“Terrorismo” e “narcotráfico”: pretextos para ingerência dos EUA na América Latina
Os EUA intensificam a pressão sobre três governos progressistas da América Latina – México, Colômbia e Brasil – usando o pretexto da alegada luta contra o terrorismo e o narcotráfico, fenómenos que têm no imperialismo norte-americano o principal promotor.
Os EUA apontam baterias aos governos progressistas da América Latina
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No início de Janeiro, militares norte-americanos bombardearam a República Bolivariana da Venezuela e sequestraram o seu Presidente, Nicolas Maduro, que se encontra desde então numa prisão federal em Nova Iorque.
A “acusação” contra o Chefe de Estado venezuelano, de que seria líder de um (inexistente) cartel de tráfico de droga, não carecia apenas de jurisdição, mas também de fundamento: aliás, não consta sequer da “acusação” formal para o seu pseudo-julgamento. Foi com esta mesma justificação que nos dias, semanas e meses que antecederam este sequestro as forças militares dos EUA atacaram embarcações venezuelanas e assassinaram os seus tripulantes.
Dias antes do sequestro de Nicolas Maduro – e da sua esposa, a deputada Cilia Flores –, Donald Trump mandou libertar da prisão o antigo presidente das Honduras, Juan Orlando Hernández, do partido apoiado pela administração norte-americana à presidência daquele país centro-americano, e que acabou por vencer as eleições. Hernández foi condenado a 45 anos de prisão precisamente pelo envio de mais de 400 toneladas de cocaína para os EUA.
Ingerência na Colômbia
O rapto de Nicolas Maduro não foi o primeiro exemplo do recurso ao pretexto do combate ao narcotráfico para justificar ingerências e agressões dos EUA, sobretudo na América Latina. A acção da DEA (Drug Enforcement Administration/ Agência de Combate às Drogas) foi sobejamente denunciada na região ao longo das últimas décadas. E foi precisamente a DEA que, em Março, apontou o presidente progressista da Colômbia, Gustavo Petro, como “alvo prioritário”, abrindo assim a porta à possibilidade de uma intervenção semelhante à que conduziu ao sequestro de Nicolas Maduro.
Petro, que pela lei do seu país não se pode recandidatar a um novo mandato – o seu termina em breve –, denunciou há dias a ingerência dos EUA nas eleições presidenciais colombianas e acusou Donald Trump de apoiar narcotraficantes, numa referência ao candidato da extrema-direita, Abelardo de la Espriella, que disputará a 21 de Junho a segunda volta com Ivan Cepeda, do Pacto Histórico, a mesma coligação que elegeu Gustavo Petro. Para Ivan Cepeda, de la Espriella representa mesmo a «mescla entre o narcotráfico, o paramilitarismo e os latifundiários, responsáveis pelos piores crimes da nossa história».
Brasil e México na mira do imperialismo
Os EUA oficializaram na sexta-feira, 5, a classificação dos grupos criminosos brasileiros Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como “organizações terroristas”. À semelhança do que fizeram vários partidos políticos, sobretudo à esquerda, o governo brasileiro repudia a decisão norte-americana, argumentando que ela coloca em risco a soberania nacional e abre espaço para intervenções militares dos EUA no país. Para o governo do Brasil, «a soberania nacional é inegociável» e «quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança».
Decisão semelhante fora já tomada, em Fevereiro, relativamente aos cartéis mexicanos. Na altura, a Presidente Claudia Sheinbaum rejeitou qualquer pretensão dos EUA invadirem a soberania do México: «eles podem chamar-lhes [aos cartéis] o que quiserem, mas com o México trata-se de colaboração e coordenação, nunca de subordinação ou intervencionismo, e muito menos de invasão. Não negociamos a soberania.» Sheinbaum informou ainda nessa altura que pretendia ampliar as denúncias contra fabricantes de armas norte-americanos que acusa de “negligência” na venda de armamento que acaba nas mãos dos cartéis.
Que o chamado “narco-terrorismo” não passa de um pretexto para justificar a ingerência e a agressão dos EUA contra Brasil e México provam-no medidas de outra natureza assumidas pelos EUA. Os EUA decidiram aumentar em 50 por cento as tarifas comerciais sobre importações oriundas do Brasil, alegando “práticas desleais”, mas na verdade assumindo-se como defensor dos grandes interesses financeiros e das chamadas big techs (os gigantes da tecnologia). No México, a Câmara dos Deputados aprovou uma reforma constitucional que visa travar a ingerência externa nas eleições, que terá ainda de ser confirmada pelo Senado.




