Outros outubros
A 7 de Outubro de 1948, centenas de milhares de palestinianos amontoavam-se em campos de refugiados improvisados – na Cisjordânia, no que seria mais tarde a Faixa de Gaza, em países vizinhos –, buscando abrigo e segurança. Escapavam dos ataques das milícias sionistas, embriões do futuro exército israelita, que nos meses anteriores arrasaram mais de 400 aldeias (muitas simplesmente desapareceram do mapa) e massacraram as suas populações: o que para uns foi a “Nakba”, a Catástrofe palestiniana, para outros foi a fria concretização do “Plano Dalet”, visando expulsar da Palestina as suas populações autóctones. Entretanto, o que seria provisório passou a permanente: há, hoje, mais de seis milhões de refugiados palestinianos a quem as Nações Unidas reconhecem o direito (nunca concretizado) a regressar.
Em 1967, nesse mês de Outubro, mais de um milhão de palestinianos da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza viviam desde Junho sob ocupação israelita, encontrando-se sujeitos a um brutal regime militar, com o qual – e a definição é do historiador israelita Ilan Pappé – se encontravam privados «de todos os direitos humanos ou cívicos básicos»: a destruição de casas, a expulsão e a prisão sem julgamento eram medidas punitivas a que as forças de ocupação recorriam com frequência.
Duas décadas mais tarde, em Outubro de 1987, os palestinianos dos territórios ocupados viviam uma rotina «quase intolerável» (a expressão é do mesmo autor), mas pouco faltaria para que a procurassem sacudir com a Intifada, pedras contra canhões. Só no primeiro ano do levantamento, 400 pessoas foram mortas e dezenas de milhares ficaram feridas, a maioria mulheres e crianças – alvejadas por munições reais e balas de borracha ou alvo de espancamentos sistemáticos por parte dos soldados.
Não muitos outubros passaram e já a esperança aberta pelos Acordos de Oslo redundara em desalento: a autonomia prometida aos palestinianos esbarrava na proliferação de colonatos e checkpoints, nas incursões militares e limitações à mobilidade, no desemprego e no roubo de terras e recursos, na humilhação de sempre. Em Outubro de 2000, a segunda Intifada mostrava ao mundo a dimensão da revolta palestiniana e a brutalidade do ocupante.
Na madrugada de 7 de Outubro de 2023, mais de 5000 palestinianos estavam presos em Israel (são hoje mais do dobro), pequena parte dos mais de um milhão que desde 1948 passaram pelas prisões israelitas; 247 tinham já sido mortos, nesse ano, por militares e colonos, mais do que em todo o ano anterior; a Faixa de Gaza permanecia, desde há praticamente duas décadas, transformada numa enorme prisão a céu aberto, bloqueada e frequentemente bombardeada.
Não, nada começou em Outubro de 2023…




