Metade das crianças

Margarida Botelho

No meio das sucessivas vagas de indignações e comoções, umas mais justas que outras, em que se transformou o espaço mediático em Portugal, fica muitas vezes esquecido o essencial. A indignação, desta vez justíssima, com a leitura de nomes de crianças por parte do Chega, pretendendo mostrar que as turmas de pré-escolar estão cheias de miúdos com nomes aparentemente estrangeiros, foi um desses casos. Sim, o que fizeram foi inadmissível. Mesmo que dias mais tarde tenham surgido dúvidas se a lista era verdadeira, continua a ser inadmissível, porque a intenção era a mesma: culpar e expor as crianças que têm vaga, acusando-as de serem menos merecedoras de andar na escola do que outras.

A patente desta pulhice não é do Chega. Quem não se lembra da decisão da Assembleia Regional dos Açores de excluir os filhos dos desempregados das creches? As concepções reaccionárias, obscurantistas, discriminatórias não moram só para aqueles lados.

Na maior parte dos comentários a este caso faltou dizer o essencial: no nosso país só há vagas em creche para METADE das crianças dos 0 aos 3 anos, mesmo somando todas as creches, incluindo as privadas caríssimas que não aderiram ao programa de gratuitidade. No pré-escolar, dos 3 aos 6 anos, só há rede pública para METADE das crianças.

Este não é um problema novo, a natalidade em Portugal não está a subir e até tem havido um ligeiro crescimento do número de vagas disponíveis. Mas é um problema estrutural do País, que contribui para o défice demográfico que atravessamos, que impede o respeito pelo direito de todas as crianças a uma educação pública, gratuita e de qualidade e que causa muitos problemas às famílias.

O que devíamos estar a discutir era isto: como é que o país cria uma rede pública de creches, universal, gratuita, de alta qualidade? Como se garante o mesmo no pré-escolar? Quem nos quer divididos, a esmiuçar diferenças entre crianças, são mais ou menos os mesmos que querem que o País gaste os recursos que tem em armas e guerras em vez de fazer este investimento. Este sim, de futuro.

 



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