Abril concreto

Gustavo Carneiro

Todos os anos é a mesma coisa. Em dia de comemoração da Revolução de Abril, é pouco o que se diz acerca do que ela nos trouxe e para onde apontou o País. E muito menos sobre aquilo que se exigiu nas diferentes acções: os cartazes, as faixas, as palavras de ordem, reveladoras de preocupações e anseios concretos, de lutas em curso que continuarão…

Há sempre um “caso”, um “escândalo”, uma encenação a procurar desviar-nos a atenção. Este ano, foi o deputado do PS de costas voltadas para o Presidente da Assembleia da República, os cravos verdes e pretos do Chega, as celebrações “sem carga ideológica” em Lisboa, o “25 de Abril é de todos” com que há quem procure defender que nas comemorações populares devam participar aqueles que todos os dias se esforçam para destruir o que em Abril se conquistou. E há ainda os que, com falinhas mansas e fabricada emoção, renovam juras de amor a um Abril que nunca existiu – seja ele “liberal” ou “europeísta”.

Se Abril é de todos? Sim, é de todo o povo. Não é seguramente dos que nesse dia foram derrotados, dos donos-disto-tudo que dominavam Portugal protegidos pelo aparelho de repressão fascista, hoje de novo colocados na condução dos destinos do País por sucessivos governos da contra-revolução e da política de direita. Abril sem ideologia? Não é possível, pois ideologia tem a ver com opções e em Abril o povo fez as suas: fim da ditadura, da repressão, da guerra colonial e do atraso; liberdade, democracia, direitos e independência para os povos das ex-colónias; abrir caminho a uma sociedade socialista, «tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno» – como consagra, no seu Preâmbulo, a Constituição da República Portuguesa.

Abril não é uma palavra oca, tem tantos significados quantos os direitos conquistados, as liberdades alcançadas, as perspectivas de desenvolvimento abertas. Mas uma coisa é certa: por mais visões e interpretações (eventualmente legítimas) que possam existir acerca deste acontecimento maior da História nacional, certo é que Abril não admite recuos nos direitos laborais e sociais como os previstos no pacote laboral; não tolera o desmantelamento do SNS e da Escola Pública; não convive com as desigualdades e a especulação à custa de tanta gente a passar mal; não permite discriminações de nenhum tipo; não implica fechar as portas do futuro a milhares de jovens; não rima com um País submisso e subalterno.

Abril é a vida concreta de cada um. É “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”, de que fala o cantor. É a coragem de enfrentar quem pretende tocar nos direitos do povo e da juventude – como se lia no pano gigante que a JCP empunhou no desfile de Lisboa. É a defesa da Constituição e a exigência do seu cumprimento.

Abril é tudo isto e muito mais. E continua amanhã, no 1.º de Maio.



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