Negar o que não pode ser negado

Jorge Cordeiro

Tudo o que traduza aproximação à valorização dos trabalhadores, dos seus direitos e salários anima aquela condensada expressão de aversão de classe que por aí vegeta nos círculos do poder dominante e da horda de serviçais escalados para ampliar a voz do dono. E se o pacote laboral é, por si, a expressão mais evidente desse posicionamento, a luta dos trabalhadores e em particular as greves gerais são detonador maior dessa irrepremível atitude. Donde, é ver e ouvir o arsenal de elaborados argumentos a dar asas ao que a ocasião propicia para, com base na mentira mais rastejante, no recurso à ocultação e falsificação de factos, na sentenciação do que querem decretar ainda que a realidade os desminta, tentar confirmar as suas teses. É vê-los, assim, perante a indesmentível dimensão da luta do passado dia 3, a desfilar esse exercício de retórica anti-laboral, a meter os pés pelas mãos, a desmentirem-se a si mesmos, ungidos pela auréola mais institucional ou académica que a ocasião ou o protagonista dita.

Para a ministra Ramalho e o seu chefe Montenegro, a greve geral não existiu. Assim o decretaram os principais centros das confederações patronais de quem o Governo foi porta-voz e a mando dos quais reproduziram a monumental mentira. Registe-se a forma como Governo e grande capital vêem negada pela realidade o que em palavras pretendem negar. Não se soubesse que por ali pensamento dialéctico é coisa inexistente, seriamos julgados a admitir que este exercício pueril de ver negado o que se acabou de negar tivesse alguma aproximação à lei da dialéctica que expõe «a negação da negação» enquanto lei geral que preside ao desenvolvimento da natureza, da história e do pensamento. Não é manifestamente o caso. Este Governo que jura a pés juntos que a greve foi inexistente, residual e inexpressiva é o mesmo que vem a terreiro lamuriar-se perante os impactos por ela provocados. Este mesmo Governo que se vê obrigado a condescender cinicamente com o direito à greve é o mesmo que de seguida se espraia em argumentos que expõem que, se dependesse de si, este direito deve ser banido. Um género de acordo com a greve, desde que não se possa fazer. Lê-los, vê-los, ouvi-los é uma contribuição não desprezível para fazer ruir dúvidas que em alguns subsistam sobre as intenções do Governo e do capital com o pacote laboral.



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