Celebrar o quê?
Portugal foi eleito para o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Concorria com Áustria e Alemanha a duas vagas e conquistou uma delas, ficando a Áustria com a outra.
O ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel valorizou a “vitória” de Portugal, justificando-a com a «consistência da posição geopolítica do País». Já Luís Montenegro viu nela o «reconhecimento» pelo papel desempenhado por Portugal, garantindo que irá ali «promover a paz e o desenvolvimento». A Assembleia da República aprovou um voto de saudação por esta eleição, sendo a unanimidade quebrada apenas pela abstenção do PCP: quanto a PS, BE, Livre, PAN, JPP, IL e Chega, juntaram-se a PSD e CDS na celebração.
Mas o que se está a comemorar, exactamente? Em que medida é que a eleição de Portugal, com a política externa que lhe conhecemos – e nenhuma análise séria pode ignorar a realidade –, representa uma evolução positiva no Conselho de Segurança? Alguém espera que a postura das autoridades nacionais seja, ali, diferente da que tem assumido? O que festejam o BE e o Livre, que se reivindicam do “socialismo” e o primeiro garante até ser contra «os imperialismos» e defender «a paz e a autodeterminação dos povos»? É que não é preciso ser visionário para saber que papel desempenhará Portugal naquele importante órgão – e será o de fiel servidor dos EUA, em primeiro lugar, e da NATO e da UE, nos casos em que as posições coincidam com as norte-americanas.
Basta lembrar o que disseram Rangel e Montenegro nos primeiros dias do ano, quando os EUA bombardearam a Venezuela e ao arrepio de qualquer norma internacional sequestraram o Presidente Nicolas Maduro e a deputada Cilia Flores, sua esposa: elogiaram as «intenções benignas» de tal acto, ignorando as declarações do próprio Donald Trump de que se tratava de petróleo, dinheiro e controlo sobre o país sul-americano, e demonstrando uma visão “maleável” do direito internacional, que agora juram defender. E o que dizer dos elogios de Marco Rubio a Portugal, por ter autorizado a utilização da Base das Lajes para agredir o Irão mesmo antes de ela ter sido solicitada? Importa também que não caiam no esquecimento a recusa de Paulo Rangel em considerar genocídio o que se passa na Faixa de Gaza e a manutenção de acordos e parcerias com Israel, incluindo militares. A solicitude com que o Governo cumpriu a imposição de aumentar os gastos militares e o silêncio ensurdecedor face à brutal agressão em curso contra o povo cubano não deixam igualmente margem para dúvidas.
A presença de Portugal no Conselho de Segurança poderia – e deveria – fazer a diferença. Bastava que tivesse algo parecido com uma política externa independente e se regesse pelos princípios constitucionais, o que não acontece. Até que o povo, com a sua luta, o imponha.




