Mais do que cúmplices

Gustavo Carneiro

«Os empreendimentos coloniais e os genocídios associados foram historicamente impulsionados e possibilitados pelo sector empresarial. Os interesses comerciais contribuíram para a desapropriação dos povos e terras indígenas (…). O mesmo se aplica à colonização israelita das terras palestinianas, à sua expansão para o território palestiniano ocupado e à institucionalização de um regime de apartheid colonial. Depois de negar a autodeterminação palestiniana durante décadas, Israel está agora a pôr em perigo a própria existência do povo palestiniano na Palestina.»

Estas são palavras iniciais do relatório Da economia de ocupação à economia de genocídio, da autoria da relatora especial das Nações Unidas para os direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados, a jurista italiana Francesca Albanese, a quem a administração norte-americana impôs sanções e tenta intimidar – como a própria denuncia – com métodos a lembrar os da máfia.

Em cerca de 40 páginas, revela-se a densa teia que liga décadas de ocupação, segregação, colonização e massacres cometidos por Israel contra o povo palestiniano a múltiplas empresas e entidades, de proveniências e sectores diversos: do armamento à construção, da tecnologia aos fundos de pensões, dos bancos às universidades, é longa a lista dos que fornecem, sustentam, legitimam e lucram com estes crimes, hoje cometidos à vista de todos.

Quanto ao sector militar, ali chamado de «negócio da eliminação», sublinha-se que o complexo militar-industrial é a «espinha dorsal» do Estado de Israel, hoje o oitavo maior exportador de armamento do mundo, e revela-se as parcerias com outras empresas, milhares delas, com destaque para a norte-americana Lockeed Martin, líder mundial do sector. Se durante anos a indústria armamentista e as tecnologias militares foram utilizadas para impulsionar a expulsão massiva de palestinianos das suas terras, denuncia-se, hoje são instrumentos de «matança e destruição generalizadas».

Gigantes da tecnologia são referidos por auxiliarem Israel na vigilância generalizada dos palestinianos, na recolha e armazenamento dos seus dados biométricos, no recurso à Inteligência Artificial para selecção de alvos. O relatório identifica ainda a maquinaria pesada utilizada para demolir casas e infra-estruturas palestinianas e, desde 2023, para «obliterar a paisagem urbana da Faixa de Gaza, impedindo as populações deslocadas de regressarem e se reconstruirem enquanto comunidades». E faz o mesmo com as empresas de construção envolvidas na disseminação dos colonatos ilegais e com diversas outras, dos mais variados ramos.

Conclui: «Quando a vida em Gaza está a ser destruída e a Cisjordânia está sob ataque crescente, este relatório mostra por que razão o genocídio de Israel continua: porque é lucrativo para muitos.»

 



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