PS, quê?

João Frazão

A aprovação a toque de caixa, na passada semana, da PSU, não foi apenas um golpe sério nos esforços que, apesar de curtos, se têm vindo a fazer para retirar milhares de pessoas da situação de pobreza que, como é sabido, atinge cerca de dois milhões no nosso País, das quais cerca de 300 mil são crianças (dados da UNICEF). Situação que seria bem pior se não contabilizássemos os apoios que agora foram alvo de mexidas legislativas. E isso já não seria pouco e exigiria sempre a mais viva denúncia de todos os que fazem do combate e esta maleita uma das suas batalhas.

Mas a votação na Assembleia da República da extinção de 13 prestações sociais, tão diferentes quanto a Pensão de Orfandade, o Subsídio Social Parental ou o Subsídio Social de Assistência a Terceiros, envolta, como agora parece ter-se tornado hábito, num drama mediático, e a sua fusão numa coisa que ainda ninguém sabe muito bem como vai funcionar, foi também – e talvez a inusitada pressa venha daí – a tábua de salvação de que o Governo precisava, poucos dias após ter sofrido a sua mais pesada derrota na votação do pacote laboral, que confirmou a crescente rejeição e o isolamento social a que a luta de massas o vem votando.

A questão que hoje aqui nos traz é que quem lançou esta tábua de salvação ao Governo, quem lhe deu a mão para salvar a face, quem fez o jeitinho para o Governo levantar a cabeça, foi nada mais nada menos que o PS, aprovando, a troco de umas pequenas mexidas, um mais que certo corte futuro em apoios essenciais para garantir um pouco de dignidade na vida de milhares de pessoas.

O Secretário-Geral do PS veio depois dizer que o Governo não está a funcionar. Mesmo não partilhando dessa opinião, pois fica à evidência que para servir os interesses do Capital o Governo funciona e está mesmo muito bem oleado, o problema é que, no momento da aprovação do Programa do Governo, no Orçamento do Estado e, agora, na PSU, o PS tem estado sempre pronto a dar-lhe um empurrão para o fazer funcionar, permitindo que ele prossiga o seu programa reaccionário e antipopular.

Entre tanta sigla parecida é caso para perguntar estamos a falar de PS, quê?

 



Mais artigos de: Opinião

A derrota do pacote laboral não foi “oferecida”

Quando, a 25 de Agosto de 2025, em pleno período de férias, o Governo PSD/CDS aprovou as alterações à legislação laboral contava com as confederações patronais e seus aliados – a IL e o CH – para um desfecho que seria de “favas contadas”. Mas não foi. O eufemisticamente designado “Trabalho...

Querem impor a guerra

Estamos a poucos dias da Cimeira da NATO, que se realizará em Ankara, Turquia. Uma cimeira que se adivinha em tom de guerra e de pressão, nomeadamente para se atingir o objectivo traçado em 2025, de gasto de 5% do PIB em despesas militares até 2035. No passado dia 18, o passo, para esta cimeira, foi acertado por Peter...

O que seria?

Disse há dias o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, que sem a capacidade defensiva que o país demonstrou face à agressão norte-americana e israelita o seu país teria acabado «arrasado como Gaza» – ou, permitam-me o acrescento, como o sul do Líbano, hoje, às mãos de Israel. Durante os ataques, iniciados ainda em...

Crimes e hipocrisia na América Latina

São graves as consequências dos sismos que provocaram enorme destruição e um número indeterminado de vítimas na Venezuela. É difícil imaginar o sofrimento do povo e as hercúleas exigências com que autoridades e instituições venezuelanas estão confrontadas. O momento é, portanto, o de fazer chegar ajuda à Venezuela e...

Gato escondido com fundo de fora

Luís Montenegro anunciou no encerramento do Congresso do PSD a criação de um “fundo soberano” para ter participações em áreas como a energia, a banca, as comunicações ou a gestão de infra-estruturas aeroportuárias. Em geral, os fundos soberanos são constituídos por dinheiros públicos, resultantes de recursos naturais ou...