terá tocado. E ressuscitou décadas depois, no mesmo lugar, mas nas mãos de um jovem gaiteiro de Lisboa que se deixou tocar pela propaganda sonora do Partido Comunista Português.

A música (a Arte) é argumento político poderoso na vida toda do PCP, nunca usada como adereço de um espectáculo daqueles em que a forma se sobrepõe ao conteúdo. Também nas acções de campanha eleitoral, desde o tal carro de som até ao comício, a música não ocupa um lugar diferente da intervenção falada – quer em presença, quer em significado –, nunca se resumindo a uma operação de «encher o olho» (como naqueles casos em que acontece a ilustração sonora de recorte hollywoodesco que acompanha os «líderes» entre o mundo dos comuns e o olimpo da «classe política»). Quando se escreve nos cartazes das acções de campanha da CDU, ou nos eventos do PCP, a expressão «intervenção musical» é isso mesmo que se quer dizer: mexer no mundo com a música também.

O reportório da música de intenção revolucionária é, em Portugal (e no mundo), muito vasto e abarca várias formas de ser música, seja moda de protesto da praça de jorna, na canção de voz e guitarra ou na obra da chamada «música erudita». O Cante Alentejano ou o Fado eram, muito antes de serem património classificado pela UNESCO, património experimentado nos lugares de querer uma sociedade sem classes.

Terá sido ainda no tempo do fascismo que a «tradição» da música nos lugares da luta se afirmou. O 25 de Abril herdou centenas de canções mil vezes apresentadas nas colectividades de recreio e que, de repente, saíram para o espaço aberto sob a forma de sessões de «Canto Livre». Foi o tempo de substituir o espaço sonoro do nacional-cançonetismo plantando outra forma de ser música no meio das nossas vidas. Outros tempos musicais viriam a seguir, sem que a música deixasse de ser traço da luta de classes, aqui mais atenta, ali mais distraída; aqui mais interventiva ali mais conformada; aqui mais criativa, ali mais clichê. Mas nunca deixou de ser precisa, e cantada, aquela que diz «não há machado que corte / a raiz ao pensamento» ou «eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida».

Na campanha de 2019, duas canções mais se acrescentaram ao reportório de chamar às lutas: uma, que diz «somos a vontade de vencer / liberdade é a luz deste farol», que a escreveram João Monge e Paulo de Carvalho – uma mais de muitas outras que o compositor ofereceu às nossas vozes; outra, dizendo «prá frente, minha gente, já cansa como isto está / avançar é preciso, para trás já não dá», que a fez Vasco Nogueira, candidato da CDU pelo círculo de Coimbra, a partir de uma melodia tradicional. Duas mais, cantadas mil vezes nos carros de som que deitam canções como se fossem sementes. Há sempre quem as vá colher.




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