Marcha no Porto exige criação do Museu da Resistência Antifascista

A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) promoveu, no sábado, 9 de Maio, uma marcha por um Museu da Resistência Antifascista no Porto, com concentração junto ao edifício do Heroísmo, antiga sede da PIDE na cidade.

Importância de não esquecer o tempo tenobroso da ditadura

Sob o lema «Pela Liberdade, a Democracia e a Paz», a marcha pretendeu afirmar publicamente a necessidade de instalar no edifício do Heroísmo o Museu da Resistência Antifascista no Porto, preservando a memória dos milhares de homens e mulheres que ali estiveram presos, torturados e perseguidos pela polícia política do regime fascista. Segundo a URAP, mais de 7600 presos políticos passaram por aquele edifício entre 1936 e 1974, tendo dois resistentes sido assassinados nos calabouços da PIDE.

A marcha, que terminou na Rua de Santa Catarina, juntou cerca de 600 participantes de várias gerações. Apesar da chuva forte que caiu durante a manhã, centenas de pessoas desfilaram com palavras de ordem em defesa de Abril, contra o fascismo e pela preservação da memória histórica. Entre os participantes encontravam-se antigos resistentes, dirigentes associativos, estudantes, sindicalistas e activistas democráticos.

Recuperação da memória
Ao longo das últimas décadas, a URAP tem desenvolvido um trabalho contínuo de recuperação da memória histórica daquele local, promovendo visitas guiadas, sessões evocativas, recolha de testemunhos de antigos presos políticos e iniciativas culturais. Em 2015, assinou com o Exército Português um protocolo que permitiu avançar com o projecto museológico «Do Heroísmo à Firmeza», considerado o embrião do futuro museu.

Na intervenção realizada no final da marcha, a dirigente da URAP e ex-presa política Maria José Ribeiro sublinhou que «há 52 anos» muitos resistentes defendem a criação daquele espaço de memória, afirmando que o edifício deve preservar a história «dos milhares que ali foram encerrados por lutarem pelo direito a exprimir o pensamento e a construir um país livre e solidário».

A antiga resistente destacou ainda a proposta do PCP, aprovada pela Assembleia da República em Setembro de 2025, que recomenda ao Governo a calendarização da deslocalização do Museu Militar do Porto e a instalação do Museu da Resistência Antifascista no edifício do Heroísmo, bem como a criação de uma Rede Nacional de Museus da Resistência. No final da iniciativa foi ainda aprovada uma moção que exige o cumprimento daquela resolução e apela às instituições da cidade, autarquias, universidades e associações culturais para que apoiem a concretização do projecto.

Luta antifascista
A intervenção de Rui Rodrigues, presidente da Associação de Estudantes da Escola Artística Soares dos Reis, marcou igualmente a iniciativa, sublinhando a importância da participação da juventude na luta antifascista. O dirigente estudantil afirmou que «a resistência antifascista não é um artefacto histórico», mas antes «um dever da nossa luta», alertando para o crescimento de grupos neonazis, partidos de extrema-direita e fascistas, e da sua «crescente força social».

Rui Rodrigues defendeu que «a luta antifascista é a base da democracia» e lembrou que a liberdade conquistada com o 25 de Abril resultou de décadas de resistência clandestina e de organização popular. «Não esquecemos os 48 anos de ditadura e os resistentes que nunca deixaram de lutar», afirmou, acrescentando que «quando temos memória, não aceitamos que reescrevam a história».

O apelo à participação na marcha contou com o apoio de centenas de personalidades ligadas à cultura, academia, sindicalismo, jornalismo e intervenção cívica, entre as quais Álvaro Siza Vieira, Joel Cleto, Carlos Magno, Rui Reininho, Ilda Figueiredo, Fernando Rocha, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Tiago Oliveira, José Manuel Mendes, Rui Oliveira, Raquel Freire, Francisco Mangas, Ivo Bastos, Gil Filipe e Pedro Ponte e Sousa. Alfredo Maia, deputado do PCP, e Mariana Silva, dos organismos executivos do PEV, também marcaram presença nesta iniciativa.

 



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