Esconder à medida do dono
Há muito que se discute o lugar dos jornais na sua função mais primária, a de dar notícias, quando existe acesso virtualmente universal aos noticiários televisivos, que na véspera já esgotaram as notícias que o papel traria. O jornal em papel tem, no entanto, uma função diferenciadora que as televisões não conseguem cumprir, na voracidade do imediatismo que a domina: oferecer uma leitura organizada e reflectida do dia que passou e procurar marcar agenda.
Se assim é, como avaliar as edições dos três diários generalistas que ainda saem ao fim-de-semana do passado sábado, dia seguinte à manifestação da CGTP-IN? Foi o acontecimento que indiscutivelmente marcou o dia, até os principais noticiários televisivos que tantas vezes remetem as lutas dos trabalhadores para a segunda parte lançaram peças sobre a manifestação nos primeiros dez minutos. Nas primeiras páginas do Público e do Jornal de Notícias não houve sequer referência, ao contrário do Correio da Manhã, que ilustrou o título “Portugueses chumbam novo pacote laboral” com uma fotografia da manifestação. No interior, o Público destacou-se no que diz respeito ao silenciamento da acção de luta, prática que, aliás, tem sido habitual naquele jornal: ficou por uma coluna, sem imagem, no lugar que é reservado às notícias de fecho (para contexto, a manifestação terminou por volta das 17h00). Jornal de Notícias e Correio da Manhã acompanharam as peças de meia página sobre a manifestação com fotografias, ainda que, nem nestas nem nos textos, fosse possível perceber a estrondosa dimensão daquela poderosa demonstração de rejeição do pacote laboral.
Não sendo credível a possibilidade de que aos responsáveis pelas primeiras páginas dos jornais de sábado tenha passado despercebida a dimensão e importância da manifestação da CGTP-IN, a opção editorial de a esconder revela acima de tudo uma orientação a que não será alheio o facto de todos estes órgãos de comunicação social terem na lista de accionistas detentores de grupos económicos que, através dos seus representantes associativos, do seu Governo e dos seus partidos, serem protagonistas da declaração de guerra aos trabalhadores que o seu pacote laboral representa.
E não são as diferenças pontuais de tratamento noticioso por parte deste ou daquele órgão que altera a realidade sistémica: quem paga e suporta prejuízos para ter nas mãos os órgãos da comunicação dominante fá-lo para dominar um dos instrumentos centrais na luta ideológica – ou, posto de forma mais próxima da terminologia dominante, construir narrativas e influenciar a “opinião pública” de acordo com os seus interesses.




