Ingerência, protagonismos… e futebol

Uma das notícias do dia da última segunda-feira foram os insistentes telefonemas do Presidente dos EUA ao homólogo da FIFA que resultaram na suspensão do castigo a um jogador que tinha visto um cartão vermelho no jogo anterior do Campeonato do Mundo. Este foi mais um episódio da longa lista de ingerência política sobre competições desportivas, mas também da profunda hipocrisia com que os actores mediáticos tratam matérias envolvendo os líderes das principais potências mundiais. O contraste entre o rasgar de vestes com esta manifestação de corrupção ao mais alto nível e outros casos em que chamadas telefónicas de Donald Trump terraplanaram outras regras, tantas vezes do direito internacional e com consequências dramáticas para a vida e morte, e facilitando o esbulho dos recursos de outros povos, é gritante.

Mas o Mundial de futebol evidenciou ainda outras opções crónicas no espaço mediático, que traduzem a natureza e alinhamento da comunicação social dominante com os interesses dos poderosos. Um dos exemplos é a escolha de dirigentes políticos para comentar jogos de futebol, invariavelmente alinhados à direita, como num painel da SIC Notícias na tarde do dia do jogo entre Portugal e Espanha, com três militantes e antigos eleitos do PSD e do CDS: José Dias Ferreira, Fernando Seara e Diogo Feio. A estes pode-se juntar outros casos, o que, aliás, não é exclusivo desta competição de 2026. Podemos lembrar vários casos de eleitos e dirigentes partidários da direita com presença mediática recorrente por via das suas afinidades clubísticas, ou a utilização desta como rampa de lançamento para projectos políticos, como sucedeu com Rui Moreira, que beneficiou da visibilidade do seu comentário futebolístico para alcançar a presidência da Câmara Municipal do Porto, ou de André Ventura, com o conhecido percurso formativo nos debates sobre as incidências das jornadas de futebol.

É certo que, sem mais elementos, qualquer tese que aponte para um alinhamento entre os objectivos de decisores mediáticos e as ambições políticas daqueles a quem é dado espaço é apenas especulativa. Mas isto revela, pelo menos, uma realidade que ultrapassa a esfera desportiva na escolha de quem tem acesso ao espaço mediático: o profundo elitismo presente nessas opções. São escolhidos não pelo seu passado de prática da modalidade, pelo seu profundo conhecimento técnico ou táctico do jogo, mas pelo seu percurso político e partidário.

Estes espaços de debate ou comentário tornam-se, assim, mais uma plataforma de protagonismo público para certas figuras, com uma assinalável uniformidade política e ideológica, que ajudam a legitimar as escolhas de quem participa noutros espaços mediáticos onde se discutem matérias de outra natureza: depois do bombardeamento de dirigentes da direita para discutir as incidências de um jogo de futebol, passa com menos estranheza os debates sobre os temas que marcam a vida política nacional exclusivamente inclinados à direita.

 



Mais artigos de: PCP

Reforçar a ligação ao povo significa reforçar o Partido

Estar onde estão as massas implica actuar e intervir directamente junto da base da população. Envolve trabalhar com as pessoas, compreender os seus anseios e agir na defesa dos seus direitos. É a profunda ligação do Partido ao povo e a quem trabalha um dos elementos mais distintivos da sua intervenção.

PCP desafia Governo em Braga sobre condições de vida

O PCP desafiou, no dia 1, numa conferência de imprensa em frente ao Hospital Nossa Senhora da Oliveira, o primeiro-ministro a almoçar em Guimarães com apenas 2,4 euros, valor que equivale ao subsídio de refeição predominante no sector têxtil. O repto surgiu a par de tantos outros colocados ao Executivo sobre as áreas da saúde, habitação, cultura, mobilidade, ambiente e direitos laborais.

Encontro PCP-PEV

Uma delegação do PCP, composta pelo Secretário-Geral Paulo Raimundo e o membro dos organismos executivos Jorge Cordeiro, participou segunda-feira num encontro com o Partido Ecologista «Os Verdes» na sua sede. Em declarações aos jornalistas, Paulo Raimundo enquadrou este encontro na necessária...

PCP critica escolha de Paulo Portas

O PCP considera que a nomeação de Paulo Portas para coordenar o comissariado nacional das comemorações dos 900 anos da Batalha de S. Mamede «não é adequada».