PCP assinalou em Baleizão os 72 anos do assassinato de Catarina Eufémia
Setenta e dois anos após o assassinato de Catarina Eufémia pelo regime fascista, Baleizão voltou a homenagear a trabalhadora rural alentejana, símbolo da resistência antifascista e da luta por melhores condições de vida e de trabalho.
«Não vamos desistir, o pacote é para cair»
A evocação, promovida anualmente pela Direcção da Organização Regional de Beja (DORBE) do PCP, decorreu no passado dia 17 de Maio, no concelho de Beja, reunindo cerca de 500 pessoas vindas de vários pontos do País.
A iniciativa teve início junto ao cemitério de Baleizão, onde o Secretário-Geral do PCP, Paulo Raimundo, depositou um ramo de cravos vermelhos na campa de Catarina Eufémia, gesto saudado por uma forte salva de palmas e por palavras de ordem em apoio ao PCP. Na lápide podia ler-se: «Aqui jaz Catarina Eufémia. Nascida a 13-2-1928. Camponesa e militante do PCP. Assassinada pelos fascistas quando encabeçava a luta dos trabalhadores de Baleizão por melhores jornas, em 19 de Maio de 1954».
Muitas das pessoas presentes empunhavam bandeiras do PCP, cravos vermelhos e lenços da Palestina, bem como o último número do Avante!, órgão central do Partido. Do cemitério partiu depois um desfile até ao Largo de Catarina Eufémia, encabeçado por faixas com frases como «PCP. Força de Abril. Coragem de sempre» e «PCP mais forte: mais força à luta por uma vida melhor». Ao longo do percurso ouviram-se as palavras de ordem: «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», «Paz sim, guerra não» e «Só mais um empurrão e o pacote vai ao chão».
Símbolo da resistência
Com apenas 26 anos e mãe de três filhos, Catarina Eufémia integrava um grupo de ceifeiras que reivindicava um aumento salarial de dois escudos por jorna quando foi mortalmente atingida pelos disparos da GNR, na Herdade do Olival, em Baleizão, a 19 de Maio de 1954. O seu nome tornou-se, desde então, um dos maiores símbolos da resistência popular ao fascismo.
Mais de sete décadas depois, a sua memória continua associada às denúncias de precariedade, baixos salários, exploração laboral e dificuldades no acesso à habitação, problemas que marcaram várias das intervenções políticas realizadas no Largo de Catarina Eufémia. Antes actuou o Grupo Coral Masculino de Baleizão.
A luta continua
Na abertura do comício, era patente a força de um «Largo de Catarina Eufémia pintado com as cores do Partido, de Abril e com a luta que continua». Raíssa Santos, da JCP, destacou Catarina Eufémia como exemplo de coragem e resistência. «Jovem, mulher, alentejana, trabalhadora e comunista. Numa palavra: Catarina», afirmou, associando a memória da ceifeira às lutas actuais da juventude contra a precariedade, os baixos salários e as dificuldades no acesso ao Ensino Superior e à habitação.
João Carvalho, da DORBE, relacionou a homenagem a Catarina Eufémia com os problemas actuais do Alentejo. O dirigente denunciou o «empobrecimento» da região, os baixos salários, a degradação dos serviços públicos e o avanço do agro-negócio e das monoculturas. Criticou ainda o que classificou como «maquilhagem eleitoral» em torno da segunda fase do Hospital Distrital de Beja e defendeu investimentos na ferrovia, nomeadamente na Linha do Alentejo.
No palco estiveram também Fátima Estanque, do Secretariado da Comissão Concelhia de Beja, Miguel Violante, do Comité Central e responsável pela DORBE, e Ângelo Alves, da Comissão Política e responsável pela Direcção Regional do Alentejo.
Novas ofensivas
A intervenção final coube ao Secretário-Geral do PCP, Paulo Raimundo, que classificou a evocação de Catarina Eufémia como «um dever e um orgulho» do Partido. O dirigente afirmou que recordar Catarina é também impedir o branqueamento do fascismo. Também não foram esquecidos – entre outros – os nomes de Manuel José Vieira, Alfredo Caldeira, Bento Gonçalves, Ferreira Soares, Germano Vidigal, Alfredo Dinis, Soeiro Pereira Gomes, Militão Ribeiro, José Moreira, Alfredo Lima, Estêvão Girão, José dos Santos, José Dias Coelho, José Gregório, Cândido Martins e António Graciano, assassinados de forma odiosa e criminosa pelo regime fascista.
Mais adiante, Paulo Raimundo criticou o Governo PSD/CDS, a Iniciativa Liberal e o Chega, acusando-os de promoverem uma política ao serviço dos grupos económicos e das multinacionais. Denunciou o aumento do custo de vida, as privatizações, a degradação do Serviço Nacional de Saúde e as alterações à legislação laboral, defendendo aumentos salariais, a valorização das pensões e o controlo dos preços da energia e dos bens essenciais.
O Secretário-Geral do PCP condenou igualmente a guerra no Médio Oriente e o apoio do Governo português às posições dos EUA e de Israel, defendendo «os caminhos da paz» e criticando a utilização da Base das Lajes em operações militares, o que levou o Partido a propor a criação de uma comissão de inquérito.
O discurso centrou-se também na contestação ao chamado pacote laboral, que o PCP considera representar um ataque aos direitos dos trabalhadores, através da desregulação dos horários, do agravamento da precariedade e da facilitação dos despedimentos. Paulo Raimundo apelou à participação na greve geral de 3 de Junho, afirmando que «este pacote laboral está hoje mais perto de cair do que de ser aprovado».
A evocação terminou com um almoço-convívio na vila. No final, ouviram-se despedidas de «Até amanhã, camaradas».




