É preciso falar dos lucros da ANA/Vinci

Manuel Gouveia

Em 2025 os lucros da ANA foram de 599,3 milhões de euros. O valor impressiona, tem que impressionar. Impressiona como valor bruto – 600 milhões é muito dinheiro em qualquer parte do mundo – e impressiona principalmente como valor relativo. Alguns exemplos:

Impressiona (ou devia impressionar) que de um volume de negócios de 1402 milhões possa gerar um lucro de 599,3 milhões – são 43% de margem líquida, o sonho de qualquer capitalista.

Impressiona (ou devia impressionar) que uma empresa vendida há 14 anos dê, num único ano, um lucro equivalente a mais de metade do preço que custou (1127 mihões de euros). Uma empresa que nos dois últimos anos deu um lucro de 1116 milhões, praticamente igual ao preço pela qual foi vendida. Uma empresa que desde a venda deu 3145 milhões de euros de lucros.

Impressiona (ou devia impressionar) que uma tal empresa com uma tal margem de lucros tenha o Estado português “em tribunal” exigindo 220 milhões por causa das medidas contra a pandemia, mais 95 milhões por causa de não ter aumentado as taxas tanto quanto queria (sendo que desde a privatização “só” as aumentou quase para o dobro, com taxas a terem crescido 220%. E como muitos dos “tribunais” a que a ANA/Vinci recorreu são daqueles privados, chamados arbitrais, é fácil antever um triste desfecho para as contas públicas, apesar da alegria que esse assalto seguramente propiciará a accionistas, intermediários e outros beneficiários.

Impressiona (ou devia impressionar) que esse lucro seja alcançado quando a ANA/Vinci continua a degradar os aeroportos nacionais, com uma taxa de investimento ridícula (9,6% do volume de negócios), que continua a ser inferior à média do investimento anual dos 10 últimos anos de gestão pública (152 milhões a preços constantes de 2024), altura em que o investimento equivalia entre 30% e 70% do resultado líquido.

Foi a este festim que o Governo PSD/CDS se juntou, para além de todas as outras cumplicidades, ao reduzir a taxa de IRC e atribuir ainda outras benesses fiscais ao grande capital. A taxa de imposto efectiva da ANA reduziu-se de 31,19% para 29,39% – uma ajudazinha de 15 milhõezinhos de euros para os accionistas da Vinci.



Mais artigos de: Opinião

Governo: correia de transmissão dos interesses dos patrões

A expressiva greve geral convocada pela CGTP-IN constituiu uma poderosa demonstração da força organizada dos trabalhadores e uma inequívoca rejeição do pacote laboral promovido pelo Governo e o patronato. A ampla adesão verificada em diversos sectores de actividade confirmou o profundo...

“Aqui se respira luta!”

A grande luta contra o pacote laboral, com a realização de duas greves gerais (11 de Dezembro e 3 de Junho), de manifestações e jornadas de luta de âmbito nacional, de inúmeras acções e contactos com os trabalhadores e que continua com a concentração frente à Assembleia da República no dia 18 de Junho, assume, desde...

Celebrar o quê?

Portugal foi eleito para o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Concorria com Áustria e Alemanha a duas vagas e conquistou uma delas, ficando a Áustria com a outra. O ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel valorizou a “vitória” de Portugal, justificando-a com a «consistência da posição geopolítica do País»....

Negar o que não pode ser negado

Tudo o que traduza aproximação à valorização dos trabalhadores, dos seus direitos e salários anima aquela condensada expressão de aversão de classe que por aí vegeta nos círculos do poder dominante e da horda de serviçais escalados para ampliar a voz do dono. E se o pacote laboral é, por si, a expressão mais evidente...